Monólogos de Gênero no CBB


Matheus Nachtergaele e Mateus Solano interpretam personagens do sexo oposto no mais novo trabalho da artista visual holandesa Diana Blok. Vídeo-instalação reúne seis artistas brasileiros e holandeses e discute identidade de gênero, preconceito e discriminação

A discussão sobre identidades de gênero tem provocado cada vez mais reações conservadoras em diversos setores da sociedade. Seja no âmbito acadêmico, nas ciências, nas instituições em geral, o debate acalorado trouxe à tona uma série de comportamentos discriminatórios para aqueles que, ao longo da vida, ou no começo dela, se percebem fora do padrão heteronormativo. Mas quais são os limites? Quem os determina? A artista visual holandesa-uruguaia Diana Blok nos presenteia com mais uma obra de tirar o fôlego. Intitulada “Monólogos de Gênero”, uma coprodução Brasil-Holanda, é o mais novo trabalho da artista e chega a Brasília, de 01 de dezembro de 2016 a 02 de janeiro de 2017, na Galeria 4 do Centro Cultural Banco do Brasil Brasília, com exibições das 9h às 21h. A entrada é gratuita.

A obra é uma vídeo-instalação criada em parceria com o pesquisador de mídias digitais Pawel Pokutycki e reúne seis atores e atrizes, brasileiros e holandeses, convidados por Diana, que interpretam textos escritos originalmente para personagens do sexo oposto. No elenco, brasileiros consagrados como Matheus Nachtergaele e Mateus Solano, além de Grace Passô, Dani Barros e os holandeses Abke Haring e Cas Enklaar. Juntos eles interpretam textos de William Shakespeare, Tom Lanoye, Anton Chekhov, Antonin Artaud, Martin Luther King Jr., Maria Cecília Nachtergaele, Tennessee Williams e Marilyn Monroe. A medida que o público entra no espaço – composto por seis telas de 2m de altura por 1,5m de largura – esses rostos conhecidos tomam forma e assumem identidades completamente diferentes daquelas às quais estávamos acostumados. Sentada numa cadeira, com a luz baixa, vestido e luvas de cetim, cabelo louro claro está Cinderela – interpretada por Mateus Solano. Mas não é aquela Cinderela que estamos acostumados desde a infância e que vem sendo retratada ao longo dos séculos. Nessa história não tem madrasta má e muito menos príncipe encantado. “Que cara é essa? É o sapato? Sim, está apertado. Sapatinho de cristal é sapatinho de vitrine. Todo mundo no bem bom e eu aqui. Chega, chega!”, esbraveja a Cinderela do século 21 em um dos seis vídeos que integram a obra.

O projeto surgiu em 2014 como desdobramento da série fotográfica Adventures in Cross-Casting, apresentada em Brasília e no Rio de Janeiro. Desta vez, Diana mergulha no universo do audiovisual e nos apresenta uma obra que desestabiliza o público e os artistas acerca das certezas do que a sociedade contemporânea entende e aceita como gênero. “Queremos questionar os limites dos formatos e dos suportes para questionar, em primeiro plano, os limites impostos pelo levante conservador que vivemos atualmente e pelas posturas cada vez mais discriminatórias da sociedade diante de indivíduos que transitam por identidades de gênero fora do padrão heteronormativo”, afirma Diana.

Quem assina a dramaturgia é o jovem pesquisador e professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília, Glauber Coradesqui, formado pela mesma universidade e que vem se destacando nacionalmente pelos trabalhos que realiza. “ Compor a dramaturgia desse trabalho e dividir o processo criativo com esse time de atores foi muito instigante. As combinações das escolhas, aleatórias num primeiro momento, ganharam uma complexidade que deixou o discurso da obra ainda mais potente. Esses personagens se encontram, se escutam – e isto seria improvável em outro contexto”, explica Glauber. E completa: “Vivemos mundialmente uma espécie de revolução conservadora que tende a apagar as identidades divergentes dos padrões. Precisamos colocar na pauta, com urgência, a necessidade de assumir o outro a partir de sua diferença, ir ao encontro dele. Este trabalho dialoga com essa necessidade de maneira lúdica e sensível. É um exercício poético da diversidade”.

Monólogos de Gênero, uma coprodução Brasil-Holanda, é uma instalação interativa da artista visual holandesa-uruguaia Diana Blok. A ideia do projeto surgiu em 2014 como desdobramento da série fotográfica intitulada Adventures in Cross-Casting, apresentada em Brasília e no Rio de Janeiro. Em Monólogos de Gênero, a artista convida seis atores e atrizes, brasileiros e holandeses, para interpretarem textos escritos originalmente para personagens e personalidades icônicas do sexo oposto. O resultado é uma vídeo instalação criada em parceria com o pesquisador de mídias interativas Pawel Pokutycki na qual o público descobrirá de forma surpreendente rostos conhecidos sob identidades ficcionais assumidas, atravessando os limites do gênero por meio da imaginação. A dramaturgia é composta em parceria com os atores a partir de textos de William Shakespeare, Tom Lanoye, Anton Chekhov, Antonin Artaud, Martin Luther King Jr., Maria Cecília Nachtergaele, Tennessee Williams e Marilyn Monroe.

Os MONÓLOGOS DE GÊNERO estrearam em setembro desse ano, no Rio de Janeiro, como parte da programação do TEMPO_FESTIVAL. A instalação, aberta ao público do Rio durante dois meses, obteve grande destaque na mídia e impactou de maneira surpreendente os visitantes. A produção do vídeos foi patrocinada pelo fundo holandês Performing Arts Fund NL – Dutch Cultural Manifestations Abroad.

Ficha Técnica

Atores e atrizes:
Abke Haring (NL) – Hamlet
Cas Enklaar (NL) – Liuba Andrêievna
Dani Barros (BRA) – Antonin Artaud
Grace Passô (BRA) – Martin Luther King Jr.
Matheus Nachtergaele (BRA) – Maria Cecília Nachtergaele (Mãe)
Mateus Solano (BRA) – Cinderela
Conceito e direção: Diana Blok
Dramaturgia: Glauber Coradesqui
Pesquisa Mídias Interativas e Expografia: Pawel Pokutycki

Sobre a artista

DIANA BLOK é artista visual e fotógrafa. Nascida em Montevidéu (Uruguai), vive e trabalha em Amsterdam, mas se sente uma cidadã do mundo. Desde a primeira vez que pisou no Brasil, quando ainda era criança, mantém um fascínio por esse país imenso e belo, como costuma dizer. Trabalha em terras brasileiras desde 2003, desenvolvendo diversos projetos e residências. Por aqui, finalizou recentemente o projeto de fotografia e vídeo Eu te desafio a me amar, que obteve excelente recepção, e uma versão da série Adventures in Cross-Casting, que inclusive originou o projeto dos Monólogos. Sua obra integra coleções de diversos museus em Amsterdam, Tóquio, Buenos Aires e Nova Iorque.

Serviço

01 de dezembro de 2016 a 02 de janeiro de 2017 (exceto terças-feiras)
Centro Cultural Banco do Brasil – Galeria 4
(SCES Trecho 2, Lote 22)
9h às 21h. Gratuito.
Classificação indicativa: 12 anos.

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