PRODUTOR CULTURAL: COMO VIVE?


Eles fazem o seu show acontecer, a peça de teatro entrar em pauta e o evento ser um sucesso! Mas quem são esses profissionais? Como fazem tudo isso? Como vivem? Do que se alimentam? Conheça um pouco sobre os produtores do DF.

2018 foi e está sendo o ano das grandes, médias e pequenas produções artísticas de Brasília. Isso se dá, principalmente, por ser o último ano dos mandatos eleitorais (consequentemente, o último para depósito das verbas de editais passados). A capital do país tem apresentado ao público os mais diferentes produtos artísticos, atendendo a vários gostos.

Engana-se quem pensa que uma produção cultural é composta por duas ou três pessoas. Compõem uma equipe básica de um festival ou circuito artístico, no mínimo (no mínimo mesmo), umas oito pessoas: o coordenador geral, o coordenador de produção, diretor de produção, o produtor executivo, os produtores operacionais, os assessores de comunicação, os sociais mídias e, claro, os estagiários! O RH de uma produção é bem mais frenético do que imagina nossa vã filosofia editalizada.

No último, já devo ter passado por uns sete projetos diferentes… cada um com sua especificidade e modelo próprio de gestão cultural. Lembrando assim por alto, participei de duas edições do EIXO IMAGINÁRIO – ARTE FORA DO PLANO, uma edição do FESTIVAL NACIONAL DE TEATRO DE BOLSO DO DF, uma do BRASÍLIA CÊNICA, outra do BRASÍLIA JUNINA e duas edições do FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE BRASÍLIA – CENA CONTEMPORÂNEA. Isso sem contar nos espetáculos, campanhas publicitárias e trabalhos temporários, com diárias de freelancer. Esses projetos todos eu citei acima foram realizados por quatro núcleos de arte do DF. São eles: ASSOCIAÇÃO IMAGINÁRIO CULTURAL, GRUPO TEATRAL H2O, SECRETARIA DE CULTURA DO DISTRITO FEDERAL E CENA PRODUÇÕES.


Nos projetos EIXO IMAGINÁRIO, FESTIVAL DE TEATRO DE BOLSO E BRASÍLIA JUNINA, fiquei responsável pelo núcleo de comunicação. Falar de comunicação parece ser sempre muito abrangente (e é mesmo). Entende-se como comunicação num projeto artístico os campos de assessoria de imprensa, designer gráfico, social mídia (ou mídia internet) e registro de foto e vídeo. Foi-se o tempo em que um assessor de comunicação ficava apenas na missão de garantir uma matéria no jornal. Essa função continua, claro, mas outras novas funções que requerem diálogo com a rede da internet ganham cada vez mais força. Ter o trabalho no papel impresso, aparecer na televisão é ainda muito importante, mas também é importante dialogar com a cultura dos memes, com a transmissão de vídeos ao vivo, criação de conteúdo em formato de stories e tudo mais. É isso que faz com o que novos públicos tenham acesso a um produto artístico que, de certa maneira, já tem seu público cativo.

Por mais que cada produção tenha sua característica, uma coisa em comum é a paixão e o profissionalismo com os quais esses núcleos atuam na cidade. Falarei aqui no texto sobre dois deles.

O EIXO IMAGINÁRIO, do Espaço Imaginário Cultural, está chegando ao fim de sua segunda edição sendo um dos mais bem sucedidos projetos de arte e cultura da periferia do Distrito Federal. Situado na cidade de Samambaia, o EIXO oferece gratuitamente ao público local oficinas de danças populares, de teatro, de danças urbanas e de música com profissionais locais.

Além das oficinas, o projeto conta com uma Colônia de Férias, trabalhos para interação com estudantes de escolas e apresentações de espetáculos de sucesso de Brasília. A lógica do Imaginário Cultural é levar ao público de Samambaia os espetáculos que estão bombando no Plano Piloto (Brasília). Se uma peça faz sucesso no centro, a equipe faz um convite (ou aceita propostas de artistas e grupos) para sessão de duas obras por mês na cidade, sempre com bate papo com público ao final. O projeto foi tão bacana que até o “Aqui Tem” entrou como parceiro dessa iniciativa em 2018.


O Espaço Imaginário e sempre propõem projetos que possuem ótima adesão da comunidade. Não a tôa, o Imaginário assumiu a produção do CIRCUITO BRASÍLIA JUNINA 2018, que esteve em sete cidades do DF com o melhor da cultura popular no período de festas juninas.

Coordenado por Marília Abreu e com direção artística de Gilson Cezzar, O BRASÍLIA JUNINA foi realizado pelo Imaginário Cultural e a Secretaria de Cultura do Distrito Federal e alcançou proporções gigantes no DF, atendendo desde a comunidade de quadrilhas juninas às manifestações folclóricas populares do Distrito Federal e Entorno, com destaque para o famoso festejo do Boi do Seu Teodoro.

Numa ação de utilidade pública, o Brasília Junina ainda mapeou diversos festejos do DF para uma espécie de senso sobre as pequenas, médias e grandes atrações culturais locais próximas à capital. A maior dificuldade operacional, sem dúvida, foi a de infraestrutura. Imagine… a cada semana uma arena era montada numa das cidades que recebiam o evento. Cada final de semana, uma cidade e a cada final de evento, desmontagem imediata da arquibancada e montagem posterior em outra cidade. Só com uma equipe muito preparada essa logística é capaz de sair do papel e ir para o arraial.


E ONDE FICA A EQUIPE DE PRODUÇÃO NISSO TUDO?

A equipe de produção fica enlouquecida em escritórios, fica ligada em todas as redes wi-fi possíveis pra nenhuma coisa errada acontecer. Enquanto alguém gera o release, outros alguéns tiram fotos, fazem vídeos, montam planilhas, cancelam planilhas, remontam planilhas. É uma torre de babel onde cada um tem sua própria língua, mas que no final todas as informações convergem para o mesmo fim.

Os produtores geralmente não dormem. Cafés, guaranás, florais, incensos, lousas brancas, grupos temporários de whatsapp, canetas multicores e calculadoras são itens quase indispensáveis em suas rotinas. Tudo isso para que o público possa desfrutar de um evento onde tudo parece dar certo o tempo todo… mas só dá certo porque outros tantos ficam consertando errinhos e tretas de última hora, sempre com sorriso no rosto e com uma solução rápida para qualquer problema. Sabe aqueles trabalhos em grupo de escola? Produção é quase isso, só que com todo mundo tendo aprendido muito bem o tema pra poder apresentar e arrasar no final.

Outra equipe com a qual tenho convivido é a da Cena Produções, responsável pela produção de diferentes eventos de Brasília, como o FESTIVAL TODOS OS SONS e o reconhecido CENA CONTEMPORÂNEA, que neste ano entra em sua 19ª edição.

O Espaço Cena fica na Asa Norte, em Brasília. Um escritório de onde sai para o DF o que há de mais moderno na agenda de artes cênicas da capital. Lá, entre correrias e muitas chamadas ao telefone, qualquer estagiário ou produtor iniciante tem uma verdadeira aula de como fazer um evento artístico. A coordenação do CENA é de Alaor Rosa e o espaço é um local extremamente organizado. Diria até que há um quê de virgem com capricórnio naquele lugar.

Lá, produtoras competentes e articuladas como Michele Milani, Ana Celina (que abriu essa coluna do Aqui Tem) e Clara Nugoli desenham estratégias, adequam orçamentos, otimizam contratações de outros colaboradores e riem bastante nos bastidores (o que ajuda muito). Também pudera… fazem parte da equipe do Cena Rosa Madalena, com tiradas ótimas que surgem a cada novidade, Rodolfo Godoi, que manja muito de atividades formativas e estruturação de oficinas e Chico Sant’Anna, ator e produtor que dá o ar de sua graça e torna os encontros bem mais humorados do que o de costume.

Há também uma figura que talvez seja a que mais passeia por todos os setores do festival, desde a coordenação até a equipe terceirizada: Chiquinho! Chiquinho entende tudo e sempre tem uma solução à pronta-entrega! A tomada tem três pinos e o interruptor não é compatível? Ele arruma? A impressora começou a cantar na hora de imprimir? Ele já sabe o que foi! Precisa de uma prancheta? Ele aparece com uma caixa com 29 delas! E é esse ritmo que faz com que o Festival Cena Contemporânea cresça anualmente. A equipe de colaboradores contratados direta ou indiretamente é grande. Há muitos produtores locais e setorizados, assistentes de produção e estagiários vinculados a instituições de ensino, afinal, são os estagiários de hoje os futuros produtores executivos de amanhã.

Chico Sátiro – O Chiquinho

Quer conhecer melhor como funcionam os bastidores de um evento cultural? Comece a fazer parte como público. Desfrute, frua, observe quem são e que fazem aquelas pessoas com camisetas de produção, crachás, fones de ouvido e celular sempre à mão. Leia a ficha técnica presente nos programas impressos, entenda como se dividem as funções administrativas e artísticas. A partir daí você vai saber como funciona um projeto.

A maioria deles recebe currículo para novos produtores ou abre chamamento para inscrição de novos colaboradores pela internet. Informe-se, forme-se e faça parte do lado de cá. Parece uma loucura recomendar que você se familiarize com planilhas orçamentárias, tabelas cronológicas e o ritmo frenético de um backstage, mas vai por mim… O prazer de ver algo que você ajudou a construir sendo sucesso tem sim um preço adorável!

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