25 anos depois de Quatro por Quatro ser exibida na TV, criei coragem e assisti aos 233 capítulos da novela em maratona pelo You Tube. Será que a visão sobre a trama mudou?

Foram longos dois meses vendo uma média de 5 episódios por dia. Assim, cheguei ao final dos 233 capítulos de Quatro por Quatro, novela de Carlos Lombardi com direção de Ricardo Waddington e Alexandre Avancini e Luiz Henrique Rios, exibida na TV aberta em 1994/1995 e 1998. Ver uma novela que tanto gostei na infância e na adolescência (quando repetiu) depois de tanto tempo, me fez compreender muito mais sobre estruturas narrativas de uma obra audiovisual.

Quatro por Quatro

O Fio condutor da novela era a vingança de Quatro mulheres contra Quatro homens. É uma novela de empoderamento feminino, porém, escrita e dirigida prioritariamente por uma equipe masculina. E isso pesa… Pesa porque o mote das quatro vingadoras é frágil justamente porque elas querem comprovar a esses homens o quanto eles dependem delas.

Quando se fala de “Quatro por Quatro” é natural que as pessoas digam que é a novela de Babalú e Raí. Faz sentido. Do meio pro fim, eles se tornam protagonistas por mérito dos atores Marcelo Novaes e Letícia Spiller, mas também por falhas estruturais da produção como um todo. Em recente entrevista em comemoração aos 25 anos da trama, o autor Carlos Lombardi revelou uma série de problemas da novela, a começar pela seleção de elenco. Quase todas as personagens não foram interpretadas por quem seria a primeira opção.

Tatiana seria interpretada por Malu Mader;
Auxiliadora seria interpretada por Eliane Giardini;
Abigail seria interpretada por Bruna Lombardi;
Babalú seria interpretada por Adriana Esteves;
Raí, pasme, seria interpretado por Alexandre Frota.

Como a novela foi feitas às pressas porque a substituta de “A Viagem” não estava pronta, houve essa dança das cadeiras no período de pré-produção. Como estrelas da época, a Globo tinha apenas Cristiana Oliveira (vinda de Pantanal), Elizabeth Savalla (prata da casa) e a aposta Humberto Martins pra conduzir a história (tanto que são os três que aparecem primeiramente na abertura). Adriana Esteves chegou a gravar cenas como Babalú, mas não estava bem psicologicamente e pediu para sair. As cenas tiveram que ser regravadas e, sem muitas opções, remanejaram Letícia Spiller (que viveria a enfermeira Duda) para o papel que, definitivamente, marcou a carreira da atriz e o saudosismo dos telespectadores. Duda, a enfermeira, foi brilhantemente conduzida por Luana Piovani.

A novela era bem sexual. Os diálogos incluíam termos ainda não usados em televisão, como “porra” e “merda”. Não chegávamos a estranhar porque eram bem natural até. Eu tinha oito anos na época e achava um barato essa coisa de ter um rap de Sandra de Sá logo na abertura, uma história em que as mulheres tomavam conta de tudo, crianças que falavam como gente grande. Era algo diferente, ágil, rápido e muito ácido. O texto inteligente e sagaz proporcionou que alguns atores se destacassem em seus papeis. A comparação com outras novelas do autor foi inevitável também. Por exemplo:

1994 – Em “Quatro por Quatro”, Bruno (Humberto Martins) e Gustavo (Marcos Paulo) disputavam a paternidade de Ângela (Tatyane Goulart);
1992 – Em “Perigosas Peruas”, Cidinha (Vera Fischer) e Leda (Silvia Pfeiffer) disputavam a maternidade de Tuca (Natália Lage);
1988 – Em “Bebê a Bordo”, todas as personagens masculinas disputavam a paternidade de Heleninha, a bebê que deu nome à trama.

Uma coisa é você ver uma novela em 10 meses. Porque em 10 meses você assiste, fica uns dias sem ver, depois pergunta pra algum parente como aconteceu tal coisa e tal… A gente mesmo enquanto público se esquece de fatos, nomes e situações que entregariam uma falta de continuidade. Aí o que fica na lembrança é a parte boa: Babalú e Raí tão aí pra provar. Porém… ver uma novela de 233 capítulos em dois meses faz a gente perceber muitos erros de continuidade, falhas de narrativa, incoerência no encaixe de cenas e núcleos. É quase um código da vinci decifrado. Mesmo amando a novela e ainda a tendo como uma das que mais gostei, consegui mapear o produto “Quatro por quatro” e subdividi o que assisti (de novo) em QUATRO PONTOS POSITIVOS e QUATRO PONTO NEGATIVOS da história. Vamos lá…

QUATRO PONTOS POSITIVOS

1. Atores bons de comédia
Betty Lago (com Abigail e Calpúrnia), Tato Gabus (com Alcebíades) e Jorge Doria (com o Seu Santinho) deram o charme e requinte de humor à novela. Inclusive, Betty Lago e Tato Gabus foram os parceiros de cena mais engraçados da galáxia. Betty brilhou com Abigail em cenas de monólogo, diálogo e coletivas. Sem dúvida, a cereja do bolo. Já com Tato Gabus e seu hipocondríaco Aucebíades, morremos de rir. A cena em que ele acorda em seu próprio velório pedindo pizza é maravilhosa e inesquecível. Lizandra Solto com Elisa Maria também se destacou lindamente durante uma fase da novela, antes de ser esquecida pelo autor na reta final.

Quatro por Quatro

2. O núcleo Bruno e Ângela
A história do pai que busca o amor da filha foi o respiro poético da novela. Inclusive, é o que mais diferencia “Quatro por Quatro” de “Perigosas Peruas” e “Bebê a Bordo”. Faltava poesia no ritmo frenético das tramas anteriores. E com Bruno e Ângela era possível abraçar os telespectadores que não se importavam tanto com os outros núcleos da novela. Inclusive, nesse núcleo é onde a marca do diretor mais aparece, tanto na escolha de trilha sonora quanto no fio condutor que diminuía a taquicardia que era a trama como um todo.

3. Trilha Sonora
Falando em trilha sonora, que ótimo acerto da produção de Andre Sperling, Mariozinho Rocha e de Nelson Mota! Repertório jovem que passeou por hits da MPB, pop rock e rap. Sandra de Sá cantando “Picadinho de Macho” é uma delícia. A música encomendada para a abertura caiu como uma luva para a vinheta criada que mostrava quatro esgrimistas capturando homens. É acerto atrás de acerto. Tinha Leoni, Adriana Calcanhoto, Flavio Venturini, Marisa Monte, Nana Caymmi, Marina Lima e Dalto. Super anos 90.

Já a trilha internacional é uma mistura de pop rock, eurodance e love songs. Always (tema do Bruno), Kiss and say goodbye (tema do Ralado e da Duda), Goodnight Girl (tema da Ângela) e Take a Toke (de Babalú e Raí) foram as que mais tocaram. Várias músicas só entraram na novela nas duas últimas semanas em cenas passageiras, como fundo de academia e fundo de festa. Nada específico. Curiosamente, uma das canções mais populares do disco nunca tocou dentro da trama. Fiz questão de observar! Short dick man, de Gillette só tocou 06 vezes no encerramento da novela (com os créditos subindo). Quatro vezes lá no meio da trama e duas vezes nas últimas semanas. Dizem que é tema do Danilo, mas não tocou pra ele nem em versão instrumental. Inclusive, a capa do disco internacional é uma licença poética do cartaz do filme Pulp Fiction, sucesso no cinema na época e citado diversas vezes na novela.

Quatro por Quatro

4. Babalú e Raí
Letícia Spiller e Marcelo Novaes deram a “Quatro por Quatro” uma identidade. Eles são quase o codinome da novela. Porém, para explicar a ascensão de Babalú e Raí é preciso entender a queda de uma das protagonistas. A novela teria apenas 160 capítulos. O sucesso foi grande e a sucessora do horário das sete, “Cara & Coroa” não estava pronta. Com isso, mais de 70 capítulos tiveram que ser inventados. Obviamente, isso fez a história perder fôlego (e como perdeu). Atores e atrizes insatisfeitos pediram pra sair, alguns núcleos excedentes perderam a relevância e, com o desfalque de Elizabeth Savalla e os conflitos internos dela com Betty Lago nos bastidores, coube ao autor calibrar em esquetes de humor de Babalú e Raí. Eles passaram a ser uma espécie de gato-e-rato se envolvendo em diferentes aventuras, como sequestros, nudez na rua, prisões, acidentes… situações que esticavam a trama e gastava a imagem dos dois. As esquetes cômicas dessas personagens transformavam a novela em novela da Babalú e do Raí. Caiu muito a qualidade da história, porém, seguraram bem a vela desse barco que quase naufragou.

QUATRO PONTOS NEGATIVOS

1. Os núcleos inventados no decorrer da trama pra poder esticá-la ao máximo.

Raí em “Ninguém segura este bebê”
Raí tem o desejo de ser pai e para convencer Babalú a ter um filho com ele, “aluga” uma criança do bairro. A bebê Mundinha cria um caos na oficina, como no filme “Ninguém segura este bebê”. Por alguns capítulos, vemos Raí e o núcleo da oficina em busca da criança travessa.

Raí Adotado
Quando a novela não tem mais o que fazer, cria-se uma possível família de Raí. Ele sai da Ilha do Governador e vai morar numa mansão. Lá aparece outra personagem da história: O Dinho (vivido por Eduardo Caldas). No final, ele descobre que tudo foi um engano.

Raí enfrentando assaltantes
O herói do bairro sempre salva alguém de algum crime. Acho que uns três ou quatro assaltos acontecem durante a trama. E lá vai barriga… É Raí se fingindo de pastor, Raí sendo esfaqueado, Raí sendo preso uma, duas, três vezes. Raí vai ao hospital uma, duas, três vezes. Dá-lhe chororô da Babalú.

Danilo, o maníaco sexual
Reza a lenda que Drica Moraes não estava satisfeita com sua personagem (já falarei disso). Sua personagem, Denise, era a esposa ninfomaníaca de Danilo. De uma hora pra outra é ele quem se torna um maníaco pervertido com compulsão sexual. Essa lenga-lenga se arrasta por mais de um mês sem nenhum fundamento narrativo. A personagem de bom moço dele se transforma numa fera frustrada em busca de sexo no bairro. Chato pra caramba.

Duda e o fim de sua virgindade
A personagem de Luana Piovani tinha uma química feroz com Ralado (Macelo Faria). Do nada, a moça altiva revela que é virgem e passa alguns capítulos em busca de um homem que tire sua virgindade. Tenta com o maníaco Danilo, tenta com Ralado e consegue com Raí. O conflito não consegue alterar em nada o andamento da novela. Foi só pra segurar mais tempo no ar mesmo.

A Festa à fantasia
Qual é a maneira mais eficaz de juntar todas as personagens num único lugar para dar uma pausa na história e enrolar o público? Criando uma festa à fantasia. Por uma semana, o público assistiu as aventuras de uma festa em que todo mundo queria se pegar. Teve até uma cena típica de “Os Trapalhões” com as personagens entrando em quartos errados para alcovitar.

Gustavo e Clarice (o casal mais flopado do planeta)
Com a saída de Elizabeth Savalla, a vingança em cima de Gustavo caiu e foi preciso criar algo para o vilão. Para isso, o autor transformou Clarice (Françoise Forton) em uma pseudovilã também. A amiga fiel de Bruno muda de lado e se alia ao malvadão. É uma armação tão desnecessária que a gente nem entende porque inventaram isso.

Os segredos de Vinícius
Era nítido que Leonardo Vieira e Bianca Byington estavam insatisfeitos com a novela. Os dois conseguiram mostrar isso em cena, acredite. Aí na trama paralela, muitos mistérios sobre o cafajeste conquistador foram criadas, mas nenhuma teve consistência pra amarrar a história. Esse é o problema de ter núcleo demais.

Susana, a louca
Todo vilão só é vilão porque sofreu algo no passado e, por isso, quer se vingar. Porém, a vilã de Helena Ranaldi não tinha antepassados. Ela era má porque era má. Não havia, por exemplo, para quem ela se envergonhar caso sofresse alguma punição. O público percebeu isso e o autor inventou então uma espécie de dupla personalidade dela que se arrastou por dezenas de capítulos. Ela sai da trama e só volta para se vingar e morrer.

2. Vinganças Frágeis

Fortunato (Diogo Vilela) era a vítima da moça Tatiana. Ela começa a novela gaga e atrapalhada. Quando se envolve com Bruno se transforma num mulherão. Logo, o espectador não leva tão a sério o sofrimento dela por um cara tão banal como Fortunato. Com isso, a personagem dele fica apagada e toda e qualquer vingança contra ele se torna irrelevante pelo fato da moça já ter se resolvido amorosamente com outro homem – que, por sinal, era o herói da história. Até Babalu se tornou empregada de uma mansão para se vingar de Fortunato, que já não tinha relevância na trama;

Tatiana sendo a mística contadora Raio de Sol para fazer Alcebíades assinar doação de patrimônio para Auxiliadora – a amiga traidora do quarteto que saiu da novela, voltando só no final;

Condessa Carmen Almodóvar (Savalla) seduzindo Gustavo (Marcos Paulo) e saindo no meio da vingança do nada (problemas internos com a atriz).

Quatro por Quatro

3. A desistência dos atores no meio da história (Na seguinte ordem):
Sai Daniel Dantas;
Sai Nina de Pádua;
Sai Oswaldo Loureiro;
Sai Tássia Camargo;
Sai Diogo Vilela no cap. 160 (o ator percebeu que era uma furada e, como foi contratado por 160 capítulos, no dia em que a novela chegou ao cap. 161, ele saiu). Para justificar, anteciparam o final dele e as mulheres vingativas o expulsaram da história;
Sai Paulo Cesar Grande (a personagem volta para uma única cena final);
Sai Inês Galvão/ Volta Inês Galvão;
Sai Elizabeth Savalla – A saída mais drástica que quebra o fio condutor da novela e transforma Babalu e Raí em protagonistas de esquetes cômicas. A atriz volta apenas para cenas sazonais pra finalizar a obra. É possível perceber que quando aconteceram conflitos dela com Betty Lago nos bastidores foi criado um núcleo provisório em que Elizabeth Savalla contracenava apenas com Neusa Borges e Tony Tornado numa favela. Na história, a personagem se arrependia de ter traído as amigas ao se apaixonar pelo marido de Abigail, se escondendo num barraco. Lá no barraco, um bandido se apaixona por ela e, para despistar, ela se transforma em Maria do Socorro, uma mulher negra de periferia. Algo que mostra a versatilidade da atriz, mas que não leva a trama para lugar nenhum;
Sai Drica Moraes sem explicação concreta. Por alguns capítulos ela fica afastada, depois volta para fazer figuração em cenas pequenas, até que inventam que ela some com o marido de Marta Rocha (Inês Galvão) – que também sumiu da novela capítulos atrás;
Quaaase sai Leonardo Vieira – O ator volta pra novela com novo visual apenas para cenas específicas;
Sai Paulo Guarnieri (e no lugar dele colocaram um figurante vestido de múmia). A personagem volta apenas para uma cena final;
Sai Bianca Byignton – Uma das mais trágicas saídas. Reza a lenda também que, ao chegar para gravar a última semana da novela, a atriz se negou a fazer cenas patéticas em que, enlouquecida por ter descoberto a traição do marido Vinicius, é presa numa camisa de força junto com Danilo (o maníaco sexual de Marcelo Serrado). A cena foi ao ar, mas apenas com atores dizendo que a personagem de Bianca estava louca e presa com Danilo na mesma ala psiquiátrica. Aí lá eles inventam que os dois transaram e que, com isso, Danilo se recupera de sua abstinência sexual. No último capítulo, Danilo aparece de aliança comentando que se casou com ela, porém, a atriz já não aparece.

4. Personagens com amnésia – Onde o telespectador foi feito de bobo
Gustavo conhecia Babalu, mas não a reconhece na vingança;
Gustavo conhecia Auxiliadora, mas se esqueceu dela na vingança;
Raí conhecia Tatiana, mas fez de conta que não a conheceu como Maria das Dores;
Alcebíades não reconheceu Tatiana como Raio de Sol (aliás, a pior das vinganças);
Tufik (Alberto Baruk) não reconheceu Elisa Maria (Lizandra Suto) durante toda a novela (ele era empregado dela no restaurante) e no final coloca óculos (pois era míope) e se lembra que ela era casada com ele e que tinham dois filhos (mesmo ela não tendo idade pra isso).

É… foi uma investigação forte. Rever a novela em maratona foi um desafio. Mesmo com muitos pontos negativos que entregam as fragilidades na história, “Quatro por Quatro” é daquelas novelas que dão saudade e que inegavelmente marcaram época na história da televisão brasileira. Atualmente, está sendo reexibida na Globo Portugal e continua sendo uma boa pedida para o Vale a pena ver de novo. No entanto, hoje teria que ser cortada, pois muitos diálogos são preconceituosos e descontextualizados. Fica a boa lembrança daqueles coloridos anos 90. Não nos esqueçamos de que era uma novela das sete e novela das sete naquela época não tinha muita pretensão de serem levadas a sério.

Sentiu a pressão, malandro?

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