Ela foi levada por uma cobra gigante! É assim que Lina relata a Baltazar Malasartes o sumiço de sua namorada, Sara, e nos captura para seguirmos, juntos, as 128 páginas da HQ O legado do mal azar, de Augusto Figliaggi.

Vencedor do ProAC (Programa de Apoio à Cultura) voltado a projetos de criação e publicação de histórias em quadrinhos no Estado de São Paulo, a HQ é publicada pela Editora Lura, que já tem em seu histórico vasta coleção de obras sobre causos de assombração tupiniquins e também uma linha em que o folclore é revisitado.

Na obra, Lina e Baltazar, protagonista e coprotagonista, estão na cidade de São Paulo. A São Paulo de hoje. E poderiam ser facilmente encontrados no centro entre decadentes seres encantados, cantoras com poderes mágicos e corpos amaldiçoados. A antagonista da HQ é a Maria Caninana. No folclore, ela é uma cobra, filha de um boto com uma índia. Por causa de suas perversidades, ela acaba sendo morta por seu irmão. Em O legado do mal azar, Caninana é revisitada, levanta a bandeira do extermínio e ganha um discurso extremista e autoritário, frequente nos dias atuais.

É com causos e cantigas que as referências no folclore brasileiro são ressignificadas por Augusto. “Durante a leitura, encontramos um mundo onde sobrenatural e natural se fundem, passado e presente se mesclam, polos opostos se unem e vidas se resignam ao destino”, anuncia o autor.

Seguindo com o artista em sua narrativa, podemos fechar as portas para o conservadorismo e para a descrença e olhar para brechas para enxergarmos novas saídas e universos para a existência. O folclore aqui nos faz acreditar de novo na utopia, independentemente da idade ou de quantas guerras nosso corpo já enfrentou.

Para isso, Augusto nos chama para dialogar, com potência e serenidade, em uma obra que fala de alteridade, de ver e enxergar outra pessoa e da tentativa de se colocar no lugar do outro. “Em nossa atual polarização, criei a obra também para acreditar com quem a lê de que duas pessoas bem diferentes podem conviver juntas e ainda se ajudar. O Baltazar é um cara de 50 e tantos anos, branco, hétero e tem um jeito tradicional em sua forma de dialogar e viver. E a Lina é jovem, negra e lésbica. Na relação entre os dois, suas lutas, sejam elas internas ou públicas, se manifestam”, relata Augusto.

A obra atualiza o folclore tal como nossa sociedade foi transformada. Curioso lembrar que quando o folclore era intensamente vivo em nosso país, o Brasil era muito rural. “Nos anos 1970 e 1980 tivemos o êxodo rural para as cidades, e, com isso, as pessoas também mudaram. Minha vontade era de transformar essas personagens folclóricas em pessoas como nós e colocar nossas questões da contemporaneidade pertencendo a narrativa delas”, comemora o autor.

Ele também lembra-se de que historicamente o pequeno produtor do campo e o trabalhador da periferia, que, em comum, foram para o centro da cidade à procura da sobrevivência, acabam tragados por um sistema excludente. Com as personagens folclóricas não foi diferente, o saci não tem mais onde viver, já que a expansão das cidades engoliu o terreno rural no Brasil.

Além de sua extensa pesquisa sobre folclore brasileiro, Augusto também traz para inspirar sua rede de criação nomes como o de Lourenço Mutarelli, Fábio Moon e Gabriel Bá, junto com clássicos de Dostoiévski, com destaque para Crime e castigo.

Ficha técnica

O legado do mal azar, 128 páginas, 1.000l exemplares, R$ 35
Roteiro e arte: Augusto Figliaggi
Pesquisa: Augusto Figliaggi e Elaine Guarani
Revisão e consultoria contextual: Cristian Cobra dos Santos
Assessoria de imprensa: Carolina Santaella
Editora: Lura Editorial

Sobre o autor

Augusto Figliaggi é pai do Lucas e da Malu e companheiro de vida de Elaine Guarani, com quem também criou a Cia. Arte Negus. Adotou por alguns dias uma lagarta de estimação, chamada Abelardo, que foi embora por vontade própria quando virou borboleta. Acredita na arte como ferramenta de transformação social, tem formação em Artes Visuais pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso). Em sua trajetória, destacam-se entre entrelaçamentos e redes de criação a contação de histórias, a ilustração, a dramaturgia e o roteiro. O legado do mal azar é sua quarta obra. Antes vieram Paiaguá: donos do rio, Morto vivo e O pequeno livro amarelo.

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