O Feitiço, o Mineiro e …….


A 1ª semana de abril, desde 2015, é sempre marcante para mim, pois é o mês de um evento pelo qual trabalho 10 meses, o Prêmio Profissionais da Música, que em 2017 está indo para sua terceira edição. Ao mesmo tempo celebramos o aniversário de um dos meus maiores apoiadores, que infelizmente não está mais aqui conosco, presencialmente, mas seu legado segue mais vivo do que nunca e continua nos iluminando.

Jorge Ferreira faz tanta falta que, para mim, e, tenho certeza, para muitos, é inevitável, não lembrar, comparar ou associar coisas que aconteceram semana passada, em especial, no que se refere à vida noturna, sejam elas nos setores cultural + boêmio = social. Na coluna de hoje, reflitam comigo: a cara do negócio é a cara do dono? Minha resposta é: certamente. Percebam:

Em abril de 1991, a convite da gerente Rosana, fui conhecer o Feitiço Mineiro e, quem sabe, amarrar uma apresentação do Oficina Blues. Entre os integrantes da banda naquela época, cabia a mim e ao Remy, juntos ou separados, negociar com contratantes. Se não me engano, os integrantes não botavam muita fé em uma apresentação nossa naquele templo da culinária mineira. E, ainda por cima, sem tradição como ponto de música. Porém, como diria Lulu Santos “vamos nos permitir”. E lá fui eu, levando a descrença da banda de um lado, e minha necessidade de outro, afinal, àquela época vivia, exclusivamente, dos rendimentos das baquetas.

Ao chegar, fui apresentado a Jorge. Divertidamente, um carioca marrento x um mineiro autêntico, acordaram, rapidamente, as bases de apenas uma apresentação, pois sinceramente, tenho que confessar que na minha intolerância pós-adolescente, não via a possibilidade de irmos longe ali, misturando blues elétrico com pururuca, num local sem um palco, som e estimativa de cachê apresentados contratualmente, porém, acordadas “no fio do bigode” durante a aproximação e naquele clima: “confia em mim, eu confio em você” e tudo vai dar certo.

Porém, o Jorge via futuro, e graças à sua previsão antecipada, ficamos ali quase um ano, sempre às sextas-feiras, animadas, lotadas e que ajudaram a popularizar nossa banda, colaborando para colocar o Feitiço no mapa da música noturna da cidade. Um bom bocado dessa riqueza artística foi fartamente exibido e cantado em homenagem ao amigo, na última terça, 4 de abril. Naquele palco que se faz grande, justamente por estar no mesmo nível da plateia, cantou-se a saudade que Jorge faz sentir em todos nós que vimos essa história acontecer.

Em abril de 2017, por indicação de um amigo, eu e meus dois colegas de encruzilhadas, Haroldinho e Bemol, quais sejam, a formação original do Oficina Blues, fomos parar na inauguração de um novo local para música ao vivo. Novamente, lá estava eu a negociar. Porém, percebam as diferenças na construção de um ambiente…

1 até o momento, não conheci o dono, pois segundo o gerente “o dono nem vem aqui”,
2 quem me recebeu, não sabe o que é blues, pois, nos divulgou como pop rock. Antes de saber quem éramos, queria saber se levaríamos público, já que disseram para ele que eu sou o GRV. E?
3 não tinha som montado e muito menos um operador, sob o argumento, que agora é assim em Brasília. Ou seja, os músicos montam, ligam, desligam e desmontam o som, para poderem ser músicos. Acontece que não sei a diferença dos 110 para os 220 volts, e aí perguntei: como posso montar o seu som? E se queimar, a culpa será de quem?

Fato é que deu-se um jeito, e ao final da apresentação, surpreendentemente, muito aplaudida pela plateia que foi curtir Skank, Jota Quest e Anitta e se deparou com Muddy Waters, Robert Johnson e Steve Ray, perguntei a especialidade da casa, para aquela larica pós show. A resposta foi “hambúrguer com batata rústica”. Eis que chega, uma batata fria ao invés de rústica e um hambúrguer com tantos molhos que até agora não sei o que comi.

Influenciado pela situação anterior, fui perguntar: “quem monta seus hamburguers e batatas rústicas? Como o gerente até agora não entendeu “o papo de boteco”, peguei nosso cachê, pago rigorosamente em dia, nos despedimos com a certeza que nunca mais nos veremos, pelo menos nessa relação contratante x contratado. Ao sair me lembrei da situação descrita acima com o camarada Jorge, do cheiro do mexido que comíamos ao final das apresentações e daquela sensação nostálgica que só os donos que vivem do que dominam e gostam sabem proporcionar. Sabem o que é? O prazer de enfeitiçar, como diria o mineiro de Cruzília “com os aromas, cores e sabores” que saem do coração do dono para a felicidade do mundo.

Saudade dos que tinham prazer pelo inesperado esperado. Salve Jorge.

Musicalmente,
Gustavo Vasconcellos

Anterior Especial Aniversário de Brasília
Próximo