Christian Dunker retrata a depressão no livro Uma biografia da depressão, como uma entidade real para mostrar como ela se tornou personagem decisivo na idade moderna

Escrever uma biografia da depressão significa retratá-la como uma entidade real, com documentos que comprovam sua existência, testemunham seus feitos e suas razões de ser, mas também como uma ficção ou uma hipótese, sujeita a interpretações e subjetividades. Em Uma biografia da depressão, lançada pelo selo Paidós da Editora Paneta, Christian Dunker apresenta um tipo de narrativa que busca contornar um problema clássico da psicopatologia, que questiona se as doenças mentais são verdadeiras doenças. Ao longo do livro, o psicanalista refaz os passos genealógicos do transtorno a partir de seus parentes distantes nas famílias da tristeza e da melancolia para mostrar que a depressão é “um nome demasiado pequeno para tantas formas e cores, que reúne coisas que não andam juntas”.

Partindo do ponto do nascimento da depressão, Dunker discute o embate entre a psiquiatria e a psicopatologia entre os séculos XVII e XVIII, quando diferentes áreas médicas esforçaram-se em reescrever os sintomas segundo uma base vocabular consensual, de forma a introduzir as relações de causalidade ou etiologia que concorrem para a determinação de doenças. “Ao contrário das outras áreas da medicina que dispunham de esqueletos, dissecções e cadáveres para descrever as alterações funcionais ou fisiológicas dos tecidos, essas não encontravam na matéria cinzenta do cérebro nada que pudesse esclarecer os adoecimentos mentais”, ele escreve. O autor faz uma viagem no tempo para mostrar que o surgimento da depressão é contemporâneo ao romantismo nas artes e que sua estabilização como quadro clínico acompanha a fixação da proposta modernista nas artes visuais.

Na parte ‘Entrevista com a depressão’, o psicanalista busca ouvir da biografada as próprias impressões sobre si mesma. No capítulo, a depressão discorre sobre suas diversas faces e condições psíquicas, como o luto patológico, e apresenta o conceito de depressão narcísica fazendo um paralelo com as redes sociais. De acordo com a psicanálise, o ‘eu’ tem estrutura de espetáculo, no qual o sujeito é protagonista, auditório e crítico de sua representação. “O narcisismo contemporâneo é, portanto, uma montagem específica do show do eu”, na qual ignora o fato de que o protagonista é aquele que carrega o conflito dentro de si. “A novidade trazida pela vida digital é que o princípio da bilheteria pode ser universalizado. Todos podem entrar e praticar o show do eu criando uma espécie de ilusão dentro da ilusão, ou de teatro dentro do teatro, no interior do qual vamos enfim saber o tamanho de cada eu (pelo número de curtidas). O resultado, para ganhadores e perdedores, é o mesmo: irrelevância, mesmidade e banalidade”, ele afirma.

Na obra, Christian relata o que houve para que a irmã do meio, rejeitada e mal-humorada depressão, emergisse depois dos anos 1970 como o polo de convergência e a maneira mais simples de descrever o sofrimento mental e como ela passou de coadjuvante tardia no espetáculo da loucura, em meados do século XIX, à “diva preferencial das formas de sofrimento de nossa época”. Em um dos capítulos, ele aborda como a pandemia de Covid-19 afetou a saúde mental da população. A quarentena despertou nas pessoas diferentes teorias da transformação e diversos modelos narrativos para se ajustarem às contingências de medo, de angústia, de trauma e de exaustão que tomaram conta delas. No período, a depressão subiu 90% e o consumo de antidepressivos e ansiolíticos 35.5%, de acordo com levantamento feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A pandemia também fez lembrar lições trazidas pela peste como estado de exceção, sendo uma delas a de que peste é democrática e atinge todas as pessoas sem distinção.

FICHA TÉCNICA

Título: Uma biografia da depressão
Autor: Christian Dunker
Páginas: 240
Preço: R﹩ 46,90
Editora Planeta | Selo Paidós

SOBRE O AUTOR

Christian Ingo Lenz Dunker, nascido em 1966, pai de Mathias e Nathalia, é psicanalista e professor titular do departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP. É analista membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Fez seu pós doutorado na Manchester Metropolitan University, sendo professor convidado em mais de quinze universidades internacionais. Duas vezes agraciado com o prêmio

Jabuti, por Estrutura e constituição da clínica psicanalítica (Anablume, 2012) e Mal estar, sofrimento e sintoma (Boitempo, 2016), publicou mais de uma centena de artigos científicos e capítulos de livros, além dos mais recentes Por que Lacan? (Zagodoni,

2017), Reinvenção da intimidade (Ubu, 2017) e O palhaço e o psicanalista (Planeta, 2019). Colunista do jornal Zero Hora e do blog da Boitempo, participa incisivamente da vida política nacional, seja por meio de intervenções públicas, projetos sociais ou de seu canal no YouTube. Seus trabalhos sobre cultura de condomínio, patologias do social e lógicas de sofrimento têm extrapolado os muros da psicanálise e alcançado uma abrangência na filosofia política, na educação, na saúde pública e nas ciências da linguagem.

SOBRE O SELO PAIDÓS

Criado na Argentina em 1945, quando dois professores universitários decidiram publicar Carl Gustav Jung pela primeira vez no país, o selo Paidós passou a integrar o Grupo Planeta em 2003, hoje conta com mais de 2 mil títulos lançados na Espanha e em países da América Latina e chegou ao Brasil no ano de 2020. De origem grega, a palavra “paidós” significa “criança” e, assim como o espírito questionador dos pequenos, o selo tem como objetivo discutir e buscar perguntas certeiras para algumas das principais questões da humanidade com base em obras de psicologia e outras áreas de ciências humanas para o público geral. Nomes como Contardo Calligaris, Christian Dunker, Claudio Thebas, Fred Mattos, Gislene Isquierdo, Alexandre Coimbra Amaral e Anahy D’Amico fazem parte do catálogo do selo no Brasil.

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