“Mil Placebos”, do escritor gaĂșcho Matheus Borges, vence PrĂȘmio Odisseia de Literatura FantĂĄstica na categoria “Narrativa longa – Ficção CientĂ­fica”

Mil Placebos discute os impactos psĂ­quicos e sociais da tecnologia e do capitalismo tardio, abrindo tambĂ©m discussĂ”es sobre violĂȘncia, depressĂŁo e solitude.

Mescla de neo-noir, ficção cientĂ­fica e o ensaio acadĂȘmico, “Mil Placebos” (Uboro Lopes, 192 pĂĄg.), obra de estreia do gaĂșcho Matheus Borges (@matheusmedeborg) traça uma investigação psĂ­quica do capitalismo tardio ao analisar os impactos da internet e da tecnologia nas relaçÔes afetivas. O livro foi anunciado em evento de premiação na Biblioteca PĂșblica do Estado do Rio Grande do Sul, como o vencedor do PrĂȘmio Odisseia de Literatura FantĂĄstica na categoria Narrativa longa – Ficção CientĂ­fica. Neste ano, “Mil Placebos” tambĂ©m foi finalista do PrĂȘmio Mozart Pereira Soares de Literatura, na categoria Romance.

A solidĂŁo do algoritmo: romance investigativo discute os impactos psĂ­quicos e sociais da tecnologia e do capitalismo tardio

E se o ‘homem do subsolo’ de FiĂłdor DostoiĂ©vski tivesse acesso aos fĂłruns do 4chan? E se Edgar Allan Poe, na hora de conceber suas novelas policiais, tivesse acesso aos futuros psicopatolĂłgicos que povoavam a mente de J. G. Ballard? E se nada disso fosse necessĂĄrio, pois o capitalismo alienante e o submundo tecnolĂłgico estivessem levando, agora mesmo, jovens a percorrerem o percurso trĂĄgico da solidĂŁo do espĂ­rito Ă  desagregação mental, culminando em atos de violĂȘncia impensĂĄvel?

SĂŁo questĂ”es levantadas pelo escritor Daniel Galera na orelha do livro “Mil Placebos”. “O livro fala de solidĂŁo e atomização social, de como os processos que organizam o mundo tambĂ©m sĂŁo capazes de afetar nossa cognição”, aponta o autor, que ressalta como a estrutura da obra foi pensada de forma a ir e voltar no tempo, “quase que replicando a disposição que um algoritmo dĂĄ a uma timeline de rede social”, o que justifica a hibridez de gĂȘneros adotada no livro.

O escritor aponta a importĂąncia de se abordar os temas escolhidos. “Tanto num Ăąmbito polĂ­tico, pois me parece que a ascensĂŁo de uma extrema-direita organizada Ă© algo que passa por esses processos descritos no livro, mas tambĂ©m em nĂ­vel individual: nĂŁo dĂĄ pra negar o quanto nossas vidas dependem hoje dessas tecnologias, desses dispositivos, de toda uma rede de ideias e costumes construĂ­da a partir dessa dependĂȘncia. De que maneira isso afeta nossa cognição e a maneira como nos relacionamos com os outros?”, questiona.

Nascido em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, em 1992, Matheus Borges Ă© formado no curso de realização audiovisual da Unisinos e egresso da oficina literĂĄria de Luiz Antonio de Assis Brasil, realizada na PUC/RS. Suas histĂłrias jĂĄ foram publicadas em revistas literĂĄrias brasileiras e no exterior, bem como em coletĂąneas e antologias. No cinema, atuou como roteirista em “A Colmeia”, longa-metragem vencedor de cinco prĂȘmios na edição de 2021 do Festival de Cinema de Gramado. Atualmente, Matheus estĂĄ desenvolvendo seu projeto de mestrado no PPG Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Um thriller paranoico, um mistĂ©rio repleto de pistas falsas, um suspense ciber-messiĂąnico”

Um thriller paranoico, um mistĂ©rio repleto de pistas falsas, um suspense ciber-messiĂąnico. Assim Matheus define seu prĂłprio livro, cuja trama gira em torno de um personagem que adota “Eyeball Kid” como nickname em redes sociais e fĂłruns online. Com vĂ­nculos sociais frĂĄgeis na “vida real”, ele se apaixona por uma jovem nas redes que se identifica como “Jersey Girl” e que acaba comentendo suicĂ­dio logo no começo da histĂłria. Eyeball Kid decide entĂŁo investigar as razĂ”es da morte, caindo numa longa, intensa e violenta espiral de acontecimentos incomuns.

“‘Mil Placebos’ Ă© o passo a passo dessa investigação, sua grande rede de consequĂȘncias, dentro e fora dos mundos virtuais”, afirma FabrĂ­cio Silveira, pĂłs-doutor em Comunicação, professor colaborador junto ao Programa de PĂłs-Graduação em Comunicação da UFRGS. Segundo o professor, o livro entrega ao leitor a subjetividade profunda de Eyeball Kid, um narrador em crise, que se constitui e se revela (revela-se, acima de tudo, para si mesmo) na medida em que se deixa tragar por uma sucessĂŁo avassaladora de acontecimentos. “Muitas vezes sĂŁo acontecimentos fortuitos, que parecem despropositados, sem nexo; noutras, sĂŁo acontecimentos viscerais e violentos.”

“Queria com ‘Mil Placebos’ explorar os efeitos psĂ­quicos do contato prolongado com o trĂĄfego de informaçÔes, as relaçÔes humanas mediadas por interfaces eletrĂŽnicas, de que maneira isso se relaciona com a realidade em si”, diz o autor a respeito dos temas centrais da obra. Em tempos de fĂłruns e chans ganhando relevĂąncia no debate pĂșblico apĂłs a ascensĂŁo da nova extrema-direita, tambĂ©m viu como necessidade pensar a manipulação dos espaços de discussĂŁo.

Matheus Borges começou a escrever “Mil Placebos” em 2013. Ele estava interessado em criar um romance que comportasse a perspectiva do cyberpunk dentro dos parĂąmetros de realismo literĂĄrio. Sua intenção era criar um thriller que abordasse o aspecto obscuro — quase mĂ­tico — da deep web, em oposição Ă  banalidade da internet superficial. Assim, “Mil Placebos” acabou sendo um livro orientado por uma perspectiva de ficção cientĂ­fica, influenciada por autores como J. G. Ballard, William Gibson, Don DeLillo. “Com essa perspectiva, tentei trazer aspectos do gĂȘnero relacionados Ă  estranheza de um mundo que Ă© guiado por dispositivos de comunicação”, explica o escritor, que tambĂ©m cita pensadores do capitalismo tardio como referĂȘncias, em especial Mark Fisher, Franco Berardi e McKenzie Wark. NĂŁo Ă  toa, usa como epĂ­grafe uma frase de Ballard: “Tudo estĂĄ se transformando em ficção cientĂ­fica”.

“Em seu primeiro romance publicado, Matheus Borges demonstra seus poderes singulares de construção psicológica, evocação de detalhes e observação atenta da nossa realidade fraturada e saturada de informação.”

Trecho da orelha de “Mil Placebos”, assinada por Daniel Galera

“‘Mil Placebos’ nos apresenta um universo de incomunicabilidade, embora estejamos soterrados de informação, ardendo de tanta proximidade e tanto contato. Eyeball Kid, o narrador que nos estende a mĂŁo, Ă© um sujeito assustado, embora lĂșcido. Ele tem medo, pode se tornar violento e se deixar arrastar pela desconfiança, pela confusĂŁo mental e pela fĂșria paranoica que enxerga em quase toda parte. Ele pode nĂŁo ter mais retorno. Ele quase nĂŁo tem mais cura.”

Fabrício Silveira, pós-doutor em Comunicação, professor colaborador junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS

“Minha lembrança do verĂŁo daquele ano Ă© sobretudo quĂ­mica: um de nĂłs tomava venlafaxina e o outro, citalopram. Éramos dois zumbis, sonolentos ou insones, sobretudo aĂ©reos. O ambiente nĂŁo era, portanto, o mais agradĂĄvel.”

Trecho do livro “Mil Placebos”

Mil Placebos
Capa do livro Mil Placebos | Imagem: Ilustrativa

Confira trecho do livro:

“JĂĄ fazia algum tempo que eu nĂŁo visitava o consultĂłrio do psiquiatra. Havia estado lĂĄ duas ou trĂȘs vezes e a companhia daquele homem me provocava um tĂ©dio imenso, bem como seus conselhos e conclusĂ”es, dirigidas ao ideal platĂŽnico de paciente, nunca a mim ou a qualquer indivĂ­duo em particular. As consultas eram tĂŁo infrutĂ­feras quanto as aulas e todas compartilhavam desse mesmo aspecto terrĂ­vel de impessoalidade autoritĂĄria, exigindo que eu apresentasse bons resultados, a fim de validar as teses aplicadas em mim, o paciente e aluno.”

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