No dia 22 de março (sábado), às 19h, o Cinema CAL e o Coletivo Cinema Urbana exibem na Sala 201 da Casa da Cultura da América Latina da UnB o filme “Testamento” (1988, 76 min.), de John Akomfrah, cineasta pioneiro na abordagem de vanguarda sobre a diáspora africana.

Em Testamento, a condição pós-colonial é personificada na figura de Abena, uma ativista convertida em repórter de TV que retorna a Gana contemporânea, pela primeira vez, desde o golpe de Estado de 1966, quando foi interrompido o experimento de socialismo africano liderado pelo presidente Kwame Nkrumah.

À deriva em uma “zona de guerra de memórias”, nas palavras do subtítulo do filme, Abena é capturada na tensão entre história pública e memória privada. Testamento é caracterizado por enquadramentos despovoados e um olhar deliberadamente frio, os quais evocam a paisagem emocional do trauma pós-colonial.

O cineasta

Nascido em Gana em 1957, Akomfrah emigrou para a Inglaterra na infância devido a perseguições políticas. Iniciou sua carreira como artista e cineasta nos anos 1980 e ficou conhecido por ser um dos membros fundadores do Black Audio Film Collective (BAFC).

Pioneiro na abordagem vanguardista de questões ligadas à cultura negra e à experiência diaspórica, na Inglaterra, o Coletivo explorou uma diversidade de plataformas ao longo de 16 anos de atividade: slide tape, filme, fotografia, vídeo, instalação.

O primeiro trabalho de amplo reconhecimento do coletivo foi “As canções de Handsworth” (1986, Handsworth Songs), dirigido por John Akomfrah. Esse documentário de cunho experimental, sobre os protestos de rua da época e a repressão policial, quebra o protocolo de representação racial e política, desestabilizando a tirania dos “fatos” na mídia hegemônica britânica.

O uso de imagens de arquivo e o encalço nos fluxos migratórios, reveladores do modo problemático como os britânicos se relacionavam com a herança colonial, dão forma ao conteúdo trazido por Akomfrah, que se descreve como “um sujeito assediado pelas imagens do passado” – que o instigam sobre os deslocamentos da diáspora negra, ao promover um encontro com a memória.

A busca por imagens do passado – ou memórias – realiza-se como uma investigação do arquivo colonial, e se mostra como uma arte que se encontra nas entranhas de um vasto repertório de materiais preexistentes: as migrações do pós-guerra e o pan-africanismo, colonização e descolonização, o Black Power e as marchas pelos direitos civis, a eclosão dos Estudos Culturais e do afrofuturismo, são temas presentes em seus filmes, conhecidos por permeabilizar as fronteiras entre arte e filme, museu e cinema.

O cinema de Akomfrah é um convite para uma cada vez mais necessária reflexão sobre os nexos entre imagem, migração e colonialismo e do entendimento de que o imigrante é o sujeito político contemporâneo (Stuart Hall e Edward Said). Seus filmes oferecem roteiros e leituras quase sempre incompletas, para navegar um tempo de instabilidades geopolíticas e de vertiginosa ascensão das migrações.

Cinema Urbana

Cinema Urbana é um coletivo de produtoras e pesquisadoras que se debruçam em seus projetos sobre a questão urbana, e que se realizam, maioritariamente, em torno do formato do audiovisual (filmes, mostras, pesquisas acadêmicas, entre outros). O coletivo nasce da experiência em executar, em 2018, o I Festival Internacional de Cinema de Arquitetura – Archcine, em Brasília. Com uma extensa programação realizada no Setor Comercial Sul, em parceria com a Casa da Cultura da América Latina (CAL/UnB), foi possível experimentar a pulsante reflexão que o SCS traz para vida urbana da cidade, ressaltada nos debates da programação e atividades de intervenção urbana que criou, naquela ocasião, uma sala de cinema ao ar livre e aberta ao público.

Com o objetivo de se aproximar do cotidiano das cidades do DF, o Cinema Urbana traz um diálogo com as vivências locais, trazendo o entendimento ao público sobre o direito à cidade e suas estruturas (sociais, culturais, ambientais, arquitetônicas), bem como pretende fortalecer a reflexão sobre o exercício da cidadania – por esta palavra entendemos a formação, informação e participação múltiplas na construção da cultura, da política, de um espaço e de um tempo coletivos.

Fortalecendo a continuidade dessas parcerias e as ações no Setor Comercial Sul, Cinema Urbana assume sua identidade na ocupação deste espaço que revelou, na intensidade da centralidade de Brasília, potencializar a reflexão sobre a cidade, ao possibilitar diversas vivências e propostas criativas.

Entre março e julho de 2019 o Cinema Urbana realiza, mensalmente, em parceria com a CAL, uma sessão de filme seguida de debate, e convida a cada edição, uma curadoria distinta. Testamento é o filme escolhido pela equipe do curta-metragem Lubrina, dirigido por Leonardo Hecht e Vinicius Fernandes e produzido, em 2019, pela Moveo Filmes, parceira da Cinema Urbana.

Serviço

Cinema Cal/Cinema Urbana
Dia: 22 de março de 2019 (sábado)
Hora: 19h
Local: Casa da Cultura da América Latina (CAL/UnB)/SCS Quadra 4, Edifício Anápolis –Sala 201
Entrada franca

Sessão

“Testamento” (1988, Testament)
76 minutos, Inglaterra, Projeção digital.
Classificação indicativa: 14 anos
Direção e roteiro: John Akomfrah
Assistente de direção: Reece Auguiste
Produção: Jonathan Curling; Lina Gopaul; Avril Johnson
Trilha sonora: Trevor Mathison
Som: Monica Henriquez; Peter Hodges; Trevor Mathison
Direção de fotografia: David Scott
Montagem: Brand Thumim
Figurinista: Lina Gopaul; Avril Johnson
Elenco: Tania Rogers, Evans Oma Hunter; Frank Parkes; Sally Sagoe; Errol Shaker

Testament
Testament | Foto: Divulgação
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