UMA AULA TEATRAL EM PLANALTINA


No último final de semana, entrou em cartaz para curta temporada o espetáculo “Vidas Secas”, realizado numa parceria entre a Cia. Fabrica de Teatro e o Centro de Ensino Médio 02 de Planaltina.

“Vidas Secas” é um projeto com fomento do FAC – Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do DF e consistiu em treinar estudantes do ensino médio para a construção de um espetáculo teatral profissional. A ideia de realizar a montagem do projeto em Planaltina se deu pelo fato de o diretor e idealizador do espetáculo, Junior Ribeiro, morar na cidade e ter um forte engajamento na comunidade escolar.

O primeiro passo para realizar a montagem de um espetáculo teatral numa escola, respeitando as etapas burocráticas e tecnologias cênicas de uma obra artística, foi firmar a parceria com a instituição de ensino e realizar inscrições com estudantes do ensino regular. Após as inscrições, foi feita uma espécie de audição coletiva, onde os inscritos selecionados participaram de workshops de teatro, canto e expressão corporal. Com o passar do tempo, foi fechado o elenco oficial e o processo de construção da obra passou a ganhar forma.

Os estudantes-atores tiveram treinamento com o diretor Junior Ribeiro e o assistente de direção Xandre Martinelli. A parte musical ficou a cargo de Andréia Nayrim, com acompanhamento dos músicos Jah Soares e Lucas Gemeli. Os adolescentes que tinham mais aptidão à interpretação teatral, fizeram parte do elenco e os que tinham mais aptidão musical, participaram do núcleo de percussão.


“Vidas Secas” é livremente inspirado no consagrado romance de Graciliano Ramos, que conta o drama de uma família de retirantes no sertão nordestino. Com a família, a fiel companheira Baleia, uma cadela que se tornou ponto de lembrança de quem leu o livro ou assistiu às citações poéticas sobre ela em produções de vídeo e telenovelas. Coincidentemente, na escola onde a peça foi construída, uma “Baleia” fez parte de todo o processo de ensaio, conquistando a todos da produção. Na verdade, a cadelinha não se chamada Baleia e sim Shirley. O apelido que faz alusão ao livro foi inevitável durante os mais de três meses de processo. E ela esteve presente desde a seleção até a apresentação, chegando a entrar no palco durante a sessão, com direito à participação especial.


A ansiedade dos participantes, dos pais dos estudantes, da direção e de toda a comunidade escolar ficou maior com os dias que antecederam as apresentações oficiais, que ocorreram nos dias 29 e 30 de junho e 01 de julho de 2018.

CONTATO COM O MUNDO DA ARTE

Engana-se quem pensa que projetos socioculturais são temporários e esporádicos. “Vidas Secas” surgiu para marcar o ano de 2018 no CEM 02 de Planaltina. Os estudantes tiveram acesso a todas as etapas de construção teatral. Foram elas:

EXERCÍCIOS CÊNICOS – DIVISÃO DE TAREFAS – MONTAGEM DE TEXTO – DIVISÃO DE PERSONAGENS – TREINAMENTO DE ATORES – ENSAIOS DE CENA – ENSAIOS GERAIS- CONSTRUÇÃO DE FIGURINO – AÇÕES DE DIVULGAÇÃO – CONSTRUÇÃO E MONTAGEM DE CENÁRIO – MAQUIAGEM CÊNICA, APRESENTAÇÃO OFICIAL E DESMONTAGEM DE ESTRUTURA.

Uma das coisas que pude presenciar e me encantar com o projeto foi referente ao processo de divulgação da obra. De repente, estudantes de uma escola pública passaram a protagonizar notícias em cadernos e colunas culturais do DF, aparecendo em sites, jornais impressos, revistas digitais (como a do Aqui Tem Diversão) e mídia televisiva. Aliás, parte do elenco gravou chamada oficial da peça na televisão – o que causou verdadeira comoção de pais e colegas quando o vídeo foi ao ar na agenda de diversão e arte do final de semana do DF. Para quem é ator, esse expediente é algo normal, mas não há como negar que a primeira experiência de anúncio de peça em grandes veículos é sempre muito empolgante.

A peça foi apresentada no ginásio de esportes do CEM 02, que foi transformado num ambiente teatral de maneira majestosa. Traves de futebol foram adaptadas em empanadas cênicas com tecido de juta e algodão cru e a estrutura da cesta de basquete num grande painel de projeção de iluminação. Aliás, a iluminação do espetáculo, assinada por Emmanuel Queiroz, foi um capítulo à tarde. Toda a ambientação e adaptação em nada fez lembrar que aquele lugar é um ginásio de esportes. Poesia e técnica puras!

No piso, sacos e sacos de areia lavada deram um tom rústico e poético à peça, que tinha uma banda que reproduzia ao vivo as músicas tocadas em cena. Tudo com muito esmero, profissionalismo e encantamento. No rosto dos atores, apreensivos, nervosos e empolgados, era possível ver que ainda vale a pena lutar pela arte nas comunidades, apostando no talento de jovens que têm muito a mostrar. A euforia e a vontade de fazer bem feito estavam estampadas no olhar de quem estava tendo essa primeira experiência artística. Uma das estudantes-atrizes, Julia Nuto, brilhou em cena em interpretações musicais de alto nível. Julia teve passagem nos reality shows The Voice Kids (TV Globo) e Ídolos Kids (TV Record). E entre Julias, Kaios, Anas, Ruans, Lynvons, Mateuses, Bells e Fernandas o espetáculo “Vidas Secas” foi ganhando forma e vigor. Alice Câmara, Alícia Saraiva, Erika Araújo, Ingrid Ellen, Isa Rodrigues, Joyce Ellen, Mariana Almeida, Mirelly Nascimento e Thainá Nóbrega completam o time de atores que cantaram e encantaram aos mais de 650 espectadores que saíram de suas casas à noite para assistirem a um espetáculo teatral numa escola pública.

Autoridades, artistas, familiares, amigos, colegas… o público misto representou muito bem a força que projetos como o da Fábrica de Teatro têm nas cidades afastadas dos grande centros urbanos.

A delicadeza com que a peça foi construída fez com que essa experiência de imersão teatral numa curta temporada de três dias fosse inesquecível para quem fez e quem assistiu às apresentações. Muitos lembrarão que além da famosa Via Sacra e do Teatro Lieta de Ló, um dia Planaltina vibrou com jovens interpretando “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos numa escola da cidade.

Viva a juventude interessada nas artes e os projetos culturais que transformam vidas!

Josuel Junior é ator, professor, produtor cultural e assessor de imprensa formado pela Fundação Brasileira de Teatro – Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Tem trabalho ativo em teatro, cinema, televisão e fotografia.

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