Duo de Brasília, Tartamudo formado por Wilton Rossi e Zepedro Gollo, apresentam disco baseado em uma sonoridade que varia entre criações ruidosas e distorcidas até melodias ambient sensoriais e imersivas: menos pista, mais chillout

Um outro nome, menos usual, para aquele indivíduo a quem chamaríamos de gago. Tar- ta-mu-do. Um polissílabo assaz sonoro para definir aquele tipo de sujeito com certo impedimento na expressão oral, na dicção, na articulação de pa-la-vras.

Wilton Rossi e Zepedro Gollo gaguejam de propósito. Na linguagem musical proposta por este duo instrumental, o tropeçar num mesmo som é a própria experiência estética em que se lançam e apresentam “Respiro”. A coleção de temas, disponíveis em todos os aplicativos de música, é guiada por paisagens criadas pela manipulação de guitarras e teclados que, muitas vezes, substituem totalmente os sons em que se baseiam originalmente, levando calma para quem se permite ouvir consigo próprio. Talvez, com fones de ouvido, dentro de um quarto, deitado no sofá ou na cama. Vivendo o poder da reflexão e introspecção.

Esse é o contraponto.

Enquanto o primeiro EP do projeto, “Apneia”, era marcado por uma sonoridade mais agressiva, esse dá menos ênfase ao peso e aborda ritmos mais lentos. É menos pista, mais chillout.

“A verdade é que nós fazemos rock como se fôssemos artistas de música eletrônica, fazemos música eletrônica como se fôssemos artistas de uma banda de rock”.

Faixa a faixa, registro surge do diálogo que vem sendo construído, há alguns anos, em ensaios semanais na pontinha da Asa Sul, quadra 714, Plano Piloto, Brasília, Distrito Federal.

Tudo começa na maciota e tem a atmosfera contemplativa. Mas, ainda assim, um certo nervosismo contido.

“Esse registro é bem climático. Usamos muitos elementos analógicos, mas sem dispensar os recursos e sons digitais. Gostamos de incorporar os tropeços e tratá-los como peças criativas. Nesse trabalho, nós nos sampleamos, desaceleramos e subvertemos nossas próprias obras. Como de costume, fazemos tudo intuitivamente, na sintonia. O processo mistura composição, arranjo e mixagem ao mesmo tempo. Gravamos tudo que der vontade de tocar e entendemos que o nosso trabalho se comunica com o corpo, operando com base no volume e na repetição. É um convite para sair do cotidiano e relaxar”.

As influências do duo vão da repetição do krautrock (Neu!, Kraftwerk, Can), à música minimal e aos tape loops da avant garde (Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley), passando pelo ruído da No Wave e do Velvet Underground, chegando até à linguagem visual do cinema experimental (Chris Marker, Kenneth Anger, Robert Frank).

Sim. Tartamudo é um duo de instrumentistas envolvidos em diversas outras expressões artísticas. “Somos influenciados e dialogamos com artes plásticas e visuais, cinema, dança, arquitetura, performance, teatro, quadrinhos e até literatura. Há de fato algo no som que nos faz tocar confortavelmente em galerias de arte, festivais ou rua. Há uma comunicação puramente musical, sem palavras, com movimento, tempo e espaço. Muito papo furado pra uma banda que não diz nada. Mas nossa voz conversa além do texto, fala num outro plano. Ou tenta. Seremos ouvidos?”

Para quem aceitar essa viagem, aqui o link para audição completa: https://www.youtube.com/playlist?list=PLeGz0t8XaPHCjp8PLjqyLLxvfqMIeAnaF

E TEM MAIS…

Respiro ganhará versão cassete. “O selo Tudo Muda Music está preparando uma tiragem especial que conta com uma mixagem analógica exclusiva, apenas disponível nas fitinhas. Além disso, o cassete leva uma faixa bônus que não constará nas edições digitais. De extra, vamos colocar em cada fita uma palheta Respiro e uma foto instantânea (portanto, única). Respiro em cassete já nasce como peça de colecionador”.

FAIXA A FAIXA ASSINADO:

Descanso – uma faixa suave e repetitiva que vai nos envolvendo com a entrada e a saída de camadas sutis. Guitarras são tratadas como texturas, teclados e guitarras se misturam sonoramente. Primeira incursão assumidamente ambient do Tartamudo, caminha entre Seefeel, Orbital, Low, Jean Michel Jarre. Mas tenta mesmo ser Brian Eno.

Taking Democracy (by Strategy) – é uma música que representa bem o som do Tartamudo hoje: climático e envolvente, com um toque de peso e nervosismo. Essa é uma música que liga bem o trabalho apresentado em “Respiro” com o que foi feito no primeiro EP “Apneia”. Talvez Pink Floydiana, tem intermináveis camadas etéreas de guitarras e feedbacks, e termina com uma singela homenagem a U-Ziq.

Jugular – Um resumo do que o Tartamudo é: loops que se acumulam, camadas que se sobrepõem, batidas que crescem. É uma música feita para seduzir: aérea e pulsante. Pense Suicide, Walter Franco, Massive Attack, (pra que botar?) U2, efeitos. Pense uma música que é um barato tocar! #desafioouvesemdancar

Tudo Tudo Tudo – Sempre gostamos de Caetano e quisemos fazer uma homenagem. Essa é uma música originalmente criada com um arranjo vocal, sem qualquer instrumentação. Resolvemos fazer o oposto. Curiosamente nossa versão tem algo a ver com Bjork, Annie Lennox, GusGus, Marina Lima. Pra dançar devagar com a Marina.

SOBRE TARTAMUDO

Tartamudo é um duo de multi-instrumentistas formado por Zepedro Gollo e Wilton Rossi. Juntos, artistas carregam para dentro do projeto duas ou três décadas de carreiras paralelas. Wilton era o guitarrista da banda Divine, lendária formação do rock de Brasília dos anos 1990. Na virada do milênio, a Divine, que tinha em seu centro a dupla criativa formada por Wilton e Claudio Bull, derivou para a Superquadra. Foi quando o camarada Zepedro, que já orbitava a cena brasiliense entre o rock e a eletrônica, se juntou efetivamente aos dois amigos. Zepedro também desenvolveria um trabalho de música para cinema, colaborando com cineastas como José Eduardo Belmonte e Iberê Carvalho.

Divine e Superquadra eram duas das raras bandas brasileiras de sua geração que iam muito além do grunge e das fórmulas de versos macios e refrões nervosos, encontrando outras referências estrangeiras, do krautrock alemão àquela psicodelia inglesa de acento eletrônico praticada por bandas como Stone Roses, Spiritualized e Cornershop.

A se ter isso em perspectiva, o Tartamudo soa como uma evolução natural do interesse de seus dois integrantes. Wilton e Zepedro agora esculpem, com loops e palhetadas, uma paisagem sonora cheia de desvios e desvãos, com foco na criação de camadas musicais repetitivas, desenvolvendo sonoridades que variam de criações ruidosas e baseadas na distorção até melodias ambientsensoriais e imersivas.

“Apneia” é o primeiro EP, lançado em janeiro de 2020. Agora, apresentam a coleção de temas intitulada “Respiro”.

Música na sua forma mais primitiva, algo que opera no seu corpo com base no volume e na repetição. É uma busca por algo mais elementar e primal.

https://www.instagram.com/tartamudomusic/

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