Coletivo Labirinto estreia a peça-filme Onde Vivem os Bárbaros, do chileno Pablo Manzi, pelos canais do Youtube dos Teatros da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo

Desde sua fundação em 2013, o Coletivo Labirinto tem como pesquisa o olhar para as relações do sujeito com o seu panorama social através da dramaturgia latino-americana contemporânea. Onde Vivem os Bárbaros, de Pablo Manzi, é a terceira montagem do grupo e estreia de forma online e gravada no dia 4 de novembro de 2021. A direção e tradução são de Wallyson Mota, que também integra o elenco ao lado de Abel Xavier, Carol Vidotti, Ernani Sanchez e Ton Ribeiro.

Após estudos e passagens do grupo pela dramaturgia argentina e uruguaia, a peça escrita no Chile apresenta uma ampla base de reflexão para traços determinantes de nosso percurso social, tais como a normalização e a validação da violência dentro de contextos supostamente democráticos. O texto traz ainda uma oportuna reflexão sobre o arquétipo do bárbaro – o ser que está sempre fora da sociedade “civilizada”, excluído de seu epicentro político e social.

A obra conta a história de três primos que, depois de vários anos sem se ver, decidem se encontrar no Chile, em 2015. O anfitrião, diretor de uma ONG reconhecida por realizar ações de estabelecimento da democracia em zonas de conflito, se vê envolvido no estranho homicídio de uma jovem ligada a movimentos neonazistas. Este fato desencadeia atitudes inesperadas das personagens e um extenso debate sobre a ideia que cada um constrói sobre o outro, que culmina na deflagração das diferentes formas de violência entre os convidados.

Onde Vivem os Bárbaros apresenta uma sociedade que busca respostas rápidas para assuntos complexos, mesmo que para isso se arrisque pelo terreno das injustiças e se expresse por gestos inequívocos de silenciamento do que lhe é diferente – entendido então como um inimigo.

Qualquer semelhança com o que vivemos não é mera coincidência. Ao conhecer essa dramaturgia, de diálogos ágeis e sinuosos, o Coletivo Labirinto pôde novamente (assim como tinha lhe parecido com o Argumento Contra a Existência de Vida Inteligente no Cone Sul, seu espetáculo anterior) deparar-se com um material que trata diretamente e de maneira vertical dos desdobramentos de nosso percurso social, estabelecendo assim uma ponte de interlocução com a realidade chilena – comum e ao mesmo tempo diversa a nós.

O Coletivo Labirinto nasceu em 2013, no ano das emblemáticas manifestações políticas pelo preço do transporte público (e que logo em seguida se pasteurizam em reivindicações genéricas e pouco objetivas), e acompanhou a transformação dos processos sociais no Brasil que culminaram na deposição da ex-presidenta Dilma Rousseff em 2016, no avanço das pautas neoliberais e na discussão um tanto incerta sobre os rumos políticos do país.

O grupo pôde, com isso, perceber semelhanças entre essa trajetória e a de seus países vizinhos – com disputas políticas igualmente polarizadas, avanço de medidas econômicas similares e o crescimento de um pensamento conservador também assentado na moral. Dessas observações e vivências – no cotidiano e nas suas ações criativas -, conseguiu amadurecer a necessidade de entender-se como brasileiro e latino-americano, não uma coisa pela outra.

A dramaturgia de Pablo Manzi, autor e diretor chileno que tem conseguido gerar interesse pelas suas discussões em seu país e fora dele (com participações frequentes em Mostras e Festivais Internacionais de Teatro), ofereceu ao Coletivo Labirinto uma ampla base de reflexão para as questões ditas acima, tanto pelos assuntos que trata e quanto pela maneira como os provoca.

Palavras do diretor

A pesquisa e montagem de ‘Onde Vivem os Bárbaros’ tem sua origem em 2019, quando estávamos em cartaz com o nosso espetáculo presencial anterior. Ali, pudemos perceber de maneira muito viva a necessidade de retratarmos em cena o avanço de uma lógica de raciocínio imediatista, sentenciador e moralista em nossa sociedade. Mais ainda, de trazermos a público as diferentes vias de discursos políticos, a fim de que possam gerar debate e fricção entre nós, desvelando as controvérsias sobre o delicado momento histórico que vivemos.

Nos últimos anos, pudemos observar o aumento das desigualdades concomitante ao desenvolvimento de uma conduta moral que visa um comportamento ‘puro’ entre as pessoas, numa espécie de lógica neofascista. Expor essa situação e colocá-la para discussão nos pareceu fundamental.

Esta obra discute, portanto, que ideias temos hoje sobre civilização e barbárie. O que seria uma sociedade civilizada e o que seria uma sociedade bárbara? A quem interessaria estabelecer essas definições, essas fronteiras entre uma coisa e outra? Quem são os cidadãos dessa sociedade e quem são os seus selvagens? E mais, quem pode ocupar esses espaços – de uma pressuposta cidadania?

Apesar de tocar em discussões complexas e nada pacíficas, o espetáculo as apresenta através de uma dramaturgia fluida e ágil, apoiada em uma situação ficcional bastante reconhecível: um encontro familiar entre três primos que há muito tempo não se veem. Cada um levou a sua vida de maneira distinta, tem histórias e experiências diferentes e ao se reencontrarem percebem o quão diferentes são. E o quanto essas diferenças, no modo de vida contemporâneo, podem representar uma ameaça; a ideia de que o outro (o diverso) é um inimigo a ser eliminado.

Esta obra integra o projeto “Histórias de Nossa América”, do Coletivo Labirinto, contemplado pela 35ª. edição da Lei de Fomento ao Teatro Para a Cidade de São Paulo. Este projeto foi elaborado antes da pandemia da COVID-19 mas viabilizado em 2020 – já com os teatros fechados e as medidas de distanciamento social em nossas vidas. Nele, o Coletivo tem promovido um amplo passeio pela dramaturgia latino-americana contemporânea através de leituras encenadas, laboratórios de pesquisa e agora a criação desta peça-filme.

Os encontros, ensaios e processos de criação com toda a equipe de “Onde Vivem os Bárbaros” tiveram início de fato em julho deste ano – com o leve arrefecimento da segunda onda do vírus sobre o país e certo avanço da vacinação. Então pensamos esta peça-filme como o anúncio de uma volta nossa ao teatro dentro dos limites de segurança sanitária que enxergávamos no período. Sendo assim, projetamos uma obra que fosse criada e ensaiada totalmente à distância (em vídeo chamadas e ligações), sem encontros presenciais entre os artistas envolvidos. Elenco, figurinista, iluminador, músico, todos criando de suas casas. Ao fim dessas nove semanas de trabalho criativo remoto, nos juntamos para uma semana de trabalho presencial e imersivo dentro de um teatro. Juntos novamente no palco.

A peça-filme é, portanto, uma espécie de ficção-documental que traz toda a narrativa original de “Onde Vivem os Bárbaros”, mas também um olhar sobre como foi colocar em pé essa obra nesses dias ali, juntos e imersos em apenas uma semana depois de tanto tempo criando à distância.

Wallyson Mota

SINOPSE

Depois de anos sem se ver, três primos se reencontram. O anfitrião, diretor de uma ONG reconhecida, revela estar envolvido em um estranho assassinato, fato que desencadeia manifestações de violência entre os convidados. Este encontro aparentemente familiar torna-se cada vez mais terrível com o aparecimento de personagens que vão agravar as ideias que cada um construiu sobre o outro, sobre o inimigo.

FICHA TÉCNICA:

Direção: Wallyson Mota
Dramaturgia: Pablo Manzi
Tradução: Wallyson Mota
Elenco: Abel Xavier, Carol Vidotti, Ernani Sanchez, Ton Ribeiro e Wallyson Mota
Assistente de Direção: Carolina Fabri
Direção de Fotografia: Raphael B. Gomes
Som Direto: Tomás Franco
Montagem (edição): Laíza Dantas
Cenografia e figurino: Lu Bueno
Iluminação: Matheus Brant
Concepção Sonora: Gregory Slivar
Cenotécnico: Armando Júnior
Aderecista: Jésus Seda
Visagismo: Fábia Mirassos
Técnico de Luz: Guilherme Soares
Designer Gráfico: Alexandre Caetano – Oré Design
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Fotos: Mayra Azzi
Assistente de produção: Luiza Moreira Salles
Produção: Carol Vidotti
Realização: Coletivo Labirinto

SERVIÇO:

4 de novembro a 5 de dezembro de 2021
Gratuito
Transmissão pelos canais do Youtube dos Teatros da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo
Duração: 75 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

TEATRO JOÃO CAETANO – Link

DATAS: 04, 05, 06 e 07 de novembro de 2021
HORÁRIO: Quinta, Sexta e Sábado às 21h e Domingo às 19h
VALOR DO INGRESSO: Gratuito (Evento Online)

TEATRO PAULO EIRÓ – Link

DATAS: 12, 13 e 14 de novembro de 2021
HORÁRIO: Sexta e Sábado às 21h e Domingo às 19h
VALOR DO INGRESSO: Gratuito (Evento Online)

TEATRO ALFREDO MESQUITA – Link

DATAS: 19, 20 e 21 de novembro de 2021
HORÁRIO: Sexta e Sábado às 21h e Domingo às 19h
VALOR DO INGRESSO: Gratuito (Evento Online)

TEATRO CACILDA BECKER – Link

DATAS: 26, 27 e 28 de novembro de 2021
HORÁRIO: Sexta e Sábado às 21h e Domingo às 19h
VALOR DO INGRESSO: Gratuito (Evento Online)

TEATRO ARTHUR AZEVEDO – Link

DATAS: 03, 04 e 05 de dezembro de 2021
HORÁRIO: Sexta e Sábado às 21h e Domingo às 19h
VALOR DO INGRESSO: Gratuito (Evento Online)

Toda quinta-feira (exceto dia 4 de novembro) vão ter lives pelo Instagram do @coletivo.labirinto e do Teatro da semana.

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