Quando é o nome do terceiro EP do cantor e compositor paulistano Pièrce Willians. A escolha do título forma uma frase com os outros dois EPs, A Derradeira Estrela Acende e o Carvão da Noite. E faz relação com a espera da quarentena, com amanhecer depois de uma noite escura, com a gestação de uma vida nova.

As 4 faixas de Quando condensam elementos de folk, rock psicodélico e MPB das Minas Gerais e vocais que se estendem em ecos nostálgicos, violões rasqueados de sensibilidade e melancolia mesclados à guitarra matizada e à percussão síncope. É um encontro entre John Frusciante e Lô Borges, numa jam session com exímios músicos conhecidos da cena vespertina sob a luz do outono em São Paulo, onde o álbum foi gravado. Distribuído pela Tratore, Quando chega às plataformas digitais na sexta, dia 07 de agosto de 2020.

“A Nova Medida”, uma das faixa do trabalho, foi lançada em julho com videoclipe no Youtube.

Ficha técnica

A Nova Medida (letra e música de Piérce Willians):
Piérce Willians (voz e violão); Murilo Gil (guitarra elétrica); Ivan Gomes (baixo elétrico); Felipe Trez (bateria); Chicão (órgão).

Bruma (letra e música de Piérce Willians):
Piérce Willians (voz e violão); Murilo Gil (guitarra elétrica); Ivan Gomes (baixo elétrico e sintetizadores); Felipe Trez (bateria).

Pedro e Maria (letra e música de Piérce Willians):
Piérce Willians (voz e violão); Murilo Gil (guitarra elétrica); Ivan Gomes (baixo elétrico e sintetizadores); Felipe Trez (bateria).

O Livro Vermelho (letra e música de Piérce Willians):
Piérce Willians (voz e violão); Murilo Gil (guitarra elétrica); Ivan Gomes (baixo elétrico e sintetizadores); Felipe Trez (bateria); Marina Bastos (flauta).

Sobre Piérce Willians

Fui um dos fundadores do grupo musical ‘As Irmãs da Providência’, no ano de 2006, quando eu cursava Educação Artística na Unicamp. Eu tinha a experiência prévia de ter tocado numa banda de rock instrumental (com pitadas de música árabe) e atuava como poeta, mas nunca tinha feito letra de canção. Por incentivo de um amigo, que conhecia meus poemas, o que nascera como uma banda de improvisação tornou-se, rapidamente, uma trupe de cancionistas. Escrevi centenas de canções nos anos que se seguiram, e ‘As Irmãs da Providência’ ficou relativamente conhecida em Barão Geraldo (distrito da cidade universitária de Campinas) até o ano de 2013, quando veio ao fim de suas atividades.

Com a bagagem de tantas canções compostas de 2006 a 2013, compondo outras canções desde então, tentando me desvincular da herança direta e imediata do trabalho musical prévio, comecei a pensar na possibilidade de lançar um álbum solo; na necessidade de marcar uma continuidade e uma sobrevivência como cancionista, digamos assim; na necessidade, também, de fazer um lançamento oficial, para um público mais amplo, uma vez que ‘As Irmãs’ só tinha demos e álbuns lo-fi ao vivo. Insinuei essa proposta para Ivan Gomes (dono do estúdio Lebuá e grande amigo meu), em 2014; ele, por sua vez, bateu o martelo e começamos a pensar num projeto. Em 2015, tínhamos decidido por fazer um álbum com onze faixas, sendo a maioria de inéditas (ao menos para o meu público em potencial).

Aliás, algumas canções do futuro disco eram recém-nascidas naquele momento e traziam temáticas em comum: viagem, exílio, solidão, caminhada em busca de si mesmo. Tudo isso era fruto dos processos de psicanálise pelos quais eu estava atravessando, e o imaginário desse som e dessas letras flertava com mergulhos íntimos e observações à beira da estrada. Para completar o set acabamos, eu e Ivan, por escolher outras canções minhas mais antigas, inclusive algumas preferidas dele, que tivessem temas análogos ou afins. A minha ideia é que fosse um álbum conceitual, com cada uma das canções como um recorte cinematográfico diferente de uma mesma cena: após o rompimento de um relacionamento amoroso, o eu lírico põe uma mochila nas costas e sai em viagem, em busca de curar suas feridas, em busca de um novo lar simbólico. O título sugerido para o disco seria ‘Carne de Sol’, como se as pedras do caminho, aquecidas pelo sol, fossem sua carne.

No fim das contas, o projeto acabou engavetado por vários anos; até que em 2020, durante o isolamento social decorrente da pandemia de Covid-19, Daniel Carezzato (que criou e produziu o clipe de ‘A Nova Medida’) e Murilo Gil (que tocou guitarra elétrica nas canções e fez a mixagem delas) injetaram ânimo e energia na ideia de retomarmos o velho lançamento. Adorei essa possibilidade, sinceramente. O álbum me parecia mais maduro agora e mais atual que nunca, uma vez que os temas das letras e a urgência da performance musical casavam perfeitamente com o luto e a gestação psicoafetiva que estamos vivendo, coletiva e individualmente. Mas, por sugestão de Murilo Gil, resolvemos dividir o que seria o álbum original em três EPs intitulados respectivamente ‘QUANDO’, ‘A DERRADEIRA ESTRELA ACENDE’ e ‘O CARVÃO DA NOITE’; sendo que o primeiro deles, ‘QUANDO’, está prestes a ser lançado.

Na época das gravações, reunimos Ivan Gomes para tocar baixo elétrico e Murilo Gil para tocar guitarra elétrica. Somos muito amigos, já moramos juntos e já havíamos tocado juntos numa banda de “Clube da Esquina em formato de rock”. Ou seja, essa decisão foi fácil e sem susto; por causa da amizade e por causa da genialidade dos dois como musicistas. Convidamos Felipe Trez para a bateria, por sugestão de Ivan, mas eu diria que a escolha foi certeira. Trez tinha qualquer coisa de fúria, virtuosismo e detalhe, como os bateristas do rock inglês dos anos 70. Convidamos, também, para fazer participações pontuais, vários musicistas incríveis. Em ‘QUANDO’, especificamente, Rafael Montorfano (o Chicão) no órgão e Marina Bastos na flauta. Todos esses convidados são amigos, conhecidos ou amigos de amigos. Logo, foi um projeto feito em família.

É preciso dizer que a mim, pessoalmente, muita música diferente me atrai e sempre me atraiu. O mesmo se dá com literatura, cinema, artes e filosofia em geral. As referências sonoras, poéticas e imagéticas que entraram para compor o EP ‘QUANDO’ são aquelas que me acompanharam como cancionista ao longo dos anos e, no caso das gravações, como arranjador junto com o restante da banda. Bastante de Lô Borges, de Beto Guedes, surrealismo, psicanálise, psicologia analítica, existencialismo; literatura medieval, iluminuras, mitologia, King Crimson, Jethro Tull, Genesis e Bert Jansch; Walt Whitman, Easy Rider, Van Gogh, sufismo; John Frusciante; folk-rock, Sá & Guarabyra e música regional gaúcha.

‘QUANDO’ tem quatro canções: ‘A Nova Medida’, ‘Bruma’, ‘Pedro e Maria’ e ‘O Livro Vermelho’.

‘A Nova Medida’ foi pensada desde o início como uma espécie de canção “mais acessível”. Algo com que fizéssemos um clipe ou um single. Originalmente uma balada folk bem mais escura e tristonha, subimos o tom dela e a vestimos de rock. Eu não diria que é rock progressivo, pois é uma canção bastante simples, na verdade. Mas a gente optou no arranjo, como em vários outros dentre as gravações que fizemos, por investir em dinâmicas e convenções sempre em movimento, muitas vezes intrincados e sutis. O arranjo tem qualquer coisa de uma polirritmia crescente, que faz lembrar música africana em certos momentos. Fizemos algo inspirado nos arranjos de guitarra do King Crimson dos anos 80 também, além de ter uma urgência que eu gosto muito. A letra é um pouco sobre trocar de pele, ouvir o inconsciente no silêncio, descobrir algo de si e ficar com aquilo; é um pouco sobre dar conta das contradições íntimas também e sobre a errância da condição humana de sentir as coisas, de elaborar a partir disso.

‘Bruma’ é sobre uma viagem a Paranapiacaba, que fiz em meio à completa neblina. Eu não pude enxergar nada, nos dois dias em que estive lá, absolutamente nada. Era uma parede branca e úmida diante dos olhos, que não cedia nem a dois centímetros do nariz. Achei aquilo maravilhoso e frustrante. Então eu me imaginava como um observador andarilho, que adivinharia os objetos, os lugares e as pessoas brotando da névoa conforme a neblina se dissipa. Um jogo entre imaginação/fantasia, possibilidade e surpresa. Mas aquilo tinha, também, uma aura sobrenatural; isso evocava em mim imagens do samsara, do sufismo, discos-voadores: mistérios da bruma que, uma vez dissipada, era como a retirada de um véu; como se a vida fosse um véu que encobre aquilo que é atemporal. Eu diria que é uma canção à moda do Lô Borges, um ‘Trem Azul’ meio sombrio e noturno. Com certeza inspirada, sonoramente, no pessoal do Clube da Esquina.

‘Pedro e Maria’ é uma canção com cara de folk-rock, apesar de não ser inspirada no gênero. Tem cadências harmônicas triviais em vários momentos, mas várias inserções harmônicas inusitadas, empréstimos e trechos de harmonia modal no meio como contraste. É uma canção triste, eu diria; sobre ruptura e despedida. Sobre o “nunca mais” depois do fim de algumas relações. Mas eu diria que é, também, uma canção sobre a mãe; sobre crescer e romper com a mãe idealizada, aquela mãe da qual a criança não quer se separar, mas precisa para adolescer e depois se tornar autônoma e adulta.

‘O Livro Vermelho’ é uma canção sobre adentrar as imagens do inconsciente. Feita para O Livro Vermelho de Gustav Jung, é uma canção caleidoscópica. Tem muitas imagens de mergulho e amplidão (como uma lente que se aproxima e se distancia), uma dança entre micro e macro. É um devaneio sobre a solidão que é o processo de encontrar ou de buscar a si mesmo. Sobre reunir opostos, contradições, integrar ao eu aquilo que é rejeitado afetivamente. Uma canção sobre se ver, sem máscaras ou subterfúgios; ser sem maiores desvios. Tem um quê de prog-folk, um quê de Beto Guedes; sem dúvida nenhuma, algo com uma cor que oscila entre Clube da Esquina e Jethro Tull.

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