Uma reinven̤̣o de Chico Buarque Рnovo trabalho de Eduardo Rangel

Um dos compositores mais celebrados da música mundial, Chico Buarque foi relido até em ritmo de rock: Cássia Eller gravou ‘Partido Alto’ no álbum “Acústico MTV”, de 2001, e Pitty fazia citações do mesmo samba entre riffs de guitarras. Mas há quem consiga tirar o repertório do compositor do lugar comum. O álbum e o DVD “Eduardo Rangel & Quarteto Sinfônico Interpretam Chico Buarque” – recém lançados digitalmente em novembro –, trazem um olhar erudito para clássicos do mais carioca dos autores paulistanos.

Rangel e Joaquim França, arranjador, pianista e diretor musical do projeto, explicam o desafio de transpor o universo chicobuarquiano para esse meio de elevada reputação. Em seis décadas de carreira artística, Chico trabalhou ao lado de arranjadores como Rogério Duprat e Luiz Cláudio Ramos, e muitas de suas criações trazem influências de autores eruditos. França ressalta a riqueza melódica e harmônica de Chico e chega a compará-lo com os românticos do século XIX Richard Wagner e Johannes Brahms.

A transposição das canções para o universo erudito ficou a cargo do maestro Joaquim França e a execução é do Quarteto Sinfônico, formado por músicos da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro. Além do piano elegante de França, o quarteto se completa com o violino de Daniel Cunha, o violoncelo de Ocelo Mendonça e o contrabaixo de Oswaldo Amorim. Os instrumentistas convidados são Ytto Morais (percussão e efeitos) e Márcio Vieira (pancorde, baron, flutuô e girassino), instrumentos executados em ‘Ciranda da Bailarina’.

As releituras estão além do trivial de lançamentos dessa categoria. Existe uma reinvenção dessas composições. “A gente fez com a maior simplicidade possível”, diz França. A alegada simplicidade, contudo, traz ousadias e reinvenções. ‘Samba e Amor’, de 1970, tem um casamento exemplar de violino com a marcação do tamborim; ‘Beatriz’, parceria com Edu Lobo, de 1983, transforma-se em outra música, de feição inédita, na única faixa com o cantor só, ao piano. Outras surpresas vão se revelando ao longo das onze composições do DVD.

Na posição de intérprete, Eduardo Rangel dá um tom singular às criações de Chico. Descoberto por Hermínio Bello de Carvalho em 1979, aos dezesseis anos, ele se destaca tanto no trabalho autoral quanto em releituras de cânones da música. Além da voz distinta – aguda, um quase soprano -, ele sobressai ao revelar o perfil teatral de canções como ‘Ciranda da Bailarina’ e ‘Jorge Maravilha’. “Eduardo Rangel & Quarteto Sinfônico Interpretam Chico Buarque” é uma maneira singular de homenagear um dos grandes autores do cancioneiro brasileiro e mundial.