Dirigido por Gabriel Villela, Proto-Henrique IV, de Pirandello, estreia em versão solo com Chico Carvalho no papel-título

Obra-prima sobre lucidez e loucura, de Luigi Pirandello, com produção, tradução e adaptação de Claudio Fontana, estreia dia 5 de novembro no formato online, transmitida ao vivo da sala Dina Sfat do Teatro Ruth Escobar.

A peça Henrique IV, de Luigi Pirandello, é um ensaio sobre lucidez e loucura, considerada uma obra-prima do dramaturgo italiano comparável a “Seis Personagens à Procura de um Autor”. Nela uma das características mais marcantes do escritor – a vulnerabilidade de seus personagens, que vivem na fronteira que separa ficção da realidade e loucura da sanidade, devido ao jogo de máscaras – está em um ponto de grande aprofundamento.

Na dramaturgia original, Pirandello criou treze personagens para serem executados por diversos atores. Esta adaptação sintetizou o texto em dois personagens feitos por um ator, Matilde e Henrique IV, preservando o cerne da dramaturgia.

Chico Carvalho transita entre as duas figuras, sendo que Matilde traz falas de outros personagens da peça original. Acompanhando Chico em cena, Breno Manfredini faz as vezes de um contrarregra/camareiro cênico, compondo o quadro de espelhamento disforme do protagonista, que toma distância da própria existência e vê a si mesmo ridicularizado pelo olhar de quem o vê.

Na trama, depois de descobrir que Matilde, a mulher que ele ama, tem um caso com seu melhor amigo Belcredi, o protagonista cai de um cavalo e sofre um acidente, supostamente provocado pelo próprio Belcredi. Como bate a cabeça numa pedra, ele perde os sentidos da realidade, enlouquece e, estando a caminho de uma festa à fantasia, por isso caracterizado como o rei Henrique IV, da Alemanha, o nobre passa a acreditar que é o próprio rei. Vendo-se incapaz de curá-lo e com pena de seu estado, a irmã constrói uma réplica da corte de Henrique IV para que seu irmão possa viver nela, contratando atores para se fazerem passar por cortesãos.

Passado algum tempo, o nobre recupera a memória, mas continua a se fazer passar por louco ao perceber que não tem uma vida de verdade para a qual possa voltar. Sua farsa é descoberta no dia em que Matilde e Belcredi chegam à falsa corte para tentar curá-lo. Segue-se uma discussão violenta entre os três, durante a qual Henrique IV fere Belcredi mortalmente e se vê obrigado a refugiar-se de novo na loucura para escapar às consequências desse crime.

Como em quase toda a sua obra, Pirandello trabalha de forma brilhante a tensão entre realidade e fantasia, deixando implícita a impossibilidade do estabelecimento de uma verdade absoluta. No fundo, sustenta que as coisas não são o que parecem ser, também reafirmando sua convicção de que a arte é muito mais real do que a vida, posto que eternizada em uma forma enquanto o homem em si é perecível.

Gabriel Villela faz uma união estética e arrebatadora no palco, trazendo um baile de carnaval, uma corte, uma coxia e a fantasia interna da cabeça de Henrique IV em um mesmo contexto. Nesta montagem, cenário é figurino e figurino é cenário, como se as inversões de realidade também transbordassem para os elementos de ficção. Cores vibrantes, de aspecto nobre e litúrgico permeiam a cena e formam o quadro vibrante e transitório pelo qual Chico Carvalho executa suas cenas repletas de filosofia, fábula e puro teatro.

O espetáculo será gravado no palco da sala Dina Sfat do Teatro Ruth Escobar e transmitido ao vivo nas primeiras seis apresentações, para depois ser filmado e editado para as transmissões seguintes. O teatro quase teve suas portas fechadas para sempre, por conta da pandemia. Fazer esta retomada neste palco, portanto é muito significativo. A história do diretor com o teatro Ruth Escobar começou em 1990, quando dirigiu a montagem de Relações Perigosas, de Heiner Müller, na inauguração da sala Dina Staf, com Ruth Escobar e Luiz Guilherme no elenco. Foi a última atuação cênica de Ruth Escobar.

ADAPTAÇÃO

NOTA DO ADAPTADOR/TRADUTOR/PRODUTOR Cláudio Fontana – O projeto Henrique IV, de Pirandello, foi aprovado em 2019 pelo Programa Cultural das Empresas Eletrobras através da Lei Federal de Incentivo à Cultura recebendo 20% do total do valor necessário para a produção. O projeto também obteve um apoio da 2S Inovações Tecnológicas.

Em 2020, o projeto estava em negociações para sua temporada quando a pandemia paralisou o setor cultural. Em 2021, a Secretaria Especial de Cultura determinou o prazo de execução do projeto até 31/12/2021. Com as restrições sanitárias e os teatros fechados, optou-se por adaptar o texto para 2 personagens e 1 ator, substituindo os 13 atores do texto original. PROTO-HENRIQUE IV é o resultado dessa adaptação, que está servindo como estudo e pesquisa para a montagem do texto de Pirandello na íntegra com elenco completo em 2022.

SOBRE O AUTOR

Luigi Pirandello (Agrigento, 28 de junho de 1867 – Roma, 10 de dezembro de 1936) foi dramaturgo, poeta e romancista italiano, considerado o principal renovador do teatro italiano moderno, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1934. Começou por escrever poesia e obras narrativas na tradição do verismo, com uma projeção naturalista da realidade, mas, mais tarde, renunciou a esta concepção. O romance que o tornou famoso foi “Il fu Mattia Pascal” (1904), cujo argumento já anuncia o fio condutor que cultivará em todas as suas obras: o dilema entre o ser e parecer, a realidade e a ilusão.

A partir de 1916, obras como La Signorina Morli consolidaram-no como dramaturgo e caracterizaram um estilo próprio, que seria denominado pirandellismo. Com o drama “Seis Personagens à Procura de um Autor” (1921), construído de forma insólita, sem um esquema claro de ação e sem divisão em atos, estimulou de forma decisiva o desenvolvimento do teatro do absurdo. O drama de caráter existencialista também tem suas origens na obra de Pirandello. Deixou sua última obra inacabada: “Os Gigantes da Montanha”, último trabalho de Gabriel Villela com o Grupo Galpão.

SOBRE A OBRA

Escrita em 1922, período marcado por elementos de fortes repercussões, como por exemplo, o deslumbramento do homem frente às inovações da modernidade, a velocidade dos acontecimentos, o progresso científico e tecnológico e a Primeira Guerra Mundial. Este panorama traz elementos relevantes para a composição da obra de Pirandello, pois colocam o homem no paradoxo entre individual e coletivo.

Henrique IV é uma das peças que mostram de maneira acentuada a criação teatral do escritor italiano.

Henrique IV, como tantas personagens de Pirandello, representa o homem contemporâneo sob forte pressão social, por não suportar o jugo de uma sociedade em formação, que exige do homem um papel social em conformidade com suas normas. Ele passa a viver sob a máscara da loucura, como uma espécie de refúgio identitário.

A farsa do jovem imperador denota uma característica recorrente na obra do escritor: a vida de aparência que resulta em uma personalidade dividida e, ao mesmo tempo, diluída em infinitos fragmentos.

Aurora Fornoni nos mostra como o próprio personagem explica sua atitude. “Como viver depois de são, com todos me apontando o dedo? Como viver se todos já me achavam louco antes?” (Bernarnini, 1990, p.55). Nesse sentido, é possível vislumbrar através do drama de Henrique IV, a vulnerabilidade que insere às personagens de Pirandello na angústia de não se ver vivendo para se moldar à fôrma em que a sociedade o coloca.

Ao recobrar a sanidade, o personagem passa a representar como se realmente continuasse louco. A opção de viver sob a máscara da loucura nos mostra a genialidade com que Pirandello coloca em cena o homem comum que incorpora sua própria tragédia.

SOBRE CHICO CARVALHO

Ator formado pela Faculdade de Artes Cênicas da UNICAMP (1997-2000). Mestre em Multimeios (2009) e doutor em Artes da Cena (2018), ambos departamentos do Instituto de Artes da UNICAMP. Radialista formado pelo curso de Comunicação Social com habilitação em Rádio e TV da Faculdade Cásper Líbero (2004-2007). Apresentador do programa Teatro de Ópera na Rádio Cultura FM de SP.

Durante o período de 2009 a 2018 foi professor da Escola Superior de Artes Cênicas Célia Helena nas disciplinas História do Teatro Brasileiro e Interpretação Dramática. Como ator, recentemente (2019 – 2018), esteve em cartaz com espetáculos sob a direção de Gabriel Villela, entre eles ‘Estado de Sítio’ (Albert Camus) e ‘Boca de Ouro’ (Nelson Rodrigues), bem como na montagem do espetáculo Erêndira (texto a partir do conto homônimo de García Márquez) cuja temporada terminou em dezembro de 2019 no Teatro Popular do SESI.

Protagonizou a montagem de Ricardo III (texto de Shakespeare e direção de Marcelo Lazzaratto) – papel que lhe rendeu o Prêmio Shell de melhor ator do ano de 2013. Nos anos de 2016 e 2017 esteve em cartaz no Teatro Popular do Sesi com o espetáculo Peer Gynt, de Ibsen, também sob a direção de Gabriel Villela, trabalho que lhe rendeu o prêmio FEMSA de melhor ator para espetáculos direcionados ao público infanto-juvenil.

Ainda com o mesmo diretor, integrou o elenco de A Tempestade (2015-16), texto de Shakespeare, cumprindo longa temporada em São Paulo no teatro TUCA. Diretor e dramaturgo da Cia do Bife, companhia teatral fundada em 2016 e que já acumula duas montagens de textos inéditos apresentados em diversos palcos da cidade e do interior de SP

SOBRE GABRIEL VILLELA

Gabriel Villela estudou Direção Teatral na USP. É diretor, cenógrafo e figurinista. Iniciou sua carreira profissional em 1989 com “VOCÊ VAI VER O QUE VOCÊ VAI VER”, de Raymond Queneau, e “O CONCÍLIO DO AMOR”, de Oscar Panizza. Desde então, recebeu 3 Prêmios Molière, 3 Prêmios Sharp, 12 Prêmios Shell, 10 Troféus Mambembe, 7 Troféus APCA, da reconhecida Associação Paulista de Críticos de Arte, 5 Prêmios APETESP, da Associação de Produtores de Espetáculos Teatrais de São Paulo, 3 Prêmios PANAMCO e 1 Prêmio Zilka Salaberry, além do livro sobre sua obra teatral ter ganho o prestigiado PRÊMIO JABUTI na categoria Artes.

Encenou Camus (ESTADO DE SÍTIO e CALÍGULA), Heiner Muller (RELAÇÕES PERIGOSAS), Calderón de La Barca (A VIDA É SONHO), Schiller (MARY STUART), William Shakespeare (MACBETH, RICARDO III e ROMEU E JULIETA), Strindberg (O SONHO), Ibsen (PEER GYNT) e os dramaturgos brasileiros Nélson Rodrigues (BOCA DE OURO, A FALECIDA e VESTIDO DE NOIVA), Arthur Azevedo (O MAMBEMBE), João Cabral de Melo Neto (MORTE E VIDA SEVERINA), Carlos Alberto Soffredini (VEM BUSCAR-ME QUE AINDA SOU TEU), Dib Carneiro Neto (SALMO 91 e UM RÉQUIEM PARA ANTONIO), Luís Alberto de Abreu (A GUERRA SANTA) e Alcides Nogueira (VENTANIA, A PONTE E A ÁGUA DE PISCINA). Dirigiu uma trilogia de musicais de Chico Buarque para o TBC: “ÓPERA DO MALANDRO”, “OS SALTIMBANCOS” e “GOTA D’ÀGUA”. Dirigiu shows de artistas como Elba Ramalho, Maria Bethânia, Milton Nascimento e Ivete Sangalo, musicais, óperas, dança e especiais para TV. Foi Diretor Artístico do Teatro Glória/RJ (1997/99) e também do TBC Teatro Brasileiro de Comédia/SP (2000/01).

Tornou-se um dos mais renomados diretores teatrais com reconhecimento internacional, tendo seus espetáculos participado de vários Festivais nos EUA, Europa e América Latina. Com o Grupo Galpão (ROMEU E JULIETA, de Shakespeare), Gabriel Villela foi convidado para uma temporada no Globe Theatre, em Londres, conquistando a crítica e o exigente público londrino. O espetáculo voltou a Londres em 2012 para participar da OLIMPÍADA CULTURAL, evento paralelo aos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres.

Seus últimos trabalhos foram CORDEL DO AMOR SEM FIM (2021) com o grupo OS GERALDOS de Campinas, AUTO DA COMPADECIDA (2019) com o Grupo Maria Cutia de BH, ESTADO DE SITIO (2018/19), BOCA DE OURO e HOJE É DIA DE ROCK (2017/18), PEER GYNT (2016/17), A TEMPESTADE (2015) com Celso Frateschi, UM RÉQUIEM PARA ANTONIO (2014), com Elias Andreato e Claudio Fontana, OS GIGANTES DA MONTANHA (2013), de Pirandello, com o Grupo Galpão e MANIA DE EXPLICAÇÃO, com Luana Piovani. Em 2012, MACBETH, com Marcello Antony e Claudio Fontana. Também dirigiu VESTIDO DE NOIVA, de Nelson Rodrigues, com Leandra Leal e Marcello Antony (2009), CALÍGULA, de Albert Camus, com Thiago Lacerda (2008/09/10) O SOLDADINHO E A BAILARINA (2010), com Luana Piovani, SUA INCELENÇA RICARDO III com o Grupo Clowns de Shakespeare.

Ficha Técnica

Elenco: Chico Carvalho
Texto: Luigi Pirandello
Tradução e adaptação: Claudio Fontana
Direção, Figurinos e Cenografia: Gabriel Villela
Diretor Assistente e Iluminação: Ivan Andrade
Contrarregra/camareiro cênico: Breno Manfredini
Canto e arranjos vocais e instrumentais: Marco França
Assistente de Figurinos: José Rosa
Adereços de arte: Jair Soares Jr
Costureira: Zilda Peres
Maquiagem: Claudinei Hidalgo
Fotografia: João Caldas Fº
Assistência de Fotografia: Andréia Machado
Programação Gráfica: Renata Monteiro
Diretor de Palco: Alexander Peixoto
Produção Executiva: Augusto Vieira
Direção de Produção: Claudio Fontana

Serviço

PROTO-HENRIQUE IV, de Luigi Pirandello, drama.

Em Henrique IV, Pirandello explora os limites entre a loucura e a lucidez a partir da estória de um homem que, após uma queda do cavalo e uma pancada na cabeça, vive (ou finge viver) o personagem que representava no carnaval numa festa a fantasia.

Duração: 60min.
Ingressos gratuitos estarão disponíveis na plataforma Sympla.
link: https://www.sympla.com.br/produtor/protohenriqueiv
Temporada: 05 de novembro a 05 de dezembro, sextas a domingos às 20h
Classificação: 12 anos.

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