Experiência imersiva Sons que Curam com recursos tecnológicos, aborda temas urgentes como a preservação dos biomas, das águas, do sagrado, da ancestralidade e convida à cura

Para a criação da obra, Shirley Krenak, guardiã da cultura Krenak, percorreu mais de 700 quilômetros às margens do Rio Doce, chamado pelo povo Krenak de Watu cruzando a Terra Indígena Krenak e a Mata Atlântica, bioma em constante ameaça de destruição. Ao longo do trajeto, acompanhando o fluxo do Rio, a artista captou sons, imagens e sua simbiose com o meio-ambiente.

Nesta paisagem documental sonora e visual, tecida por Shirley, é apresentada ao visitante uma viagem desde as águas puras e cristalinas, passando pelas águas contaminadas, com o rompimento da barragem na região de Mariana (MG), crime ocorrido em 2015 que despejou milhares de toneladas de rejeitos tóxicos no rio, até a foz.

Por meio da exibição de som ambisônico e da projeção de imagens, a artista lança mão de recursos tecnológicos para criar um mergulho por paisagens naturais e urbanas com cantos, danças e ritos espirituais. A vivência, com duração de 20 minutos, contará com a performance da artista e será apresentada em sessões às 19h, 20h e 21h, de 30 de agosto a 02 de setembro. Todas as sessões contam com acessibilidade em Libras.

A instalação inédita acontece no Memorial dos Povos Indígenas e a experiência é complementada por cenografia que vai ocupar o Pátio do Museu com plantas, uma “casa de cura” e trilha sonora original criada a partir de sonhos da artista. Com a realização desta obra, a artista evoca a memória ancestral e concebe um chamado para a cura que vem do som, da força feminina e pela regeneração do meio-ambiente para a humanidade.

Para os Krenak, ou Borum, povo indígena que vive na região do médio rio Doce, a Terra é um ser vivo a ser tratado com respeito e reverência. Na obra imersiva Sons que Curam, Shirley propõe uma reeducação da escuta dos não-indígenas com os sons e o canto Krenak que ecoam os movimentos da terra, das águas, dos minerais, dos vegetais e da pluralidade de vidas. “É isso que faz os Borum, quando dançam seus sons, pois é através da escuta que sintonizam corpo e espírito”, explica a artista.

“O som está em todos os seres, humanos e não humanos. Apresento o som da nossa casa, a casa comum. O lugar onde eu habito e que você também habita. A instalação é um convite ao escutar. Quando se aprende a ouvir sons, se fortalece a potência sagrada da Mãe Terra. Diante das agressões constantes que ameaçam as condições da vida, a instalação surge da necessidade de uma interação cuidadosa com todas as formas de existência”, diz Shirley Krenak.

Diante do impacto humano planetário sobre o solo terrestre, a exemplo do rompimento da barragem, a artista mergulha nas feridas desse trauma para refletir sobre um caminho para a regeneração e o cuidado ecológico. A jornada percorreu pontos como a Serra do Curral/MG, o Parque do Rio Doce/MG, Resplendor/MG, Regência/ES e o Parque Nacional Sete Salões/MG, solo sagrado e terra indígena reivindicada pelo povo Krenak.

O projeto é realizado pela produtora ATerrestre e conta com os patrocínios do BigBox, Neoenergia Brasília e Instituto Neoenergia – Edital Transformando Energia em Cultura, através da Lei de Incentivo à Cultura do Distrito Federal (LIC-DF), em parceria com o Instituto Shirley Djukurnã Krenak e Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).

Shirley Krenak

Ativista indígena, liderança, artista e guardiã da cultura Krenak. Shirley Djukurnã Krenak pertence ao povo indígena Krenak do leste do estado de Minas Gerais. A artista tem dedicado sua vida a preservar a cultura e a ancestralidade do povo Krenak e expressa a dimensão política da conservação e proteção dos biomas na sua manifestação artística.

Desde seus 13 anos de idade ela responde ao chamado da Mãe-Terra para ser uma representante dos direitos indígenas e lutar pela preservação do meio-ambiente e da espiritualidade ancestral. Com 40 anos de idade, se dedica à luta das mulheres indígenas, herdada desde seu nome tradicional Djukurnã: mulher sempre disposta, pois é portadora do espírito que nunca envelhece.

Atualmente, desenvolve trabalhos terapêuticos ancestrais, voltados para a cura e para o despertar do ser humano e da consciência ambiental, e projetos educacionais e de fomento à cultura indígena. Símbolo da resistência ancestral de seu povo, a Mata Atlântica é a fonte de inspiração e tema de sua obra, que utiliza a arte como uma forma de se conectar com suas raízes e a transmitir para as gerações futuras.

Shirley Krenak, autora dos livros “A Onça Protetora” e “Krenak Ererré”, é cofundadora da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) e coordena o Instituto Shirley Djukurnã Krenak.

Serviço:

Instala̤̣o Shirley Krenak РSons que Curam
Local: Memorial dos Povos Indígenas
Endereço: Eixo Monumental Oeste, em frente ao Memorial JK
Visitação: de 30 de agosto a 02 de setembro, das 9h às 18h
Sessões: de quinta a sábado, às 19h, às 20h e às 21h. Todas com tradução simultânea para Libras
Entrada franca, mediante retirada de ingresso em: https://www.sympla.com.br/evento/sons-que-curam-instalacao-audiovisual-e-performance/2121575
Classificação indicativa: livre para todos os públicos
Informações: @djukurnasonsquecuram, no Instagram