Oasis ganha análise profunda com ranking de todas as músicas, celebrando legado, impacto cultural e retorno dos irmãos Gallagher aos palcos brasileiros
Marco Antonio Barbosa
[Devo ter mencionado por aqui, os poucos que conheciam minha carreira antes do Substack sabiam: antes de ganhar a vida como conteudista corporativo, escrevi sobre música em diversos veículos, por mais de duas décadas – contando a partir do primeiro fanzine que criei, em 1989. Em 2017, quando já havia desistido de tentar viver de jornalismo, iniciei no Medium uma série de listas chamada TODAS AS MÚSICAS DE…, DA PIOR À MELHOR. A ideia, inspirada num post do site Vulture, era repassar toda a obra de artistas que admiro, propondo-me a ordenar as canções da menos à mais brilhante.
Oasis
Claro que as listas refletem minha opinião pessoal, mas trata-se de um trabalho sério, no qual busco argumentos objetivos e análises críticas para embasar a ordem apresentada. O negócio até fez um certo sucesso. Infelizmente, não rendeu um único tostão, pois o Medium não remunera autores brasileiros – um dos fatores que me trouxeram ao Substack.
Não pretendia escrever sobre música nesta plataforma. Afinal, a ideia desta publicação é falar de comunicação, cultura digital, sustentabilidade, mundo corporativo e inovação. Só que também não quero deixar de escrever minhas listinhas. Podem dar um trabalho danado mas são muito divertidas de fazer (e de ler, espero). E música também é comunicação, né? Então resolvi: aproveitando a passagem do grupo ̷p̷e̷l̷o̷ ̷B̷r̷a̷s̷i̷l̷ por São Paulo, aprontei o ranking com TODAS AS MÚSICAS DO OASIS, DA PIOR À MELHOR. Espero que curtam, comentem & compartilhem. Aliás, comentem e compartilhem mesmo sem curtir.]
“Não sei não, mas se tudo der certo, esses caras vão conquistar a América e, depois, o mundo. Legal. Depois do nirvana, um oásis.” Foi assim, trocadilhescamente, que o grande Carlos Albuquerque apresentou (e contextualizou) aos roqueiros cariocas o Oasis. Calbuque assinou a matéria “A sensação do rock”, publicada no Rio Fanzine em 25 de setembro de 1994. O timing foi cronometrado pela Sony Music, que acabara de lançar o álbum Definitely Maybe no país – em sincronia com o lançamento nos EUA – e a faixa de trabalho “Supersonic” já rodava na MTV.
Lembro de ter lido o texto (o Rio Fanzine era parada obrigatória n’O Globo de domingo) e ficar com o pé meio atrás. Meus amigos, chegados a DeFalla, Fellini e Mercenárias, desconfiaram mais ainda. Será que é tão bom assim mesmo? E, quando afinal pus a mão no CD do álbum de estreia, sanei a dúvida: sim, pode ser tão bom mesmo. Talvez até melhor!
O Oasis nasceu mais de uma década antes das mídias sociais. Mesmo assim, é forte concorrente ao posto de banda mais memética da história do rock; demérito algum, trata-se de um panteão que inclui os early Beatles & Stones, Sex Pistols, Guns’n’Roses, Strokes e Arctic Monkeys. “Memética” no sentido de ser um pacote pronto e irrefutável, uma combinação de som, imagem, poesia, influências e discurso absurdamente coesa, e de comunicação absolutamente direta.
No alvorecer do Britpop, tratava-se do grupo certo na hora exata. As composições de Noel sintetizavam todo o histórico do rock britânico feito até ali; a atitude do quinteto, Liam à frente, resumia uma linhagem de irreverência e ameaça – e de sedução. Você deixaria sua filha casar com um dos irmãos Gallagher?
Por cerca de três anos, o Oasis foi, sim, o grupo certo na hora exata. E aí as fichas começaram a cair. Dobraram a aposta em (What’s the Story) Morning Glory; quando resolveram triplica-la, em Be Here Now, o caldo entornou. A produção grandiloquente e o excesso de volume não conseguiam disfarçar que Noel chegara ao limite de sua criatividade. E que era impossível sustentar uma carreira baseada apenas em “influências” e “referências” no limite do plágio.
Entre tapas e murros, Noel e Liam conseguiram arrastar o grupo até 2009, trocando integrantes e lançando álbuns cada vez mais esquecíveis. Standing on the Shoulder of Giants (2000), o quarto álbum, na prática propunha um reboot, empregando samples e cítaras para sugerir uma virada neopsicodélica/pós-moderna. Durou pouco. Dali em diante, o esgotamento da fórmula evidenciou-se em cada trabalho subsequente. Mesmo as contribuições de Andy Bell, ex-Ride (cujo álbum de estreia, Nowhere, é superior a qualquer disco do Oasis), resultaram irrelevantes.
(Anedota pessoal: em 2008, quando eu trabalhava no Jornal do Brasil, recebi da gravadora uma cópia de Dig Out Your Soul, que viria a ser – até agora – o último álbum de estúdio do Oasis. Olhei o disco e coloquei-o, lacrado, na pilha dos CDs a ouvir. Esta pilha foi encaixotada, intacta, em uma mudança e assim ficou, na mesma caixa, por outras duas mudanças. Afinal, em 2021, abri a caixa de novo e me deparei com o disco. Seguia lacrado. Nem me lembrava de sua existência. Até o momento em que parei para escrever esta lista, não tinha ouvido sequer uma faixa dele.)
O Oasis perdeu a “batalha do Britpop”, mas ganhou a guerra. Nenhum outro grupo britânico dos anos 1990 atingiu tamanho sucesso e influência. E – assim como aconteceu com o Nirvana, citado pelo Calbuque lá em cima – nem sempre foi positiva. A fixação regressiva dos irmãos Gallagher sepultou de vez o legado progressista do pós-punk e contribuiu para criar uma geração de bandas que, em maior ou menor escala, continuou a reverenciar o passado de forma pouco inspirada. A popularidade do Oasis também ofuscou, injustamente, nomes contemporâneos mais criativos e originais.
Foi bom enquanto durou, né? Reencontrei grandes canções ao ouvir, mais uma vez, toda a discografia da banda. E outras eu encontrei pela primeira vez: os caras sempre tiveram o intrigante costume de lançar ótimas composições em lados-B de singles. Confirmei que a discografia pós-Be Here Now é bem irregular, com alguns poucos momentos de redenção. (A tentativa de Noel de dividir as responsabilidades como compositor com Liam e outros membros definitivamente não funcionou.) E sobretudo, relembrei por que o Oasis foi tão importante para mim e para uma porrada de gente nos anos 1990. A julgar pela comoção causada pelavolta do grupo, continua a ser.
P.S.: não vou ver o Oasis ao vivo em SP. Vi a banda duas vezes e me decepcionei em ambas. Prefiro guardar a lembrança do bom show solo feito por Liam em 2023, com repertório lotado de clássicos do grupo.
P.S. 2: este post é dedicado a Gary “Mani” Mounfield, conterrâneo dos Gallagher e baixista dos grupos Stone Roses e Primal Scream. Mani faleceu na quinta-feira, dia 20/11. Costumo dizer que os Stone Roses foram o “Oasis original”: também vindos de Manchester, também marrentos & ambiciosos e também obcecados com o rock dos anos 1960, eles só não conseguiram chegar ao megaestrelato. Mas deixaram um legado indelével para as gerações posteriores do rock inglês. Não é exagero dizer que sem os Roses, não haveria o Oasis. RIP.
Oasis entre 1994 e 2020
A lista a seguir reúne todas as canções lançadas oficialmente pelo Oasis entre 1994 e 2020, conforme relacionadas no site Oasis.net e na Wikipedia. Consultei também esta lista similar, publicada pelo New Musical Express em 2024. Músicas não lançadas de forma oficial ficaram de fora. Também não incluí canções solo de qualquer integrante da banda, ou gravadas pelo Beady Eye. Quaisquer correções e/ou inclusões serão bem-vindas.
Como todas as outras listas que escrevi, este ranking representa apenas minha opinião pessoal e não pretende ser, de forma alguma, A VERDADE definitiva sobre a obra do Oasis. Sintam-se à vontade para contra-argumentar aí embaixo nos comentários.
143) “A Quick Peep” — Instrumental de 1:17 composto por Andy Bell. Na prática, é apenas um groove não desenvolvido. Há solos de guitarra em Be Here Now mais longos.
142) “Ain’t Got Nothin’” — Contribuição de Liam ao repertório do sétimo álbum. Sua voz soa ainda mais flat e nasal do que de costume. Abaixo do genérico.
141) “All Around the World (Reprise)” — Noel finalizou o repertório de Be Here Now e ainda sentia que faltava alguma coisa. Por que não uma reprise instrumental da melodia de “All Around the World” pra fechar o disco? Com direito a solo de trompetinho roubado de “Penny Lane”?
140) “The Cage” — Um arrastado instrumental blueseiro lançado como “faixa secreta” no CD de Heathen Chemistry.
139) “Heroes” — Totalmente dispensável cover de David Bowie. O vocal de Noel mata a dramaticidade da gravação original.
138) “Merry Xmas Everybody” — Versão acústica do hit de 1973 do Slade. Para uma canção natalina, soa bastante desanimada.
137) “Setting Sun” — Lá pelo meio do primeiro show do Oasis no Brasil, em 1998, a banda saiu do palco e deixou Noel sentado sozinho, violão na mão, para interpretar um curto set acústico. No repertório, lá estava a versão solo do hit lançado pelos Chemical Brothers. A edição deluxe de Be Here Now traz uma versão do auto-cover acústico, gravada para a BBC. Nem se compara à original.
136) “Help!” — Sofrida versão acústica do clássico, gravada ao vivo em Los Angeles e desenterrada na reedição de Be Here Now. Provavelmente tirada do mesmo mini-set solo de Noel naquela turnê.
135) “You’ve Got to Hide Your Love Away” — Possuído pelo espírito de Emmerson Nogueira, Noel assume os vocais neste cover dos Beatles.
134) “Sittin’ Here in Silence (On My Own)” — OK, caras, nós entendemos: vocês estavam ouvindo bastante o Imagine na época em que gravaram essa. Superem, por favor.
133) “Turn Up the Sun” — Noel devia estar distraído quando deixou que Andy Bell enfiasse esta irrelevância na lista final de Don’t Believe the Truth.
132) “Alive” — Uma das composições da primeiríssima safra, sobreviveu em versão demo, no lado-B de “Shakermaker”. Os acordes da coda se assemelham a uma progressão usada por Johnny Marr em “These Things Take Time”, dos Smiths.
131) “The Nature of Reality” — Blues-rock pesadão assinado por Andy Bell. Liam soa como um imitador irônico de si mesmo.
130) “Love Like a Bomb” — Não chega a ser “uma bomba”, mas é bem fraca. Uma rara parceria entre Liam e Gem Archer.
129) “Shout It Out Loud” — Cansativo b-side de 2002. Esticada de propósito com a repetição ad infinitum do refrão.
128) “Flashbax” — Midtempo, semiacústica, Noel nos vocais, letra repetitiva. Como tantas outras que ainda aparecerão nesta lista.
127) “Won’t Let You Down” — Liam tenta se apropriar do estilo das composições acústicas do irmão, com resultado questionável.
126) “Don’t Stop…” — Uma dispensável demo acústica gravada em meados da década de 2000. Tornou-se notável ao surgir como single em 2020, quase 11 anos depois do (primeiro) fim da banda. Noel alega ter encontrado a música por acaso, perdida em um CD-R sem rótulo. Liam gostou nadinha da manobra do irmão.
125) “Take Me Away” — Escondida no lado-B de “Supersonic”, é a “balada acústica pensativa original” do grupo. Outras, bem melhores, viriam.
124) “Angel Child” — Demo cantada por Noel e preservada como lado-B de “D’You Know What I Mean?”. A letra sugere angústia diante do sucesso comercial da banda (“Because I gave all my money to people and things / And the price I’m still playing for the shit that it brings”), dando profundidade a uma melodia pouco memorável.
123) “It’s Better People” — A harmonia acústica se assemelha à de “Wonderwall”. O conjunto da obra não chega perto.
122) “Untitled” — Cogitada para Be Here Now e descartada. Só sobrou uma demo acústica. Nem se deram ao trabalho de pensar num título.
121) “Carry Us All” — Essa poderia ser de qualquer bandinha da segunda divisão do Britpop.
120) “If We Shadows” — Em 1997, o baú de composições de Noel transbordava de baladas acústicas como esta. Ficou esquecida até a reedição deluxe de Be Here Now, em 2016.
119) “Little by Little” — Mais genérica do que uma caixa de dipirona monoidratada Neoquímica.
118) “Hung in a Bad Place” — Além do riff, roubado na cara dura de “No Fun”, dos Stooges, nada mais redime esta faixa.
117) “Bag It Up” — Um dos (vários) rocks maçantes de Dig Out Your Soul.
116) “Magic Pie” — Arrastada e de melodia disforme, dura uns três minutos a mais do que deveria durar.
115) “Street Fighting Man” — Outro cover que pouco acrescenta à versão original.
114) “One Way Road” —Psicodelia forçada e em marcha lenta nesta sobra de Standing in the Shoulder of Giants. A letra surpreende pela pobreza (rimar “rain” com “pain”, àquela altura? Citação gratuita a “Lucy in the Sky with Diamonds”?).
113) “Helter Skelter” — Com Noel no vocal, o grupo não tenta inventar moda ao reler a pauleira beatlesca.
112) “My Generation” —Versão suja do clássico do The Who. Liam se esgoela sem dó. Mesmo em tempo acelerado, dura cerca de um minuto a mais que a gravação original de Townsend & cia.
111) “I Can See a Liar” — Rockão medíocre de Standing in the Shoulder of Giants.
110) “Those Swollen Hand Blues” — Pseudo-psicodelia pseudo-beatlesca. Último lado-B do último single (“Falling Down”) lançado pelo grupo antes da primeira separação.
109) “Idler’s Dream” — Tirante o fato de ser a única gravação do Oasis só com voz & piano, não há outro ponto de interesse nesta baladinha.
108) “To Be Where There’s Life” — Gem Archer busca se apropriar do estilo regressivo sixties de Noel, mas lhe falta energia.
107) “Better Man” — Canção escrita por Liam, na qual ele jura que vai “ser um homem melhor”. Talvez seja um pedido cifrado de desculpas ao irmão, diante dos relatos sobre os problemas causados pelo vocalista nas gravações de Heathen Chemistry.
106) “(As Long as They’ve Got) Cigarettes in Hell” — Psicodelia fake claramente clonada dos Beatles. Indistiguível de qualquer outra composição mediana de Noel.
105) “Boy with the Blues” — A referência aqui era o gospel narcotizado do Spiritualized. Na prática, é mais um número genérico, considerado para inclusão em Don’t Believe the Truth. Não entrou no LP, de acordo com Noel, por causa da ausência de refrão.
104) “Hey, Hey, My, My (Into the Black)” — Nesta gravação ao vivo, a banda subjuga o clássico de Neil Young e o transforma em uma música do Oasis. Se isso é vantagem ou desvantagem, fica a critério do ouvinte…
103) “Cum On Feel the Noize” — O cover do hit do Slade testa os limites de Liam nos tons mais agudos. É claro que eles não resistem a esticar a versão, com uma cantoria coletiva, solos de guitarra e um vozerio aleatório no fim.
102) “Within You Without You” — Convidado a participar de um tributo organizado pela BBC aos 40 anos de Sgt. Peppers, o Oasis escolheu uma das faixas menos óbvias do clássico álbum. Só que o resultado final parece mais um remix de “Tomorrow Never Knows”.
101) “The Swamp Song” — Estridente faixa instrumental aproveitada no single de “Wonderwall”.
100) “Thank You for the Good Times” — Andy Bell tentando reescrever “Some Might Say”.
99) “She Is Love” — Noel disse que levou 30 minutos para compor este singelo número acústico, dedicado à namorada da época (2002). Para quê tanta pressa?
98) “(Probably) All in the Mind” — OK, caras, nós entendemos: vocês estavam ouvindo bastante o Revolver na época em que gravaram essa. Superem, por favor.
97) “Pass Me Down the Wine” — Liam se esforça para escapar da sombra do irmão neste melancólico lado-B de 2005.
96) “Sunday Morning Call” — “Essa música é uma merda. Eu a odeio”. Não sou eu quem está dizendo, é o próprio Noel. Não merece tanto ódio — é apenas outra balada medíocre, no meio de um punhado de outras parecidas.
95) “Soldier On” — “Quem pode dizer / que você estava certo / e eu estava errado”, canta Liam na última faixa do último álbum de estúdio do Oasis. Outra referência à turbulenta relação paterna? A música reforça o tom de despedida, com seu clima letárgico e solene.
94) “The Meaning of Soul” — É menos uma canção e mais um espasmo rocker de 1:42. Antes de um solinho de gaita, Liam proclama, repleto de empáfia: “I’m a different breed and I am outta your league / I’m ten outta ten, alright”.
93) “The Quiet Ones” — Bonitinha e ordinária. O vocal é estridente demais para a leveza da melodia.
92) “Little James” — Primeira composição de Liam a ser gravada pela banda, em 2000. Uma sincera (ainda que previsível) homenagem a James, o filho da atriz Patsy Kensit, primeira esposa do cantor.
91) “Guess God Thinks I’m Abel” — Liam recorre à Bíblia para tratar da relação de ódio & ódio que mantém, até hoje, com o irmão mais velho. Há alguns versos duvidosos —dá pra rimar “rainbow” com “Abel”?! No fim, até que soa honesta. E curtinha, para os padrões da banda.
90) “Eyeball Tickler” — Este lado-B de 2005 imagina o Oasis como uma banda punk regravando uma música (imaginária) da primeira fase dos Stones.
89) “The Fame” — Subproduto das sessões de Be Here Now, exibe os sentimentos conflitantes de Noel diante da fama. O trecho “And you may laugh while you sit there / Sipping your champagne / And they all laugh at your despair / Sniffing your cocaine” sinaliza a exaustão com um estilo de vida que não poderia durar muito mais.
88) “Force of Nature” — Em janeiro de 2001, Noel Gallagher desfez o casamento com Meg Matthews, mãe de sua filha Anaïs. Alguns meses depois, ele apresentaria esta canção para o repertório de Heathen Chemistry. Os versos “For smoking all my stash / And burning all my cash / I bet you knew right away / It’s all over town that / The sun’s going down / On the days of your easy life” logo foram interpretados como recados à ex-mulher. A música? Midtempo, Noel nos vocais, letra repetitiva.
87) “(Get Off Your) High Horse Lady” — OK, caras, nós entendemos: vocês estavam ouvindo bastante o White Album na época em que gravaram essa. Superem, por favor.
86) “My Sister Lover” — As sutis dissonâncias no arranjo ajudam a camuflar um pouco a familiaridade da melodia vocal e da harmonia. O título parece aludir ao Big Star.
85) “Part of the Queue” — Para variar, os caras miram nos Stranglers (“Golden Brown”) no lugar dos Beatles.
84) “You’ve Got the Heart of a Star” — Mesmo com uma melodia ajeitadinha, não se destaca entre os tantos b-sides acústicos semelhantes.
83) “I’m Outta Time” — Balada composta por Liam, que se mostra um competente estudante do estilo de Noel. E do estilo de John Lennon também (cuja voz sampleada aparece aos 3:22).
82) “Sad Song” — A única aparição de Noel como vocalista no LP de estreia. Só foi ouvida em 1994 por quem comprou a versão em vinil. Um raro número 100% acústico, foi interpretada pelo guitarrista porque “Liam nunca conseguiria cantar uma música como esta”.
81) “Songbird” — Classificada por Noel como uma “canção perfeita”, esta foi a primeira composição de Liam a ser lançada como single. Bonitinha; “perfeita” é exagero.
80) “Step Out” — Tão parecida, mas TÃO parecida com “Uptight”, de Stevie Wonder, que Noel precisou dar um crédito de co-autor para o cantor americano.
79) “Waiting for the Rapture” — Esperavam pelo The Rapture? Decepção, pois o resultado lembra mais The Doors (o riff inicial é clonado de “Five to One”).
78) “Strange Thing” — Curiosa mistura de indie dance e classic rock, registrada como demo em 1994 e lançada apenas na reedição tripla de Definitely Maybe (2014).
77) “Where Did It All Go Wrong?” — Outra crônica do desencanto com as falsas amizades atraídas pela fama (“Do you keep the receipts / For the friends that you buy?”). Noel tinha apenas 33 anos quando a canção foi lançada, e já antevia a crise de meia-idade.
76) “A Bell Will Ring” — Decente esforço de Gem Archer, aproveitado em Heathen Chemistry. Perdurava a obsessão com os Beatles fase 1965–66, óbvia no dedilhado de guitarra e na levada de bateria.
75) “Lyla” — O refrãozão populista fez desta canção uma das mais populares da fase final do grupo, especialmente ao vivo. A batida do violão e os versos iniciais soam aparentados aos de “Street Fighting Man”, dos Stones (veja o número 115 desta lista).
74) “Who Feels Love?” — Mais um pastiche psicodélico do quarto álbum, completo com tablas e cítaras sampleadas.
73) “Trip Inside” — Composição minimalista mas interessante, concebida durante as gravações do terceiro álbum. Sobrou em forma de demo, engavetada até a reedição deluxe de 2016. Destoa do bombardeio sônico do resto do repertório.
72) “Round Are Way” — O naipe de metais faz a diferença neste b-side de “Wonderwall”. Já o solinho de gaita é dispensável.
71) “D’Yer Wanna Be a Spaceman?” — Remanescente de 1992, ganhou uma versão acústica para o lado-B de “Shakermaker”. A letra (cantada por Noel) tem uma mensagem simples — nunca é tarde para realizar seus sonhos — , mas conta com imagens espertas.
70) “Fade In-Out” — Mediana composição de Be Here Now que sofre, como todo o resto do disco, de obesidade quase mórbida. A guitarra slide, que confere um ar bluesy à canção, foi tocada por Johnny Depp.
69) “Born on a Different Cloud” — Liam imita Noel imitando John Lennon. Ou seria Paul McCartney? Fica muito repetitiva nos últimos dois minutos.
68) “The Importance of Being Idle” — O foco segue nos anos 1960, só que o alvo dessa vez são os Kinks, e não os Beatles.
67) “Just Getting Over” — Noel pondera sobre amadurecimento e dúvidas existenciais nesta canção mezzo acústica, mezzo ruidosa lançada em 2002. Repare no solinho roubado de “Life on Mars?” (Bowie) ao final.
66) “I Believe in All” — Esta saiu apenas na edição japonesa de Dig Out Your Soul. O pique nervoso da banda compensa a letra besta, escrita por Liam.
65) “Be Here Now” — Para compor a faixa-título do terceiro LP, Noel basicamente desacelerou a melodia principal de “Rock’n’Roll Star”, enfiou um assobio maroto e meteu uma citação aos Beatles na letra. Como quase todas as outras faixas do disco, soa esticada demais.
64) “Keep the Dream Alive” — Essa poderia passar fácil por uma criação de Noel, mas é assinada por Andy Bell. O vocal soa um tiquinho forçado além da conta.
63) “Headshrinker” — Um riffão rollingstoniano precede uma das faixas mais punks da safra 1995. Liam capricha na agressividade.
62) “Full On” — Não se desvia da fórmula dos rockões típicos de Noel, mas soa adequadamente ameaçadora.
61) “Who Put the Weight of the World on My Shoulders?” — Número semiacústico padrão, valorizado por um belo arranjo de cordas. Lançado na trilha sonora do filme Gol! — O Sonho Impossível.
60) “The Turning” — Um achado tardio, composto por Liam para o último álbum do grupo. Como de costume, a performance enfática compensa a sensação de déjà vu sonoro (déjà ouvi?) causada pela harmonia.
59) “Cast no Shadow” — Inspirada no Pink Floyd, esta balada de 1995 também se aproxima dos Stones safra Let It Bleed (violões, slide etc.). A letra, dedicada ao amigo Richard Ashcroft, já foi descrita por Noel como “alguns dos melhores versos que já escrevi”.
58) “Cloudburst” — Bem característica da fase inicial, tem um groove energético e uma performance vocal assertiva.
57) “All Around the World” — Quando a crítica se refere à “estética do excesso” em Be Here Now, a principal culpada para mim é esta canção. Subidas de tom, longas seções de “na-na-na-nanana”, arranjo orquestral, tudo se empilhando em um inchaço paquidérmico de 9:20. (E olha que a versão original concebida por Noel chegaria aos 12 minutos.) No fim das contas, é literalmente muito barulho por quase nada, a duração e os adornos sonoros mal disfarçam o caráter básico da composição. Sobra ambição, falta estofo.
56) “I Am the Walrus” — Vale a pena conferir esta versão ao vivo, pela coragem que tiveram em recriar o clássico beatle e pelo vocal de Liam, então no auge de sua petulância juvenil.
55) “Roll it Over” — O grandiloquente desfecho do quarto álbum, mesclando psicodelia chapada (no som) e depressão e isolamento (na letra). Noel nunca será David Gilmour, mas se esforça para criar um épico solo pinkfloydiano.
54) “Bring It on Down” — Momento quase punk do álbum de estreia. Chegou a ser cogitada, imaginem, como primeira faixa de trabalho do disco, no lugar de “Supersonic”. Se bobear, é a mais dispensável do LP.
53) “Put Yer Money Where Yer Mouth Is” — Standing in the Shoulder of Giants é o “álbum contemporâneo” do Oasis, e esta é uma de suas faixas mais distintas. Nem parece criação de um grupo obcecado pelos anos 60 e 70.
52) “Mucky Fingers” — A batida incessante e o pianinho de uma nota só remetem a “I’m Waiting for the Man”, do Velvet Underground. Só que a melodia é mais festiva, o pique é mais animado e ainda há uma gaitinha dylanesca no fim para ajudar na diferenciação.
51) “Lord Don’t Slow me Down” — O parentesco com “The Jean Genie” (Bowie) é indisfarçável. A versão oficial cantada por Noel é decente; há um take alternativo superior com Liam ao microfone.
50) “The Masterplan” — Consta que Noel se arrependeu de ter lançado esta balada como lado-B de “Wonderwall”, em vez de transforma-la em um single. Chama a atenção o arranjo exuberante, com metais, violas e violinos.
49) “Listen Up” — O comecinho é obviamente reciclado de “Supersonic”. Mas — ainda bem — não fica só nisso. O refrão é bacana, assim como a esforçada performance vocal. Só não precisava chegar quase aos sete minutos de duração.
48) “(It’s Good) To Be Free” — Um lado-B de qualidade, lançado em 1994 no single de “Whatever”.
47) “(I Got) The Fever” — Outro inspirado b-side, este de 1997. O refrão caprichado faz a diferença.
46) “Let There Be Love” — É cansativo invocar os Beatles com tanta frequência… só que às vezes não há alternativa. Os dois irmãos alternam-se aos vocais; ambos soam muito bem, em um dueto delicado.
45) “D’You Know What I Mean?” — É necessário reconhecer: os caras tiveram peito de lançar uma música de quase 8 minutos como primeiro single de Be Here Now. De um certo modo, sintetiza o que há de bom (a ambição) e de ruim (o exagero, a familiaridade repetitiva) no álbum.
44) “Hey Now!” — Um refrão legal salva esta da vala comum. Se guardassem para um lado-B, poucos iriam se incomodar.
43) “Going Nowhere” — Esta também é midtempo, semiacústica, Noel nos vocais, letra repetitiva. No entanto, destaca-se pelo arranjo de sopros (mais um aceno a Burt Bacharach) e pelo discreto naipe de cordas.
42) “Go Let it Out” — De acordo com Noel, “é o mais perto que o Oasis chegou de soar como uma versão moderna dos Beatles”. A aura lisérgica é remanescente dos Fab Four (há um mellotron bem parecido com o de “Strawberry Fields”). Loops, samples e até scratches compõem a porção moderna do arranjo.
41) “The Shock of the Lightning” — A ideia aqui era buscar inspiração no krautrock (vide o número 32 desta lista) e a influência do ritmo motorik ficou bem evidente mesmo. Descontando, claro, a enésima citação aos Beatles (“Love is a litany… a magical mystery”) e o solo de bateria copiado de “The End” dos… Beatles.
40) “Gas Panic!” — Um ataque de pânico durante uma rebordosa de cocaína inspirou este número lançado em 2000. O som viajandão (baixão sub-grave, efeitos psicodélicos e até uma flautinha hippie no final) evoca outro tipo de droga.
39) “Falling Down” — A batida chupada de “Tomorrow Never Knows” e o mellotron dão um ar psicodélico ao arranjo, além de ressaltar a interpretação sutil de Noel aos vocais. Há um interessante remix dub-hindu-eletrônico-lisérgico de 22 minutos (!), co-assinado pelo duo Amorphous Androgynous.
38) “Whatever” — O single lançado no Natal de 1994 mostrava como a banda evoluía a passos rápidos depois de Definitely Maybe — arriscando arranjos mais elaborados e alternâncias de climas. A mania de r̶o̶u̶b̶a̶r̶ citar versos e melodias obrigou Noel a incluir o nome de Neil Innes, dos Rutles, como co-autor.
37) “Digsy’s Dinner” — Oasis em sua faceta mais irônica e ruidosa. Ninguém conseguiria cantar “for my lasaaaaaaaaaagna” com a petulância do jovem Liam. A letra pode ser entendida como uma prequel do casamento em crise de “Married with Children”, que fecha o primeiro álbum.
36) “Columbia” — Datada de 1991, é uma das primeiras composições de Noel e, de acordo com o NME, foi a música de abertura do primeiro show da banda. Tem uma batida quase indie dance; a longa coda instrumental poderia ser um pouco mais variada… ou mais curta.
35) “Stand By Me” — Aqui, o que falta de originalidade sobra em sinceridade. Tirando, claro, a cara de pau de copiar o título do clássico r’n’b de 1958 (regravado por… John Lennon). Comparada com o resto do terceiro disco, soa até contida.
34) “Underneath the Sky” — Oculta no lado-B de “Don’t Look Back in Anger”, é outra faixa “menor” que poderia ter sido aproveitada em algum álbum. Parcialmente redimida por ter sido incluída na coletânea The Masterplan.
33) “Talk Tonight” — Outra exemplar composição acústica de Noel, aparentada a “Wonderwall” e/ou “Cast no Shadow”. Tornou-se célebre por sua historinha de bastidor: foi composta por Noel em 1995, após um desastroso show em San Francisco, inspirada por uma garota local. Anos depois, o guitarrista admitiria ter esquecido completamente do nome e da aparência da moça. Que cavalheiresco!
32) “Can Y’See It Now? (I Can See It Now!!)” — Surpreendente sobra da época de Don’t Believe the Truth que acabou aparecendo só na versão japonesa do álbum… e em uma coletânea de canções inspiradas pela banda alemã Neu! É um número quase instrumental com um riffão pesado e circular; mais para psicodelia do que para krautrock, mas funciona.
31) “Rocking Chair” — Outro b-side caprichado da fase …Morning Glory. O entrelaçamento de violão e guitarra, junto à melodia grudenta, evocam um certo clima à la The Smiths.
30) “Bonehead’s Bank Holiday” — Engraçadinha canção de 1995 concebida para ser o “momento Ringo” de Bonehead no segundo álbum da banda. Mas o guitarrista ficou nervoso demais durante as gravações, encheu a cara e o vocal sobrou para Noel mesmo. Nos anos pré-streaming, era uma raridade, pois só foi lançada na versão original em vinil de …Morning Glory.
29) “Let’s All Make Believe” — Um lado-B que supera o A (“Go Let it Out”). A letra pode retratar a espinhosa convivência entre os Gallagher (“Vamos todos fingir que ainda somos amigos e gostamos uns dos outros”). Ótima interpretação de Liam.
28) “The Hindu Times” — Digno cartão de visitas para Heathen Chemistry. A letra nem passa perto da Índia, então para justificar o título meteram uns efeitos na guitarra, emulando uma cítara. Poderia ficar numa posição mais alta, não fosse tão similar a outros singles da banda.
27) “The Girl in the Dirty Shirt” — Uma melodia acima da média e um arranjo enxuto tornam esta canção uma das mais agradáveis de Be Here Now. A “garota da camisa suja” é Meg Matthews, inspiração confirmada pelo próprio Noel.
26) “Half the World Away” — Nesta aqui, o cleptomaniaco compulsivo Noel se superou. Harmonia roubada de “This Guy’s In Love With You”; na letra, um verso que seria usado em “Setting Sun” (parceria com os Chemical Brothers); e o título é de uma música do R.E.M. Tudo costurado com habilidade e delicadeza, gerando um dos b-sides mais apreciados pelos fãs.
25) “My Big Mouth” — Energética composição de 1997 que quase sucumbe à megalomania sônica de Be Here Now. Em retrospecto, os versos “It was a sound so very loud / But no one can hear” parecem descrever a própria canção: a muralha de guitarras se transforma em uma névoa indistinta, competindo com os vocais pela atenção do ouvinte.
24) “Shakermaker” — Lisergia de araque e uma multiplicidade de citações (Beatles, The Jam, Cockney Rebel) no segundo single extraído de Definitely Maybe. A melodia foi roubada de um jingle da Coca-Cola; a empresa processou a banda e a Creation morreu em US$ 500 mil ao perder a causa.
23) “Up in the Sky” — Liam soa bem petulante (e afinado, até nas notas mais altas) aqui. A performance reforça a letra, que é dirigida a figurões poderosos que perderam o contato com a realidade — a galera “alta no céu, aprendendo a voar”. O hipnótico riff principal dá um caráter levemente psicodélico à gravação.
22) “Wonderwall” — Nada menos que a “Starway to Heaven” do Britpop. É o maior hit da banda (segunda canção da década de 1990 mais tocada no Spotify, só perde para “Smells Like Teen Spirit”), mas nem de longe é seu single mais inspirado. Consagrada instantaneamente, acabou condenando Noel e Liam a tentar repetir seu formato nos anos seguintes, nem sempre com sucesso.
21) “Stay Young” — Mais um b-side que supera a faixa em destaque (no caso, “D’You Know What I Mean?”). Uma melodia muito redonda ancorada em uma harmonia manjada, mas bastante eficaz. Era para ter entrado no terceiro álbum e foi preterida pela inferior “Magic Pie”.
20) “She’s Electric” — Beatlesca no limite da caricatura, mesmo assim retém seu charme. A letra é um tanto incomum na obra do grupo, com seu caráter narrativo e bem-humorado.
19) “Fade Away” — Um dos lados-B mais populares da discografia, não ficaria deslocada no repertório do primeiro álbum. Parece muito com pelo menos uma meia dúzia de canções daquela fase e ainda assim tem uma energia própria. A versão acústica, mais relaxadona, também é bacana.
18) “Don’t Go Away” — Raridade neste catálogo: uma canção romântica que soa genuinamente sincera, mais do que qualquer outra tentativa de Noel de reescrever “Wonderwall” pela 10ª vez. A ponte pós-refrão (“Me and you, what’s going on?”) ainda emociona, assim como o naipe de metais de tom sombrio.
17) “Married with Children” — A canção de encerramento de Definitely Maybe funciona como um digestivo acústico, rebatendo as guitarras altas e os refrãos tonitruantes do resto do álbum. A letra sarcástica pinta um retrato pouco positivo da vida a dois; no fim, admite a inevitável acomodação (“And it will be nice to be alone / For a week or two / But I know then I will be right / Right back here with you, with you”).
16) “Roll With It” — O single que a banda escalou para a “batalha do Britpop”, contra “Country House”, do Blur… e o Blur ganhou, apesar da canção obviamente inferior. Só que no fim da guerra, (What’s the Story) Morning Glory venceu The Great Escape, o álbum do Blur, de lavada. Tido como o mais fraco dos seis (!) singles tirados do segundo LP, “Roll With It” ainda hoje é diversão garantida.
15) “Stop Crying Your Heart Out” — A power ballad definitiva desta lista, a um só tempo terna e grandiloquente (vide o arranjo orquestral). Representa o retorno às letras “motivacionais” dos primeiros anos, exortando o ouvinte a segurar a barra e seguir em frente, sem se desmanchar em lágrimas.
14) “Morning Glory” — A quase faixa-título do segundo álbum é um dos destaques do LP. Liam transborda de convicção, quase cuspindo um dos melhores refrãos daquela fase. Os versos iniciais (“All your dreams are made / When you’re chained to the mirror and the razor blade”) aludem, claro, à cocaína. Talvez dali viesse o excesso de convicção…
13) “Hello” — A poderosa faixa de abertura do segundo disco concentra todas as virtudes da banda, dispensando os vícios. Por mais manjadas que soem melodia e harmonia, a contundência da performance compensa. Gary Glitter é creditado como co-autor da canção, apenas pelo uso da frase “Hello, hello, I’m back again”, chupada de um hit de 1973.
12) “I Hope, I Think, I Know” — Uma das mais queridas de Be Here Now. Liam consegue sobrepujar a massa de guitarras e registra o melhor vocal do álbum. Sempre achei que seria uma música perfeita para o Dinosaur Jr. regravar — imagina um solão do J Mascis logo antes do último refrão?
11) “Acquiesce” — O melhor lado-B desta lista? A rigor, seria isso. Editada originalmente no single de “Some Might Say”, foi “promovida” a lado-A em 1998, para divulgar a coletânea The Masterplan. Noel a escreveu durante uma viagem de trem; até hoje, jura que o refrão “Because we need each other / We believe in one another / And I know we’re going to uncover / What’s sleepin’ in our soul” não se refere à sua relação com o irmão. Ficou de fora do segundo álbum, mas é um dos momentos mais inspirados daquela fase.
10) “Champagne Supernova” — Guardada para o encerramento de …Morning Glory, esta faixa de sete minutos e meio já prenunciava a ambição e os excessos de Be Here Now. Só que aqui a duração esticada e as camadas instrumentais parecem justificadas, nada gratuitas. Formalmente simples, torna-se evocativa e grandiosa. Ainda que o próprio Noel não consiga explicar direito o significado da letra, o verso “Where were you while we were getting high?” resume à perfeição o hedonismo juvenil que sempre será a marca registrada da banda.
9) “Rock ’n’ Roll Star” — “Eu disse tudo que tinha para dizer em três músicas: ‘Rock’n’Roll Star’, ‘Live Forever’ e ‘Cigarettes and Alcohol’, afirmou Noel em 2014. Esta aqui é a porção glamourosa da “ideologia” da banda, sem medo de abraçar todos os clichês possíveis. O pé-na-porta de Definitely Maybe é a um só tempo a trilha sonora do sonho juvenil dos Gallagher e a própria concretização desse sonho. P.S.: ninguém canta suuuuuun-shiaaaayne como Liam.
8) “It’s Gettin’ Better (Man!!)” — Aqui sim, todo o excesso de Be Here Now se justifica (quase) por inteiro. O exagero sônico, a encheção de linguiça no meio e a duração inflada até que ornam bem com o refrão, um dos mais empolgantes da banda. É a única do disco na qual a repetição infinita não chega a encher o saco.
7) “Supersonic” — O single de estreia foi composto e gravado em um único dia. A primeira versão com a banda toda ficou tão boa, que nunca foi refeita; ou seja, uma demo acabou virando hit transatlântico. Isso prova que, em 1993–94, Noel & a turma nem precisavam se esforçar para criar um clássico instantâneo. O verso crucial é “I need to me myself / I can’t be no one else”, que resume a assertividade do grupo. (A ironia é que o Oasis se tornaria conhecido por tentar imitar Deus & o mundo, descaradamente ou não.)
6) “Don’t Look Back in Anger” — A primeira real oportunidade de Noel como frontman. Claro que ele sabia do potencial da canção, tornada a peça central de …Morning Glory, e fez questão de guardá-la para si. As referências beatlescas chegam quase ao ponto do pastiche, a partir da intro roubada de “Imagine”; jogue duas pitadas de Bowie (“All the Young Dudes” e “Look Back in Anger”) para um tiquinho de acidez, e… temos um legítimo blockbuster do Britpop.
5) “Fuckin’ in the Bushes” — O trunfo de Standing in the Shoulder of Giants e uma das mais ousadas criações da banda. Noel deitou o riff mais contundente deste ranking sobre samples de um documentário sobre o festival da Ilha de Wight (1970) e loops de bateria em cascata. O resultado é sujo, caótico e impressionantemente moderno para um grupo tão apegado ao tradicionalismo. Foi usada como trilha da sequência mais memorável de um dos filmes mais memoráveis do século XXI.
4) “Cigarettes & Alcohol” — “Uma das maiores declarações sociais dos últimos 25 anos”, exagerou Alan McGee ao elogiar esta canção. Seria exagero mesmo? O quarto single extraído de Definitely Maybe pode ser considerado uma eufórica releitura da mensagem de “God Save the Queen”, dos Sex Pistols. Só que Liam & Noel sequer se importam com a ausência de um futuro; mesmo diante da falta de perspectivas, descartam o niilismo e celebram o presente com cigarros e goró. 50% punk, 50% glam (o riff principal é claramente roubado de Marc Bolan), 100% Oasis — é a criação arquetípica da primeira fase do grupo.
3) “Slide Away” — Escondida quase no fim do primeiro disco, é a prova do poder de fogo do grupo em 1994. Seria um single óbvio para qualquer outro artista; Noel recusou-se a lança-la em compacto, com um argumento até razoável (“Não se pode lançar cinco singles de um mesmo álbum”). É uma canção de amor dedicada a Louise, namorada de Noel na época. A vulnerabilidade exposta na letra complementa/contrasta com a potência da performance instrumental. E, acima de tudo, com o contundente vocal de Liam.
2) “Some Might Say” — A esfuziante faixa de trabalho de (What’s the Story) Morning Glory foi também o primeiro single da banda a chegar ao número 1 da parada britânica. Tem o melhor refrão de toda esta lista. A letra junta filosofia de boteco e nonsense, mas tem achados sensacionais (“Some might say that sunshine follows thunder / Go and tell it to the man who cannot shine”). Liam brilha, as guitarras trovejam. Ou seja, tudo o que se pode esperar de uma grande canção do Oasis.
1) “Live Forever” — Sem esta música, a presente lista não existiria. Foi a canção que fez Alan McGee contratar o Oasis para o cast da Creation. O chefão disse sobre a primeira vez que ouviu a música: “Provavelmente foi o maior momento que vivi com a banda”. Pense na ambição (um dos traços definidores dos irmãos Gallagher) necessária para bradar, com de forma convicta: “Nós vamos viver para sempre”… e logo no disco de estreia! Uma literal declaração do propósito do grupo, composta em contraponto à atitude depressiva e suicida de Kurt Cobain; o disco de estreia sairia apenas quatro meses depois da morte do líder do Nirvana. Reverente ao passado, sintonizada com seu tempo, a maior criação de Noel transcendeu o Britpop e ganhou ar de eternidade com o passar das décadas.

















