ADOLESCENTES NO PALCO. E AÍ?


Em cartaz em Brasília no mês de maio, a peça “Não conta pros meus pais” tem o elenco composto por atores de 11 a 17 anos. O que esperar dessa trupe no palco?

Quem trabalha com produção teatral voltada ao público infanto-juvenil em Brasília tem sempre dois caminhos a seguir: contratar atores adultos que interpretem peças com conceito infantil ou contratar atores que correspondam às idades de suas personagens. Não há método certo ou errado em se tratando de construção cênica. As duas possibilidades são válidas, porém, na crítica de hoje, vamos falar da coragem de diretores e diretoras em colocar no palco adolescentes de verdade.

A peça “Não conta pros meus pais” esteve em cartaz no Teatro Goldoni, tradicional casa teatral de Brasília, e foi inspirada no texto original da peça inglesa “Brainstorm”, criada juntamente com a neurocientista Sarah-Jayne Blakemore, responsável pelo famoso TED Talk “O misterioso funcionamento do cérebro adolescente”. Na versão brasiliense, a direção da obra esteve a cargo da diretora Renata Bittencourt e da assistente de direção Luiza Hesket , ambas da Trupe Trabalhe Essa Ideia. A Trupe é uma das mais atuantes no quesito de interpretação para crianças e adolescentes e desenvolve, cursos, colônias de férias, montagens de espetáculos e atividades recreativas para o público jovem.

VAMOS FALAR DA PEÇA…

A adolescência é naturalmente um turbilhão de contradições, transformações e variações de humor. Ter no elenco de um espetáculo adolescentes de diferentes idades é um risco grande a se assumir, por uma série de questões… os meninos mudam a voz, as meninas tem perfis mistos em decorrência das transformações do corpo e isso não tem como disfarçar. Ou se assume ou evita-se fazer o trabalho.

Meu primeiro estranhamento positivo ao entrar no teatro foi ver que estava lotado! Lotado de adolescentes, pais de adolescentes ,parentes e conhecidos dos atores. Um público diferente do que tenho visto nas plateias de outras obras na cidade. Quando entramos no teatro, uma espécie de sarau acontece num cenário que reproduz um quarto. Entre músicas no violão, uso de celulares ao vivo com acesso às redes sociais e olhares curiosos dos atores aos amigos e parentes na plateia, somos introduzidos num clima mais leve que permite que embarquemos na brincadeira. É ruim olhar para a plateia para encontrar parentes e amigos? Em outros formatos teatrais, talvez, mas ali não. Ali fazia parte e era bonito até de se ver.

Não conta pros meus pais

A impressão que tenho é a de que a empolgação dos atores reflete a mesma empolgação que um dia eu tive quando fiz minha primeira peça profissional. São atores adolescentes disciplinados, com um bom trabalho vocal, com um bom repertório de improviso e de jogo cômico e, sobretudo, representantes de uma geração que poderá ser aí a protagonista de espetáculos da cidade no futuro. A prova maior disso é a presença da atriz Izabelle Nour, que conheci ainda criança quando atuava no espetáculo “Matilda”, também da Trupe Trabalhe Essa Ideia. Com certeza ela, assim como os colegas, terão potenciais oportunidades no futuro, pois já estão os primeiros passos na profissão muito novos.

A peça fala, prioritariamente, da impressão que os adolescentes têm da figura de seus pais. Existem os pais mais tradicionalistas, mais liberais, mais brigões ou zens e o barato da obra é ver os jovens imitando seus pais, que estão na plateia, e ver a reação dos pais em seguida. Isso gera uma sequência de piadas prontas e cacoetes de texto que nos divertem. Cada ator tem seu momento de protagonismo, sem que pra isso haja a necessidade de destacar intérprete por intérprete – o que poderia deixar a narrativa clichê. Destaque para um sistema tecnológico que a produção criou de projetar numa tela desse quarto cenográfico a janela de Whatsapp de um grupo fechado de adolescentes intitulado “Não conta pros meus pais”, que explica o título e o conceito geral da peça.

Os atores escrevem e comentam ao vivo tudo o que se passa em cena e nós assistimos a tudo isso como se fôssemos pais curiosos querendo saber o que os meninos e meninas dessa idade tanto conversam nas redes sociais. Se a estratégia de projeção da janela de whatsapp é pré-editada ou se é mesmo ao vivo, não importa – o que importa é que embarcamos na brincadeira e isso é bem válido. Eu diria que é uma peça não produzida para o público adolescente e sim para o público de pais dos adolescentes. Obviamente, como pais e filhos vão juntos ao teatro, temos aí uma formação maior de plateia e um programa familiar diferente, sem cair na armadilha do teatro puramente educativo. Calma! Não é problema existir o teatro educativo, mas ver pais e filhos tirando onda uns dos outros ao identificarem situações comuns entre eles , é muito mais divertido.

Uma coisa curiosa que percebi assistindo a peça… Em determinado momento, fiquei me perguntando: Será que essa experiência teatral pra eles é algo temporário? Quem dali será uma médica, um engenheiro, um youtuber, um ator? Essas perguntas vieram até mim pela sensação de que para alguns pais e mães, o teatro é apenas aquele lugar para estimular a criatividade do jovem, ajudar a perder a timidez… mas será que quem produz teatro para jovens pensa isso também? Será que quem dirige a peça encara o produto final como um exercício formativo temporário?

Uma coisa sei… bons atores tiveram bons começos , bons cursos, boas experiências e, independente de o elenco da peça “Não conta pros meus pais” seguir carreira artística ou não, é notório o esmero e a criatividade da produção da Trupe Trabalhe Essa Ideia. Os pais podem até pagar os cursos de teatro como algo momentâneo pra entreter a criança e o adolescente, mas, com certeza, os participantes das oficinas e das peças sairão dessa experiência com uma consciência artística mais apurada, mais refinada, mais pensada para o mercado de produção artística e cultural do que o de produção de curso rápido que sai do nada para lugar nenhum.

Após a temporada de “Não conta pros meus pais”, a Trupe Trabalhe Essa Ideia continuará seus trabalhos no Distrito Federal, sempre passando por diferentes linguagens e experiências. Ficou curioso para conhecer o trabalho que ela desenvolve? Em junho, a Trupe participará do 1º Festival Nacional de Teatro de Bolso do DF, que será realizado no Espaço Cultural H2O, no Recanto das Emas.

Página da Trupe: https://www.facebook.com/TrupeTrabalheEssaIdeia/
Página do Festival de Teatro de Bolso: https://www.facebook.com/I-Festival-de-Teatro-de-Bolso-778064585719390/

Josuel Junior é ator, professor, produtor cultural e assessor de imprensa formado pela Fundação Brasileira de Teatro – Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Tem trabalho ativo em teatro, cinema, televisão e fotografia.

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