Nos últimos anos, a literatura, não obstante ter contribuído com da desmistificação de superstições e religiosidades, deu voz aos medos e esperanças gerados pelas descobertas científicas

A literatura fantástica, produzida desde a Antiguidade, já especulava sobre os possíveis descaminhos do desenvolvimento do gênero humano, bem como seus efeitos danosos e benfazejos.

Ao passo que as noções sem base na razão ou no conhecimento, se escondem atrás de um véu inexpugnável de folclorismos e crendices populares – que nos coagiram a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas e depositar confiança em coisas absurdas –, os avanços da medicina se encontram muito além de nossa capacidade de compreensão e o receio de que a ambição supere a ética e crie um novo e aterrorizante mundo é crescente.

É uma advertência antiga, mas apenas no começo do século XIX, a ciência declarou guerra ao sobrenatural, escolhendo como campo de batalha a literatura.

Prova disso, duas das mais importantes obras literárias do século, colocam em evidência questões relativas às deduções do conhecimento humano e às visões da sobrenatural, um estranho alinhamento entre ciência e religião, uma relação cunhada pelo espiritualismo e pela contínua popularidade das histórias de horror.

Frankenstein de Mary Shelley e Drácula de Bram Stoker não deixam de ser regressos ao passado gótico quando a crença no inexplicável derivava do mundo dos espíritos e das práticas mágico-religiosas, mas, por outro lado, estão também imbuídas da ambígua relação dos vitorianos com a ciência de seu tempo.

Em ambos, questões relativas à visão de ciência e superstição são postas em relevo. Shelley descortina em Frankenstein toda sua desconfiança em relação ao mundo científico, enquanto Stoker imprime em Drácula sua sólida confiança na ciência.

A ficção literária se distingue da simples narração dos fatos e, para tomar partido, o leitor teve de aceitar um contrato com ambos os autores. Em se tratando de Shelley e Stoker, não é difícil compreender o fascínio pela narrativa carregada de elementos supersticiosos, ao mesmo tempo em que a ciência mudava a localização da Terra no universo, explicava os mais intrigantes fenômenos e fornecia base para um acentuado desenvolvimento tecnológico em diversas áreas como hidráulica, ótica, mecânica e química.

O enredo de Frankenstein questiona o espaço que o conhecimento científico ocupa na vida das pessoas, pintando a figura de um cientista que possui poderes outrora sobrenaturais, mas que agora a ciência pode alcançar, no caso, a eletricidade, ou algo análogo a ela, servindo à alma e introduzindo uma faísca de vida à monstruosa criação. O papel científico, em seu romance, é semelhante ao da religião, de trazer vida, só que através da eletricidade.

A ideia de uma ciência todo-poderosa, condenada em Frankenstein, é vista sob um ponto de vista diametralmente oposto em Drácula que alia uma mistura do gótico mais tradicional com o que havia de mais moderno em termos de ciência à época. Técnicas médicas e detetivescas, hipnotismo e a presunção que os poderes ocultos do castelo do vampiro sejam de ordem geológica ou química.

Mais situada no gênero horror que ficção científica, Drácula personifica a ideia do cientista detentor de um conhecimento útil à humanidade e que busca livrar a humanidade de um flagelo, contrariamente, portanto, à Frankenstein que, movido por sua ambição, dá vida a uma criatura que destrói tudo o que ele ama.

Em Frankenstein identificamos a crítica à ambição científica, subjacente ao horror, mas também existe valoração do oculto em vários níveis, como quando o jovem Victor se afeiçoa às teses dos antigos alquimistas e, mais tarde, culpa-as pelo fracasso de sua experiência. Em Drácula, quando o arsenal científico não é suficiente para repelir o mal, a ciência de Van Helsing não hesita em utilizar superstições e religiosidades.

A peleja prossegue até os dias de hoje. Os exércitos da ciência e da superstição se equivalem e é fato que muitas pessoas temem as implicações científicas da Dona Morte, muito mais do que temem os encadeamentos religiosos da vida pregressa. São supersticiosas quanto ao destino dos seus corpos após o óbito e em seus medos está implícita a referência à crença de que a profanação dos cadáveres, em uma mesa de necropsia, impede a ressureição no Juízo Final.

O bicho homem é um complexo. Enquanto vivo receia a visita do vampiro, morto, teme a chegada do cientista. E o medo, apenas o medo, fica para semente que germina no terreno de ambas as suposições.

M. R. Terci é escritor, roteirista e poeta. Antes de se dedicar exclusivamente a escrita, foi advogado com especialização em Direito Militar e mestrado em Direito Internacional, Ciência Política, Economia e Relações Internacionais. É o criador da série O Bairro da Cripta, lançada anteriormente pela LP-Books e que reforçou seu nome como um dos principais autores brasileiros de horror da atualidade.

Com base em fatos históricos, Terci substitui os castelos medievais pelos casarões coloniais, as aldeias de camponeses pelas cidadezinhas do interior, os condes pelos coronéis e as superstições por elementos de nosso folclore e crendices populares, numa verdadeira transposição do gótico para a realidade brasileira. Seus livros não são apenas para os fãs do gênero horror. Seu penejar é para quem aprecia uma narrativa envolvente, centrada na experiência subjetiva dos personagens mediante as possibilidades que o contexto sobrenatural de suas estórias permite.

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