Mare Serenitatis
No início era o verbo?
Não… Era o silêncio.

Quantos sacrifícios somos capazes por amor?

Inspirado na obra de Hans Christian Andersen

A Jornada de uma sereia presa a um farol rodeada de restos de barcos e memórias que foram arrastados aos recifes.
Dividida entre dois mundos…
A menina e a mulher
A lua e o mar
O silêncio e o canto
O teatro e o cinema
Metade mulher, metade artista…

O espetáculo, que traz a diretora Luciana Martuchelli de volta aos palcos, acompanhada dos músicos Guilherme Cezario e Filipe Lima, é em solo autoral e inédito, fruto do encontro da atriz candanga com a diretora britânica, Julia Varley, do Odin Teatret.

Desde 2007, esse intercâmbio entre a Cia YinsPiração, de Martuchelli, e o grupo dinamarquês gera muitos frutos como a tradução do livro Pedras d’Água, de Júlia Varley; a participação de Martuchelli nos espetáculos Ur-Hamlet, como atriz; A vida é Crônica e Claro Enigma, como assistente de direção; além do festival internacional de mulheres no teatro Solos Férteis e A Arte Secreta do Ator, criados pela companhia candanga no Centro-Oeste há mais de 10 anos.

A residência artística recebe anualmente artistas de toda parte do Brasil e diversos países para treinar diretamente com o criador da antropologia teatral, Eugenio Barba, e o festival internacional de mulheres no teatro é conectado à rede Magdalena Project. Esta rede, fundada também por Varley, fomenta festivais e produções femininas em 50 países e foi espaço propício para o desenvolvimento do tema e para a relação das duas artistas.

Mare Serenitatis é uma coprodução Brasil/Dinamarca, com pesquisa e ensaios realizados nos dois países, e estreia em Brasília dia 31 de maio, no Espaço Cultural Renato Russo. Depois, segue para o Transit Festival, na sede do Odin Teatret, na Dinamarca, de 12 a 23 de junho, e volta ao DF para apresentações em Planaltina, no Teatro Lieta de Ló, no fim de junho.

FAC Apresenta
Mare Serenitatis

Texto, canções originais, animações e atuação: Luciana Martuchelli
Direção: Julia Varley
Assistente de Direção e técnica: Filipe Lima
Iluminação: Marcelo Augusto
Músicos: Guilherme Cezario e Filipe Lima
Arranjos: Guilherme Cezario e Luciana Martuchelli
Vídeo Design: Stafano Di Buduo
Produção: Giovane Aguiar

Realização: Cia. YinsPiração Poéticas Contemporâneas
Uma coprodução com Nordisk Teaterlaboratorium – Dinamarca

Serviço

Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul)
31/05 a 09/06/19
Quinta a sábado*, às 20h; domingo, às 19h
Ingresso: R$20,00 (inteira)
Entrada Franca
Duração: 60 min
Indicação: 14 anos
Antecipados: ingressorapido.com.br

*Atenção: no dia 08/06, não haverá sessão, devido a agenda da 508 sul. Convidamos para o bate-papo Do Canto ao Silêncio, às 15h. O canto das sereias e o apagamento, obscurecimento e silenciamento da voz, lamento e expressão criativa das mulheres na história e na dramaturgia.
Com a atriz e diretora Luciana Martuchelli e a atriz, dramaturga e acadêmica Lúcia Sander.
Entrada Franca

Mais sobre o espetáculo

Como transformar um cais numa ponte sonora?

A espera incansável do amor, a inabilidade de fechar o coração e perder a esperança ainda que um mar de ressentimentos nos envolva! O que tem pra nos dizer e nos ensinar um coração partido?!

Sacrifícios e embates para encontrar seu lugar no mundo, principalmente para mulheres, resultaram muitas vezes em silenciamento. Luciana Martuchelli e Julia Varley, atriz e diretora de Mare Serenitatis, tiveram problemas na voz e, cada uma ao seu jeito, teve que encontrar uma forma de recuperá-la. Julia Varley tem uma performance famosa chamada O Eco do Silêncio, que conta de forma surpreendente e vocalmente forte esta jornada.

Luciana, ficou sem voz por anos sendo impossível continuar a atuar, cantar, dirigir e dar aulas. Ela conta que foi um longo período de equívocos médicos até encontrar no Tai Chi Chuan e nos treinamentos de outras atrizes, incluso Julia Varley, e de fonoaudiólogas, como Mara Belau e Yonara Caetano, o meio para recuperar a voz, bem como integrar o silêncio. “O silêncio se revelaria um grande e generoso mestre”, afirma Luciana.

O trabalho foi além de restaurar a voz, mas descobrir a imensa capacidade feminina de autorrenovação. Com o passar de anos, sua voz voltou. Mare surge da percepção de um emudecimento não somente sonoro ou físico, mas também arquetípico e estético, tanto forçado como opcional de muitas mulheres, e de mulheres artistas ao longo da história; mulheres que não usufruíam de crédito, espaço, emancipação legítima, estudos, e que foram obscurecidas ou tiveram que ter uma representação masculina para suas vozes ou mesmo nenhuma.

A obra aponta que sempre existe a opção para as mulheres de desistirem, de se distraírem da imensa tarefa diante desse legado.

Inspirado no conto “A Pequena Sereia” que sacrificou sua voz por amor, trocando- a por pernas, o espetáculo surgiu da busca por renovar nossa capacidade de doação, às vezes obscurecida pela dor. Para relegendar “O canto da sereia” que, ao invés do que se espera, guia-nos para longe dos recifes. Salva-nos! Encoraja-nos a mergulhar fundo num mar amniótico, e a abarcar e abordar o universo mítico e psicológico das sereias e suas origens, evocando um espaço onde vive silêncios, lamentos, herança, ressentimentos, medicina, entrega, eros, ressonâncias e ação!

Do latim, “Mare Serenitatis” significa “mar da serenidade” e dá nome a uma das maiores crateras lunares. A obra que é um Réquiem para vozes da profundezas, foi para Martuchelli uma gentil bússola para voltar a compor, a cantar.

Um mapa para um território de sacrifícios feitos em nome do amor, mas não somente por receber amor, mas pelo transbordamento irrestrito dele em nós.

Em Mare Serenitatis, Luciana busca uma ponte entre a sua biografia de desafios como artista e herança feminina com um mundo de sacrifícios e esperas. Muitas vezes, eles alienam o protagonismo existencial de mulheres ou enclausuram suas vozes e generosidade, transformando minas de água puríssima em deserto de mares lunares.

Especialista em mitologia, Luciana conta como as Sereias, filhas de Melpómene (musa da tragédia), enfeitiçavam e naufragavam marinheiros com seus cantos. Metade mulher, metade peixe. Traz a atenção para essa metade animal tornada inferior e perigosa, por uma visão do feminino arcaico quando dominado por culturas bélicas e nômades. Porém, as sereias também estão presentes em muitas culturas diferentes, com representações e abordagens opostas às de ameaças, onde suas vozes, assim como essa parte animal, seus dons e suas músicas podem na verdade curar e despertar o indivíduo em níveis superiores de consciência e ética com a vida.

Essa imagem híbrida da Sereia esconde curativos e transgressores segredos das origens de nossa espécie. Observar e investigar as representações do feminino, diz a pesquisadora e atriz, sempre é como descobrir um país: uma bússola para a reconstrução da memória da mulher. O futuro de um artista, por vezes, passa por colocar as devidas legendas no passado. Principalmente no feito de ser mulher e compreender como foi construído mundo que estamos vivendo hoje. Seja Eva, Pandora, Medeia, Madalena ou Iara, essa visão temerosa e terrível dos atributos e do poder de ação das mulheres tem origem em uma mitografia de valores dominantes, de conquistas datadas, que alicerçam muitos dos danos feitos à mulher, assim como contra a própria natureza.

E que também vive dentro do corpo de cada mulher. Para Luciana, revisitar e traduzir à luz da arte, esses mitos é uma forma de lutar contra a própria impotência, é denunciar as vozes que se calam ou lutam contra injustiça e discriminação, mas também de um meio de celebrar vozes que cantam sobre os negros mares, que ecoam do silêncio, que cantam por água potável no planeta, zelando pela beleza e alegria do mundo!

Cia. YinsPiração Poéticas Contemporâneas

Criada por Luciana Martuchelli em 2002, a Cia. YinsPiração Poéticas Contemporâneas foca seu trabalho no treinamento técnico do ator e da atriz. Desde 2008, tem um intenso intercâmbio de pesquisa com Eugenio Barba o Odin Teatret. Espetáculos dirigidos por Luciana: “Carta No 6”, “O Equilibrista”, “Fahrenheit – Cantos e Contos de João de Ferro”, “Sonhos de Shakespeare”, “Ars – As Mil Folhas Peladas dos Poemas”, “Elizabeth Tudo Pode”, “Medéia – Gaia em Fúria” e “A Página em Branco”.( Parte dessas obras são hoje apresentados em três línguas em vários países da América Latina e Europa )

Luciana Martuchelli

Diretora da TAO Filmes – produtora e escola de treinamento de atores para o teatro, televisão, cinema e música, desde 1994, em Brasília. Formada em direção no Instituto Superior de Arte de Havana (Cuba); no Fashion Institute of Design & Merchandising (Califórnia, USA); e na Faculdade Dulcina de Moraes – FBT (Brasília). Entre seus mestres estão Dulcina de Moraes, Antunes Filho, Aderbal Freire-Filho, Peter Brook, Eugenio Barba e Julia Varley. Ao lado da atriz do seu grupo, Juliana Zancanaro, traduziu o livro “Pedras d’água”, de Julia Varley (Odin Teatret) para o português. É idealizadora e organizadora do treinamento A ARTE SECRETA DO ATOR – BRASIL e do Festival Internacional de Mulheres no Teatro – SOLOS FÉRTEIS. Dirigiu dezenas de espetáculos, além da preparação de atores para cinema e mídias digitais. Como atriz, atuou em comerciais, filmes e mais de 15 peças, como “Ur-Hamlet”, de Eugenio Barba, (POL); “Irmã Teodora e As Desventuras Do Cavaleiro Agilufo”, de James Fensterseifer; “As Ridículas de Moliére” e “Admirável Ainda”, de Miriam Virna; “Tira II – Macoy is Back”, da Cia. De Comédia Melhores do Mundo; e “Devagarinho Eu Deixo”, de Guilherme Reis, com indicação ao Prêmio APAC de Melhor Atriz.

Filipe Lima

Ator, contratenor, professor de canto e atuação. Iniciou sua vida artística aos 12 anos. Foi solista em coros, óperas e musicais de 2004 a 2009. Em 2008, ingressou no grupo de pesquisa teatral “Physis – Dramatic Bodystorm Trainning”, que explora a criação de uma técnica autoral para o ator e uma dramaturgia corporal e vocal. Com a Cia. YinsPiração Poéticas Contemporâneas, da diretora brasiliense Luciana Martuchelli, atuou nos espetáculos “Sonhos de Shakespeare”, “O Equilibrista”, “Fahrenheit”, “The Big Heart & Eros”, “ARS – As mil Folhas Peladas dos Poemas” e na obra “Elizabeth Tudo Pode”, onde manipula e desenvolve mais de 40 vozes para os personagens da obra,

Guilherme Cezario

Estudou na escola BSB Musical com Júnior Morgado, Paulo Lopes e Carlos Vinícius. Também foi aluno do guitarrista Marcelo Barbosa. Estudou com o regente, educador e compositor Carlos Pacheco (aluno de grandes músicos como Claudio Santoro e Camargo Guarnieri). Graduado em Música na Universidade de Brasília (UnB). Compõe trilhas sonoras para curtas-metragens, leciona aulas de guitarra e violão e estuda neurociência ligada às artes e improvisação. É guitarrista das bandas “Arandu Arakuaa” e “Ninfetas do Além”. Desde 2013, é principal músico e compositor da Cia. YinsPiração Poéticas Contemporâneas, participando como músico e ator de “O Equilibrista” (2015), “Fahrenheit” (2015), “Sonhos de Shakespeare” (2015) e “The Big Heart & Eros” (2014).

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