Quanto ganha um ator no DF?


Motivo de curiosidade para uns, especulação maldosa para outros. O certo é que o valor dos honorários de um ator na capital varia muito de acordo com o produto a ser realizado. Quer saber mais?

Quando uma pessoa anuncia que quer ser artista, o comentário que mais escuta é: mas isso dá dinheiro? Quando começam a perceber que sim… que arte pode dar dinheiro, começa então uma especulação em cima dos salários e cachês dos atores. Isso tudo porque há três modelos de pagamento de atores: o da televisão (com cifras mais altas), o do teatro musical ou de comédia (razoavelmente alto) e o de teatro independente ou ligado a editais e linhas de fomento (com valores bem variáveis).

Pra começo de conversa, é importante que tenhamos consciência de que os valores da televisão não servem de parâmetro para o país. O ator que começa a fazer “Malhação” provavelmente não receberá o mesmo que um ator da novela das nove. É sabido hoje que um iniciante na televisão ganha mensalmente uns 3.500,00 (mais os benefícios de cada emissora contratante). Já um ator consagrado, com contrato de exclusividade, consegue aí um salário de mais de 50 mil reais. No entanto, é preciso entender que no mundo da novela, há diferentes divisões de trabalho no elenco da obra. São, hierarquicamente:

ELENCO (Convidado ou com Participação Especial) – Geralmente escolhido pelos autores e direção assim que a trama é fechada;
ELENCO (que passa por diferentes testes para compor toda a linha de frente da novela. São uns 20.);
ELENCO DE APOIO (não necessariamente tem um papel de destaque, mas consta na trama do começo ao fim, em um núcleo específico)
ELENCO ESPORÁDICO (participações pontuais, como médicos, juízes, advogados em cenas que precisem de tal expediente);
FIGURAÇÃO (profissional que dá volume à cena, para parecer que é o mais crível possível. Podem ser desde a plateia de programas de auditório a pessoas que ficam em ônibus, navios, praças).

A realidade descrita acima, porém, não é específica de Brasília e sim do Rio de Janeiro e São Paulo. O ator de Brasília que faz novela, provavelmente se cadastra num desses estados para ser chamado para testes de elenco. Em Brasília o que há mesmo é muita publicidade, cinema e vídeos institucionais.

Campanhas Fábrika Filmes
Campanhas Fábrika Filmes

Com cachês que variam de 400 a 2.200,00, atores de Brasília são constantemente requisitados para gravações de campanhas regionais e nacionais. Isso acontece porque o polo de audiovisual da capital é forte e assume diferentes frentes de produção. A exemplo disso estão a Fábrika Filmes e a Cine Group, que são empresas responsáveis por diferentes produtos no setor. São produtoras de cinema e de televisão que exportam produtos, inclusive, para outros países. Metade do que é rodado nos estúdios do quadradinho é gerado por equipes dessas grandes produtoras. Abaixo delas estão as agências de casting, que têm a função de organizar os profissionais da cidade e indicá-los para os testes. Cada agência ou produtor de elenco independente possui sua própria regra para desconto de cachê dos atores indicados e aprovados. Geralmente há o padrão de 10% a 20% do valor bruto do cachê oferecido para o ator. Ou seja… se o cachê para um ator é de 2.200,00, provavelmente serão retidos 400 desse valor para o agente/agência, restando 1.800,00 – que será o valor líquido para esse ator. Já a figuração vai receber aí de 100,00 a 250,00 por participação em filme publicitário ou cinema. Como o Sindicato dos Artistas de Brasília passa por uma série de mazelas, modelos como o de São Paulo ainda não são tão recorrentes aqui, como o cachê teste, onde o ator recebe cerca de 80,00 apenas para ir fazer o teste (o que já ajuda e muito nos deslocamentos até os estúdios).

E no teatro?
No teatro, o valor do cachê do ator vai depender de três fatores:

1 – É teatro independente?
2 – É artista já reconhecido que possui um valor X para apresentar-se?
3 – É teatro com fomento oriundo de editais públicos ou linhas de apoio privadas?

Jardim das Delícias – Foto de Duda Affonso
Jardim das Delícias | Foto: Duda Affonso

Vamos lá… Teatro independente é aquele geralmente feito no formato de guerrilha. Os atores, o diretor e a equipe de produção levantam a peça na garra e na coragem, tentam conseguir desconto ou gratuidade de teatros e salas de espetáculos da cidade e contam com a presença do público para conseguirem que o dinheiro da bilheteria pague toda a equipe. Outra opção é não ter essa bilheteria e, literalmente, passar o chapéu para ver se arrecadam um bom valor que, dividido, vá para cada um que trabalhou. Nas experiências que tive nesse formato, o cachê variou sempre de 150,00 a 500,00 por um mês de trabalho. É pouco, mas como é acordado desde o começo, geralmente não se reclama.

Quando o artista é conhecido e já possui um público cativo, em vez de contar com o valor de bilheteria, esse artista já cobra um valor X, pois independente de ter 20 ou 500 pessoas na plateia, ele já recebeu o que queria pelo seu trabalho. Nesses formatos, há valores que vão de 2.000,00 a 20.000,00 de acordo com o artista, o público e o contratante. Do que tenho visto atualmente, são os atores que fazem TV teatro quem mais se arriscam nesse formato. Há também os comediantes e profissionais do stand up comedy.

Já com fomento de editais públicos e demais linhas de apoio a coisa muda um pouco. Em Brasília há o Fundo de Apoio à Cultura – o FAC, com verbas que variam de 30.000,00 a 200.000,00 para produção de um espetáculo, mostra ou festival. Nesse caso o valor do cachê/salário do ator varia de acordo com a categoria de aprovação e da quantidade de profissionais envolvidos na equipe. Quanto mais gente pra receber, menos pagamento o ator vai ganhar. A matemática é simples. Outro ledo engano é pensar que uma rubrica que diz que o ator vai ganhar 7.200,00 signifique que ele esteja nadando em dinheiro. Dividindo esse valor por 3 ou 4 meses de trabalho, dá uma média de 1.800,00 por mês para o ator. Não é nada ruim, mas também não faz desse ator um Tio Patinhas nadando em moedas.

Sonho de uma noite de verão – Foto de Nityama Macrini
Sonho de uma noite de verão | Foto: Nityama Macrini

É arriscado dizer que é muito ou que é pouco. Eu, particularmente, acho um valor razoavelmente agradável, pois, anualmente, como ator, faço trabalhos em dois ou três espetáculos e ainda corro atrás de aprovação em algumas campanhas publicitárias, ou seja… dependendo do seu custo de vida, de sua rotina e seu planejamento, é possível ser ator e sobreviver sim em Brasília. Creio que meu cachê máximo na profissão foi de mais ou menos 47.000,00 divididos ao longo de um ano de trabalho. Numericamente é muito sim, mas aí não podemos esquecer que esse cachê exige, por exemplo, decorar 12 páginas de texto por dia por um ano, estar pronto às 5h da manhã, não errar o texto e atender as exigências da direção. Rola dinheiro sim, mas rola também uma big responsabilidade de quem passou nos testes pra dar conta de fazer tudo com maestria e profissionalismo.

O artista geralmente não faz só uma coisa por vez. Ele atua numa dublagem de manhã, apresenta um programa à tarde, ensaia uma peça nova às terças e quintas e na sexta, sábado e domingo apresenta na temporada de um novo espetáculo. É um trabalho puxado, mas muito prazeroso. Só não pode parar de correr atrás, afinal, não é toda oportunidade que cai de paraquedas na nossa porta.

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