7 IMPRESSÕES DA REPRISE POR AMOR


Sucesso no horário da tarde 22 anos depois de sua primeira exibição, Por Amor, de Manoel Carlos, faz com que o público tenha uma nova visão sobre o clássico no Vale a pena ver de novo.

Quando Manoel Carlos escreveu “Por Amor” em 1997 era quase inquestionável que a trama seria um sucesso, afinal, veio atrelada ao êxito da produção anterior do autor: “História de Amor” (1995), que apresentou a primeira Helena de Regina Duarte.

Só a nível de informação – a exemplo de “Escrava Isaura” (1976), a história de Helena, Maria Eduarda, Marcelo, Atílio e companhia está em sua 5ª exibição na TV (somando-se a estreia de 1997, a reprise de 2002 [no Vale a Pena], as reprises no Canal Viva [2010 e 2017] e essa nova reexibição em andamento nas tardes da Globo em 2019.

Por Amor

Mas, será que a novela reverbera da mesma maneira hoje, nos novos tempos em que a teledramaturgia se reinventa? Será que o público pensa igual? Se não… O que faz com que vejamos a história com outros olhos agora? Deixo aqui 07 impressões sobre “Por Amor” no Vale a pena ver novo:

1 – SOBRE OS CORTES

“Por amor”, como toda trama de Manoel Carlos, tem lá sua barriguinha do meio pro fim (aquele período em que nada acontece e a novela fica chata). Sabiamente, a Globo tem suprimido cenas da novela, deixando a edição mais dinâmica. Nesta semana, por exemplo, vai ao ar o bloco de capítulos que vai do 70 ao 74 da reprise e que correspondem aos capítulos 114 a 120 da versão original. Além de serem exibidos quase dois capítulos ao dia (com duração de 60 minutos contra 39 minutos dos originais), a impressão que se tem é a de que a cada dia uma nova cena de impacto acontece. É isso que segura o telespectador.

2 – SOBRE OS NÚCLEOS

A novela veio carregada de melodramas e núcleos, que são divididos da seguinte maneira:

*Helena, Atílio, Eduarda e Tadinha
*Sirleia, Nestor, Catarina, Teresa e Leonor
*Nestor, Sílvia, Nestorzinho
*Branca, Arnaldo, Leonardo, Zilar, Milena
*Ligia, Nando, Orestes, Sandrinha, Cátia e Cecília
*Salão de Ligia
*Escritório de Arnaldo, Isabel, Atílio e Marcelo
*Isabel e irmãs
*Ateliê de Helena, Flávia e Aninha
*Casa de Meg
*Marcelo e Laura
*Shopping
*Restaurante de Wilson e Márcia
* Magnólia, Oscar e Genésio
*Virginia, Rafael e Rodrigo
*Hangar dos Helicópteros
*Antenor, Mafalda, César e Anita
*Dr. Moreti e o Hospital
*Empregadas Domésticas
*Vila

Tá certo que a tentativa de se compor um núcleo pobre e popular não foi tão bem sucedida. O requinte dos diálogos deixa pouco crível a relação entre as personagens mais suburbanas (como é o caso do núcleo da Vila, onde claramente há uma forçação de barra para dizer que a novela não trata apena dos ricos). Outro núcleo discrepante é o das empregadas domésticas, que possuem texto erudito demais pra convencimento geral. O que salva são as personagens Magnólia (Elizangela) e Oscar (Tonico Pereira), mesmo que não tenham, na prática, alguma função dentro da dramaturgia. Lembro-me, inclusive, que o casal fica sem final definido nos últimos capítulos. O que há é um desfecho bem sem graça que mais parece cena de transição.

Por Amor

3 – SOBRE REGINA DUARTE

Não há como negar… Assistir a uma novela com Regina Duarte depois do apoio escancarado e fanático dela ao novo presidente do país faz com que mudemos o olhar sobre Helena. De repente, é como se não tivéssemos tanta pena da personagem, conforme acontecera em exibições anteriores. Acaba que ver Helena sofrendo um pouco se torna quase um ato sádico de nossa parte. Brincadeiras a parte, uma coisa é certa: em 2019 temos plena consciência de que Helena cometera um crime por amor. Não tem outro nome que justifique: é crime! E esse pensamento mais racional faz com que analisemos mais criticamente o ato de ter trocado os bebês na maternidade – Diferente da piedade que dirigimos à personagem 20 anos atrás. Outra curiosidade é que Regina Duarte usava ponto eletrônico e agora é muito perceptível ver que a atriz tem um certo delay em cena, pois primeiro escutava a instrução do texto para depois falar. Daí aquela balançadinha de cabeça pro lado típica da intérprete e aquela expressão de que está ouvindo o roteiro ao vivo, durante das contracenas.

Por Amor

4 – SOBRE PRECONCEITO RACIAL E MACHISMO

É certo que em 1997 tratar da questão de relacionamento entre uma mulher negra e um homem branco foi inovador. A televisão era outra… os tempos eram outros. Vendo a trama de Márcia (Maria Ceiça) e Wilson (Paulo Cesar Grande) a impressão que dá é a de que o machismo e o preconceito ganharam a luta. Basta refletir que Wilson só procurou Márcia de volta depois de descobrir que a filha do casal nascera branca, loira e de olhos azuis. Uma forçaçãozinha de barra bem tacanha que é sempre acompanhada da trilha sonora “Preconceito”, de Maria Bethânia, toda vez que o casal se ama. Pegou bem não.

Por Amor

Falando em machismo, Marcelo (Fábio Assunção) é uma das personagens que mais causam asco na novela. É preconceituoso, machista, mimado, traidor, arrogante, violento e insensível. Na segunda metade da novela há uma espécie de redenção do protagonista, mas que, na vida real, a gente sabe que não duraria muito. Aliás, tenho até a impressão de que após a novela ele e Eduarda entram em terapia de casais e se separam. Pra mim esse é o final dos dois que não deu tempo de mostrar porque a novela acaba.

5 – SOBRE ACHINCALHES COM EMPREGADAS DOMÉSTICAS

Como as empregadas de “Por Amor” são vítimas de preconceito. Isso em TO-DOS OS NÚ-CLEOS. Piadas preconceituosas vomitadas e disfarçadas de bom humor colocam as personagens de Tadinha, (Rosane Goffman), Teresa (Ingrid Guimarães), Santa (Lucy Mafra), Zilá (Stella Maria Rodrigues), Vera (Sandra Hansen) e Liza (Claudia Mauro) em situações que hoje seriam duramente criticadas, embora saibamos que a novela refletia um padrão que a classe média tinha para com as colaboras do lar. Elvira (Edyr de Castro) e Saudade (Lucy Freitas) são as únicas exceções no turbilhão de tiradas de tempo, xingamentos e maus tratos.

6 – SOBRE PROTAGONISTAS COADJUVANTES

Antonio Fagundes e Murilo Benício certa vez comentaram sobre a insatisfação com o andamento de “Por Amor”. Fagundes, que deu vida a Atílio, comentou que em toda a novela teve duas cenas boas e o restante de sua atuação se deu em mesas, tomando café e whisky. E é verdade… Após o clima de romance em Veneza (nas cenas que abrem a novela), cenas boas mesmo do Fagundes foram as da notícia de quando um dos bebês morre, as de um ou dois sopapos em Marcelo, a da revelação de que Leonardo é seu filho (que é realmente uma cena linda) e a briga final com Helena, quando descobre o que a esposa fez com as crianças na maternidade. O restante foi fumando charuto e tomando drink. A vantagem é que até nas cenas que apresentam frivolidades do dia a dia o ator conseguiu manter sua marca com qualidade e carisma. Outro ator que comentou sobre o andamento da trama foi Murilo Benício que, assim como o público, se frustrou por não ver um momento sequer em que a personagem Leonardo explode. Ele passou a novela inteira engolindo sapos e humilhações e, com exceção da famosa cena da tesoura com Suzana Vieira, Leonardo não mostrou a que veio. Entrou passivo e terminou passivo, sem nenhum grito ou reviravolta.

Por Amor

7 – SOBRE REDES SOCIAIS

Passar no Canal Viva é legal, mas passar no Vale a pena ver de novo tem lá o seu charme… Dá um aspecto mais cult à obra (até pela quantidade de espectadores da TV aberta, que é numericamente bem maior). As hashtags “PorAmor” e “Valeapenaverdenovo” estão super ativas nas redes sociais e isso facilita a compreensão do novo público da novela, facilitando o engajamento entre quem já assistiu e quem nunca viu a trama. É uma pena que não haja mais Vídeo Show porque certamente a novela serviria de pauta para muitas matérias.

Comentários, apontamentos, críticas e elogios à parte, é inegável que “Por Amor” é um novelão. Um clássico da indústria do entretenimento dos anos 90 que conseguiu sobreviver ao tempo e à era digital. O impacto poético é menor nessa reprise de 2019, porém, sempre vale a pena rever uma novela antiga, seja pela nostalgia ou pelo senso comparativo. Resta pouco mais de um mês para o fim da exibição e ainda há cenas de grande impacto para serem exibidas com ou sem martini branco.

josuel Junior é ator, professor, produtor cultural e assessor de imprensa formado pela Fundação Brasileira de Teatro – Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Tem trabalho ativo em teatro, cinema, televisão e fotografia.

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