O projeto é aprovado, a verba empenhada, a conta bancária é aberta, os talões de cheque solicitados e a nota fiscal é emitida. Se está tudo certo, por que os prestadores de serviço de arte NUNCA recebem em dia?

Estive refletindo muito sobre as falácias, os “disse-me-disse” do meio cultural, as promessas e mais promessas de que “no próximo trabalho” tudo vai melhorar…Cheguei à uma conclusão: Os artistas e prestadores de serviço ainda vivem de pires na mão, esperando a boa vontade de contratantes ou de alguém (ou alguéns) que não está (estão) desempenhando um bom cargo de produção.

Em Brasília, há um mito de que se você reclama de pagamento pode se queimar ou não ser contratado em trabalhos futuros. Talvez eu seja o contra fluxo dessa mitologia, pois acredito que o que queima um profissional é um mal desempenho de sua função, o não cumprimento de suas atribuições. Passou das 18h do dia programado para recebimento de algum honorário meu, eu mando mensagem e gravo um áudio. Não me respondeu? Mando um e-mail, printo a cláusula do contrato e, na pior das hipóteses, ligo (porque falar ao telefone é algo que não gosto). Esse período em que busco satisfações pelo não recebimento geralmente é crucial para entender o funcionamento de um ciclo vicioso que ocorre nas produções artísticas da capital. Tentarei explicar melhor colocando numa lista todas as justificativas de não pagamento no prazo que já ouvi na vida. Depois, caro leitor, cara leitora, me diga se faltou alguma:

1 – “Oi! Ia até falar contigo, ó… Já ia te ligar mesmo” (MENTIRA);

2 – “Opa! Tô sem folha de cheque, irmão. Vou ter que pedir de novo no banco” (IMPRUDÊNCIA)
Toda pessoa que possui conta em banco via FAC ou outros projetos de incentivo cultural tem direito a pedir 10 folhas de cheque em ocasiões simplificadas ou um talão com mais possibilidades, dependendo do fluxo de pagamentos e do valor total em conta. Obviamente, em algumas agências, a solicitação de novas folhas de cheque levam até 5 dias úteis. Pensando nisso, é sempre importante que o Coordenador Administrativo do projeto vigente cheque o número de colaboradores que necessitem de pagamento para solicitar ao banco antes que as últimas cinco folhas acabem. Essa é uma dor de cabeça bem recorrente entre prestadores e produtores. Tão ruim quanto não ter a folha de cheque é depositá-la no caixa eletrônico na quinta… pois o dinheiro só vai entrar em conta na terça seguinte;

3 – Assinatura do titular não confere (SINAL DE QUANDO SE FAZ TUDO NAS COXAS)
Isso faz a gente solicitar uma nova folha de cheque ao proponente do projeto. Seria uma tarefa simples, se as folhas de cheque não tivessem acabado pra você esperar tuuudo de novo;

4 – Solicitação de Emissão de Nota adiantada para uso de dinheiro em fontes outras
Duvida? Já cheguei a ser informado que meu pagamento havia sido usado pra pagar gasolina da equipe de transporte. Impossível a gente não ficar com o pé atrás depois;

5 – A Emenda Parlamentar caiu (A PIOR DE TODAS)
Você é convidado pra um serviço cultural com verba oriunda de emenda parlamentar distrital (municipal) ou federal. Aí você executa o serviço com a promessa de pagamento para o mês seguinte, entrega o produto final e descobre que alguém “furou” com quem te contratou. É aí que mais um calote bate à nossa porta. E o pior… como as emendas parlamentares são geralmente para projetos grandes o calote é maior ainda;

6 – O governo só permite pagamento depois que o serviço é executado
O ruim é quando o dinheiro já está na conta (sim… eu confiro tudo no Diário Oficial), mas o pagamento, não se sabe por que, só é liberado 40 dias depois. Isso depois de você ligar para o contratante ameaçando falar abertamente sobre o descaso;

7 – Campanha Publicitária
É… é muito bom fazer televisão em Brasília. O ruim é não poder questionar o contrato que diz que *o pagamento será liberado após 60 dias da veiculação da campanha*. Na prática, isso quer dizer que você grava um comercial em maio, o dinheiro só vai entrar na conta da agência em julho. Alguém da tesouraria da agência/produtora audiovisual vai se perder nas tantas folhas de pagamento de atores e figurantes e só vai te pagar quando você ameaçar chamar o sindicato pra resolver. Parece mágica! Quando você cita o sindicato, inexplicavelmente alguém da agência/ produtora lembra que o dinheiro já está em conta e te faz uma transferência bancária via TED. Ou seja… Você recebe pelo comercial gravado em maio mais ou menos no mês de outubro. O pior é que no contrato tá certo! Ele diz “após 60 dias” e não “até tal data”. Após 60 dias pode ser em 36 meses depois. Nunca saberemos;

8 – “Então, não conseguimos a verba” – Esta é aquela frase ordinária que nós atores, assessores de imprensa e produtores odiamos ouvir. Sabe por quê? Geralmente essa frase é dita quando o seu serviço já está em andamento… o que nos obriga a seguir até o fim pra não perder pelo tempo de trabalho executado, mesmo que o combinado tenha sido 2.500,00 e que ele vire 1.700,00 porque a realizadora do evento descobriu que não obteve o dinheiro previsto;

9 – “Oi, sou de São Paulo e quero fazer parceria em Brasília. Agora não temos verba, mas se formos parceiros te coloco nos próximos trabalhos aí. E serão muitos!!!” (PERIGO, CORRA!)
Esta é a mentira mais deslavada da galáxia. Com certeza, se tiver alguém com vida inteligente lá em Saturno, Urano ou Plutão vai olhar pra nós e dizer: Sai dessa!

O que, diabo, esses produtores de São Paulo pensam sobre a produção cultural brasiliense? Às vezes, imagino que eles se acham uma espécie de Jesus das Artes e que ninguém vai ao teatro senão por eles. Não conheci até hoje ninguém (ninguém) que tenha feito um trabalho pra alguém de outro estado que promete algo semelhante e que tenha sido contratado novamente pela mesma equipe. Vou dar um exemplo: Se o trabalho custa tipo uns 2.000,00 em Brasília, eles oferecem 500,00. É uma patifaria sem fim! Ah… e os atores que fazem novela são craques nesse tipo de pedido, porque pode soar “chique” pra um produtor ou assessor daqui trabalhar com eles, mesmo que mal paguem por isso;

10 – Deixei por último o mais polêmico, de propósito
De novo… me corrija se eu mentir:

_Oi, então. Tô com um serviço pra você. A nota é de 5.438,00 reais, mas só tenho 2.438 pra te pagar. Você topa? Aí você nos repassaria 3.000,00 de retorno.



…é.

Obviamente, como colunista do Aqui Tem Diversão, não posso terminar este texto de maneira puramente pessimista. A ideia é o contrário… Despertar reflexão sobre o modelo de trabalho e o tratamento dirigido aos prestadores de serviço em artes no Distrito Federal. Resistência hoje é um discurso que tá na moda. Há que sempre fez e lutou sendo resistente de raiz…. e há quem sempre obteve patrocínio e que, com a crise do país, ousa falar de resistência quando, na verdade, sempre tratou como segundo plano seus colabores e prestadores de serviço. Antes, pagavam mal porque as pessoas queriam muito trabalhar com a equipe deles e havia nisso uma relação de poder e prestígio. Hoje, pagam mais mal porque não há dinheiro em caixa. Fique atento aos discursos de resistência. Ela existe, claro, e é super coerente que o artista e os realizadores de eventos o usem. Todos têm esse direito. O que sugiro é uma maior atenção para que esse discurso de resistência não seja uma estratégia momentânea de convencimento. Sempre fui parceiro de pontos de cultura, artistas independentes, amigos e companheiros das artes. Só não confundamos as estações: o que é resistência e o que é estratégia?

Produção Cultural 41

Quer uma dica de um cara que trabalha pra caramba e que trabalha muito bem? Inclua em suas futuras contratações um pedido de reajuste entre 4,1% e 4,3%, que é o da inflação vigente no Brasil em 2020. Não entendeu? É simples! Quando te oferecerem 1.000,00 por um trabalho, sugira aumentar o valor para 1.041,00. Parece bem pouco, mas 41,00 a mais, já é uma diária de almoço, um Uber ou até um sorvete e um café mais gostosinhos. Não é luxo. É a parte que nos cabe de todo esse latifúndio do país. Pense comigo… a sua conta de luz e de água baixam o valor quando você não pode pagar por elas? Pois é!

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