Passageiro reúne obras de João Angelini produzidas em residência no Japão, explorando memória, deslocamento, identidade, cultura visual e diálogos entre Brasil e Oriente
Seis meses vivendo entre Yokohama, Tóquio, Kyoto e outras cidades japonesas transformaram profundamente o olhar e o processo criativo do artista plástico brasiliense João Angelini. O resultado dessa experiência poderá ser visto pela primeira vez no Brasil a partir do dia 10 de julho, quando a Referência Galeria inaugura a exposição Passageiro, com curadoria de Tereza de Arruda.
A mostra reúne cerca de 20 obras produzidas durante a residência artística realizada no Koganecho Artist in Residence Program, em Yokohama, a convite da Embaixada do Brasil em Tóquio, com apoio do Instituto Guimarães Rosa, braço cultural do Itamaraty, e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, por meio do Programa Conexão Cultura DF. Depois da temporada no Japão, a exposição desembarca em Brasília praticamente com o mesmo conjunto apresentado ao público japonês.
“A residência exigiu uma outra relação com o tempo, com o território e com a produção. É uma mudança de escala que reorganiza todo o processo de trabalho”, afirma João Angelini. “A exposição é bastante parecida com a que fiz no Japão e as obras que ficaram por lá estão sendo substituídas por outras da mesma série que estou produzindo aqui para expor no espaço da Referência.”
Mais do que um registro da experiência vivida no Oriente, Passageiro apresenta uma investigação artística construída a partir dos encontros entre diferentes culturas, histórias e modos de perceber o mundo. Pinturas, esculturas, instalações, vídeos, animações e fotografias revelam como o deslocamento físico também produz deslocamentos de memória, identidade e imaginação.
Para a curadora Tereza de Arruda, o título da exposição sintetiza a posição assumida pelo artista durante a residência. “João Angelini escolhe ocupar conscientemente o lugar do passageiro — aquele que atravessa territórios e culturas sem a pretensão de dominá-los. É justamente dessa condição transitória que nasce a potência de seu trabalho, capaz de aproximar Brasil e Japão por meio da memória, da arquitetura, da cultura visual e das experiências compartilhadas.”
Embora a viagem ao Japão tenha motivado a produção das obras, a relação do artista com o país começou muito antes. Na infância, ainda em Planaltina (DF), Angelini construiu parte de seu imaginário por meio dos mangás, animês e videogames japoneses. Décadas depois, ao caminhar pelas ruas de Yokohama e Tóquio, encontrou paisagens que já habitavam sua memória, agora confrontadas com a experiência concreta do cotidiano japonês.
A relação entre memória e realidade atravessa diversas obras da exposição. Entre os destaques está A Linha do Desejo, instalação que reúne fragmentos de uma casa colonial de aproximadamente 1830, em Planaltina, a padrões inspirados na arquitetura de um templo budista de Kyoto, aproximando diferentes universos para refletir sobre permanência, destruição e reconstrução.
Outro núcleo investiga o percurso do tradicional chá verde japonês, o matcha, e sua transformação em produto global. Em uma das obras, a imagem de um chasen — batedor de bambu utilizado na cerimônia do chá — é formada pelo próprio pó de matcha, que oxida e desaparece ao longo do tempo, numa metáfora sobre impermanência e consumo.
A mostra reúne ainda a animação Laissez Faire nº 5, composta por 1.580 desenhos feitos à mão, fotografias performáticas do personagem fictício XetruáKyaku — inspirado nos heróis dos tokusatsus japoneses e no imaginário popular goiano — e um vídeo baseado na expressão japonesa ichigo ichie (“uma vez, um encontro”), que reflete sobre a singularidade e a natureza efêmera dos encontros.
“Os trabalhos partem de tensões e aproximações entre Brasil e Japão — econômicas, históricas, culturais e estéticas —, mas também da escuta e da imersão no cotidiano. Tudo se constrói a partir dessa experiência direta”, resume Angelini.
Passageiro marca um momento decisivo na trajetória do artista. Além de representar sua primeira exposição individual internacional, a mostra inaugura um processo de inserção em circuitos artísticos no exterior. Após a abertura em Brasília, João Angelini embarca para uma nova residência artística, desta vez na Alemanha, por meio de um programa de internacionalização desenvolvido pela Referência Galeria em parceria com o Espaço Contemporâneo Pé Vermelho e a Residência Artística Mürow. Durante dois meses, o artista e Luciana Paiva, também representada pela Referência participarão da Residência Artística Mürow – Verão 2026, sob coordenação e acompanhamento curatorial de Tereza de Arruda.
Sobre João Angelini
Radicado em Planaltina (DF), cidade colonial na periferia de Brasília, João Angelini desenvolve uma produção marcada pela experimentação entre diferentes linguagens, como pintura, gravura, escultura, fotografia, vídeo, música, animação, teatro, performance e instalação. Representado pela Referência Galeria, investiga as relações entre processos, materiais e modos de circulação das imagens na contemporaneidade. Também integra o coletivo de performance EmpreZa.
Sobre a Referência Galeria
A Galeria possui atuação consolidada na promoção da arte contemporânea brasileira e na valorização de artistas em diferentes estágios de carreira. A doação das obras e a articulação institucional realizada para a exposição integram um conjunto de iniciativas da galeria voltadas à difusão da arte contemporânea em acervos públicos e ao fortalecimento do circuito artístico em Brasília.
Serviço
Exposição: Passageiro
Artista: João Angelini
Abertura: 10 de março, das 17h às 21h até o dia 28 de agosto
Local: Referência Galeria – CLN 202 bloco B loja 11 (subsolo), Asa Norte
Horário: Segunda a sexta 10h às 19h | Sábados 10h às 14h Entrada: Gratuita Informações: @referenciagaleria















