Com edição original de Rose Marie Muraro, Patrona do Feminismo Brasileiro, livro chega às livrarias no ano de seu 90o aniversário. Um compêndio da misoginia e da violência que perseguiu mulheres por séculos e moldou a sociedade patriarcal em que vivemos hoje, O Martelo das Feiticeiras, de 1486, é o mais célebre manual de caça às bruxas da Inquisição.

“O Malleus Maleficarum, por ser a continuação popular do segundo capitulo do Genesis, torna-se a testemunha mais importante da estrutura do patriarcado e de como essa estrutura funciona concretamente sobre a repressão da mulher e do prazer” – Rose Marie Muraro, Patrona do Feminismo Brasileiro

“Publicado em 1486, o livro Malleus maleficarum, escrito pelos inquisidores papais alemães Heinrich Kramer e James Sprenger, foi um eficaz instrumento nos tribunais para consolidar a crença de que uma grande conspiração arquitetada por Satã e suas seguidoras, as bruxas, tomava conta do mundo.” – Superinteressante

O Martelo das Feiticeiras

Malleus Maleficarum
Kramer, Heinrich; Sprenger, James
Tradução: Paulo Fróes
700 pág. | R$ 94,90
Rosa dos Tempos | Grupo Editorial Record

Como identificar bruxas? Como caçar bruxas? Como agem as bruxas? Essas são as questões centrais respondidas pelo Malleus Maleficarum, escrito pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger, que atribuem às mulheres a prática da bruxaria por meio da “cópula com o demônio”, dentre outras afirmações fantasiosas. Num reforço simbólico de mitos, centralmente o mito cristão, este tratado ratifica a fundação de uma sociedade centrada no controle dos corpos por meio da sexualidade e da perpetuação do patriarcado capitalista.

A importância da publicação deste livro, neste momento de efervescência cultural e política do pensamento feminista no Brasil e no mundo, e sua consequente repressão ideológica, não se basta tão somente para compreensão do que vivemos ou de fortalecimento dos discursos, senão estende-se à reafirmação da História, tal como ela é, resgatando movimentos atemporais, como o feminismo histórico e o debate do “sagrado feminino” em contraponto à caça às bruxas que reacende fogueiras ainda hoje, no século XXI.

Por isso, para além da obra em si, são fundamentais os dois textos originais que antecedem os escritos medievais dos inquisidores que escreveram o Malleus: a Breve Introdução Histórica, escrita por Rose Marie Muraro, a editora original da publicação, que não só contemporiza o livro para explica-lo em sua importância histórica e referencial para os estudos feministas, bem como nos introduz a todo um estudo do papel da mulher e do feminino na formação da civilização, passando por entendimentos antropológicos e sociais dos povos primitivos aos nossos dias ou, como diz, às “bruxas do século XX”.

O segundo texto é o Prefácio do psiquiatra e psicanalista junguiano Carlos Amadey Byington, trinta páginas de uma análise historiográfica, de grandes símbolos, signos e arquétipos que permeiam o cristianismo desde antes de sua fundação, seus domínios e sua presença contemporânea, em um texto rico em referencias junguianas que ajudam a entender os três volumes seguintes de um passado tenebroso de perseguição e condenação baseada em fantasias de ordem patológica de seus autores e dos delírios de poder daqueles que tentavam controlar os povos expiando as mulheres por séculos a fio em razão de manter a ordem, o poder e o controle.

O resultado da perseguição cristã às mulheres, para além da transformação social, é de uma violência brutal. Os números assustam. Em seu texto de abertura, a editora da primeira publicação de “O Martelo das Feiticeiras” no Brasil, também pela Rosa dos Tempos, Rose Marie Muraro cita Deirdre English e Barbara Ehrenreich (Witches, Nurses and Midwives: A History of Women Healers, 1973) com as estatísticas da extensão da caça às bruxas: “No fim do século XV e no começo do século XVI, houve mulheres de execuções na Alemanha e na Itália. A partir do século XVI, o terror se espalhou por toda a Europa. Um escritor estimou o número de execução em seiscentas por ano para certas cidades. (…) Em Toulouse, quatrocentas foram assassinadas num único dia. Muitos escritores estimaram um total de mulheres executadas à casa dos milhões”, destaca.

Rose escreveu ao fim século passado que “a mulher jovem liberta-se porque o controle da sexualidade e a reclusão ao domínio privado formam também os dois pilares da opressão feminina”, na expectativa de que a experiência que viviam as mulheres de sua geração, a publicação do livro como um exemplo, sendo ela um símbolo da luta e a da produção intelectual feminista do Brasil, sem preceder que na segunda década do século seguinte, o Brasil experimentaria retrocesso sem precedentes, pois destruidor de todo o “iluminismo” pós Ditadura Militar experimentado por sua geração.

“Creio que com isso as nossas bruxinhas da Idade Média podem se considerar vingadas!”, finalizou em sua introdução. Em sua homenagem e com essa esperança, a Rosa dos Tempos reedita O Martelo das Feiticeiras no ano em que ela completaria 90 anos.

Anterior Agenda cultural da Dolce Far Niente de 22 a 27 de setembro
Próximo LIPE lança música "Sua Essência", em apoio ao combate ao suicídio