Até 12 de abril, a Casa Aerada Varjão recebe a exposição “Contempláveis do Apogeu” de Thaís Kuri, com entrada franca

Sua pesquisa revela as possibilidades criativas que os resíduos sólidos urbanos inspiram. Ao deslocar a matéria de contexto provoca no espectador a reflexão acerca da exploração predatória da natureza no ritmo desenfreado do “progresso econômico”. Resíduos, rua, catadoras e galeria confluem em obras que fazem um convite à contemplação do apogeu civilizatório, ápice de paradoxos.

A mostra provoca a contemplação das obras como veículos condutores que adquirem novos valores que perpassam a antropologia, artes visuais, sociologia, urbanismo e meio ambiente em um rizoma que espelha bem a ocupação de Brasília e Entorno ao longo da urbanização do centro do Brasil.

A pesquisa artística e acadêmica de Thaís Kuri teve início há quinze anos na Universidade de Brasília.

“Em 2008 habitei a Casa do Estudante da UnB, uma moradia para alunos pobres que não têm família no DF. Os contêineres de lixo dali eram frequentados por pessoas que coletavam nossos resíduos sólidos. Neste contexto, a desigualdade social tomou uma dimensão ainda mais palpável. Como era possível ter pessoas vivendo do nosso lixo?” Conta Thaís Kuri.

“Na tentativa de implantar uma coleta seletiva, e de certa forma humanizar o trabalho de quem coletava nosso lixo, criamos o projeto ‘Usina’ e nos unimos a uma turma da Engenharia Florestal que cuidava da horta comunitária, para promover a conscientização ambiental na Casa. No ano seguinte, criamos um ateliê de reciclagem artística, pois o resíduo era tanto e tão variado, e muita coisa não era coletada. Assim, chamamos a professora Thérèse Hofmann para ser orientadora do nosso projeto de extensão. Ela já tinha um trabalho bastante consolidado com reciclagem de papel no Departamento de Artes”. Detalha a artista, que convidou Thérèse Hofmann para a curadoria da exposição que aporta na Casa Aerada Varjão.

Varj̣o РCasa Aerada e Central de Reciclagem:

O Varjão une a Casa Aerada e a Central de Reciclagem do Varjão (CRV), que ficam bem próximos pela localização e ainda mais conectados a partir desta exposição que segue em exibição até abril de 2024.

Thaís Kuri costura a reflexão sobre os rumos e opções da civilização contemporânea a partir de um questionamento sobre os impactos sociais, ambientais e humanos gerados pela sociedade industrial e sua lógica do progresso a qualquer custo.

A proposta também lança o olhar sobre como este estado de coisas se reflete no Distrito Federal e em sua forma de organizar os fluxos de produção-consumo-descarte. A relevância da proposta está em integrar a sensibilidade com assuntos urgentes de ordem social e ambiental.

Nesse contexto, a participação de trabalhadores e trabalhadoras da limpeza urbana é fundamental, conectando as camadas de reflexão que o projeto propõe, sejam elas: social, ecológica, estética e histórica. A partir dos depoimentos das trabalhadoras, se busca conscientizar o público sobre a relevância do tema para que haja justiça social no cuidado com o resíduo sólido urbano residencial.

“A coleta seletiva está em operação em quase todo o DF, mas a qualidade do material separado pela população precisa melhorar muito. Isto tem acarretado a perda de mais de 60% de material coletado, que poderia estar retornando para os ciclos de produção, gerando renda e diminuindo os impactos no meio-ambiente” Conta Thaís Kuri.

Além das obras artísticas, o projeto prevê uma forte inserção comunitária, já que o tema exige uma reflexão sistêmica sobre a nossa realidade social. Por isso, haverá uma pré-abertura, com evento exclusivo para profissionais da limpeza urbana, em especial mulheres da comunidade (Varjão) que atuam na coleta de resíduos sólidos. Este encontro está marcado para o dia 28 de fevereiro, às 19 horas, na Casa Aerada Varjão. A ocasião promoverá um espaço de escuta sensível para estas mulheres, gerando material audiovisual a ser disparado nas redes do projeto e nas mídias tradicionais.

O Programa Educativo prevê visitas guiadas com estudantes de escolas públicas, jovens do sistema socioeducativo, além de mediação especializada para pessoas com deficiência visual e também tradução em LIBRAS.

Sobre a artista:

Thaís Kuri vive em Brasília, tem alma mineira e nasceu no estado de São Paulo. Trabalhou com produção cultural, na circulação de grupos musicais, de teatro, dança e circo nas Regiões Administrativas do Distrito Federal desde 2009, e hoje aplica os aprendizados destas experiências como especialista em artes no Sistema Socioeducativo do DF.

Ama conhecer novas cidades, e investiga a urbanidade conectando arte e ecologia. Dança desde os 13 anos e escolheu a capoeira para dançar até o fim da vida. É mestra em Arte Contemporânea e Licenciada em Artes Visuais pela Universidade de Brasília, e possui especialização em Gestão Pública.

Sobre a Casa Aerada:

A Casa Aerada Varjão abriu suas portas em novembro de 2021 com uma exposição coletiva com sete artistas consagrados da cidade. Idealizada pelo casal, Andreza Barbosa, professora de Artes da Secretaria de Educação do Distrito Federal, e Miguel Simão, artista plástico e professor de Escultura da UnB, a Casa Aerada Varjão propõe-se como um local de convivência, aberto ao público, com atividades relacionadas à produção, pesquisa, ensino, orientação e exposições para toda a região do Distrito Federal.

Serviço:

Exposição “Contempláveis do Apogeu” de Thaís Kuri
Visitação: De 02 de março a 12 de abril de 2024
Local: Casa Aerada Varjão (Varjão, q. 01, conj. B, casa 06, Brasília – DF)
Classificação: Livre
Entrada franca
Informações: Instagram @casaaeradavarjao