Inspirado em Raul Seixas, livro Histórias de Quem leva mais de uma década para ser publicado

Em entrevista inédita, escritor e doutor em história pela UNESP, Cesar Augusto de Carvalho revela os desafios de escrever contos de realismo fantástico.

Doutor em história e professor de sociologia aposentado da Universidade Estadual de Londrina – UEL, Cesar Augusto de Carvalho é expert em criar fatos absurdos, que com o decorrer do texto, tronam-se verdadeiras mensagens de reflexão social. Dentro dos dez contos presentes no lançamento de Histórias de Quem, o escritor utilizou em dois deles o ilustre cantor Raul Seixas e isso não foi por a caso.

Entre 2010 a 2014, Cesar escreveu contos sobre o astro do rock para uma coluna radiofônica chamada Estação Raul. Quando o programa encerrou, lançou a radionovela Toca Raul e atualmente prepara a edição Raul e Eu, uma novela que narra as aventuras de um personagem que se considera o próprio músico.

Em entrevista inédita, o sociólogo revela como aconteceu todo o processo criativo de escrever no estilo realismo fantástico, em obra que levou mais de uma década para ser publicada:

Por que você decidiu entre tantos gêneros escrever contos de realismo fantástico? Teve algum escritor ou escritora como inspiração?

Cesar Augusto: A decisão de escrever contos de realismo fantástico tem a ver com minhas preferências literárias que vem desde criança. Leitor contumaz, apaixonei-me pela literatura ligada ao maravilhoso, contos de fadas, histórias míticas. Depois, descobri o fantástico lendo Jorge Luiz Borges e Julio Cortázar. Quando comecei a escrever, o fantástico se impôs independente de minha vontade e nunca mais me desliguei desse gênero.

Como surgiu a inspiração para criar este livro?

Cesar Augusto: A principal motivação para escrever Histórias de Quem reside no desejo de poder expressar aspectos relacionados aos mistérios da vida, seus enigmas e significados, a partir de fatos banais que, no decorrer da narrativa transformam-se em absurdo procurando dar respostas literárias a estes mistérios. Construir Histórias de Quem demorou décadas.

Quais são os desafios de ser escritor(a) no Brasil?

Cesar Augusto: Quando comecei a escrever, o maior desafio era ter onde publicar. Havia poucas editoras e o acesso a elas praticamente impossível. Hoje, com a facilidade tecnológica, existem inúmeras delas que facilita bastante a publicação. Mas, o problema continua: como fazer com que o livro publicado chegue ao leitor? Talvez essa seja a maior dificuldade atual.

Qual é a principal mensagem que seus contos trazem para os leitores?

Cesar Augusto: Cada um dos contos traz mensagens específicas. O primeiro deles, por exemplo, o dia Em que fui devorado por um livro, traz a discussão sobre a importância das histórias na vida do ser humano. Outros, discorrem sobre a realidade por trás das aparências. Em todos eles, a mesma temática: os mistérios oferecidos pela vida de cada um de nós.

Algum personagem que está nos dez contos foi inspirado em sua vivência?

Cesar Augusto: Nenhum personagem é inspirado em minha vivência. O que ocorre, com mais frequência, é utilizar de certas experiências de vida para tecer a complexidade do personagem sem, contudo, haver identificação entre autor e personagem.

Quando e como surgiu sua paixão pela escrita?

Cesar Augusto: A paixão pela escrita nasceu do hábito de leitura. Sempre apaixonado pelo bom texto literário procurava, nas redações escolares, as melhores formas de escrever, buscar as palavras certas e procurar, o máximo possível, a precisão da linguagem. Comecei a escrever cedo, ainda que não tivesse pretensões de tornar-me escritor, desejo que nasceu na maturidade.

Qual a sua relação com Raul Seixas?

Cesar Augusto: Sempre fui fã, ainda que não fervoroso, de Raul Seixas desde que ele se lançou com a música Al Capone, em 1973. Depois, enquanto desenvolvia minha pesquisa sobre a contracultura no Brasil, iniciada em 1980, ele tornou-se uma de minhas fontes secundárias, especialmente por causa do projeto Sociedade Alternativa. Em 2010, enquanto trabalhava na Universidade Estadual de Londrina, usei sua biografia e seu universo cosmológico para escrever contos, crônicas e uma radionovela para o programa Estação Raul, veiculado pela Rádio UELFM. Estes textos radiofônicos foram publicados em Toca Raul, edição independente de 2014.

Porque resolveu levar o cantor para os seus contos?

Cesar Augusto: A vida do cantor, sua trajetória como artista e sua cosmovisão fornecem elementos aos borbotões para um escritor transformá-los em histórias ficcionais, especialmente quando este escritor tende para o fantástico. Está é a primeira razão. A segunda é a possibilidade de o escritor explorar os ícones, os elementos míticos de sua cosmogonia para construir subtextos onde esses símbolos produzam o que chamamos de autorreflexão, um dos papéis fundamentais da arte, não só da escrita, mas da arte em geral.

Além desse lançamento, você pretende publicar outros livros? Quais são os projetos para o futuro?

Cesar Augusto: Tenho vários projetos de livros a publicar: contos, crônicas e novelas. Para os próximos meses, está previsto o lançamento de uma novela, também ligada ao realismo fantástico, chamada Raul e Eu. Nessa história o personagem participa de aventuras decorrentes de um sonho ao mesmo tempo em que vive o drama de identificação com o cantor Raul Seixas.

Você fez alguma pesquisa para escrever o livro? Quanto tempo levou para escrevê-lo?

Cesar Augusto: Qualquer livro que eu vá escrever, mesmo que seja ficcional, passa por um processo de pesquisa. Tendo definido o eixo da história, tema, personagens e cenários, busco autores que tratam do mesmo assunto, tanto para me diferenciar deles quanto para buscar alternativas enriquecedoras para a trama. Histórias de Quem começou a ser escrito em meados dos anos de 1980 e só terminou quando escrevi o último conto, em 2014, ainda que sua publicação só tenha acontecido seis anos depois.

Histórias de Quem
Capa do livro Histórias de Quem | Foto: Ilustrativa

De gato mágico ao universo alucinógeno de Raul Seixas

Contos do livro “Histórias de Quem” partem do banal ao trágico com ar de realismo fantástico em meio ao absurdo

Literatura fantástica ou a realidade em meio ao absurdo? Os dez contos presentes no livro Histórias de Quem são diretamente influenciados pelo realismo fantástico, com narrativas que vão desde um gato mágico que revela a personalidade das pessoas ao retirar os óculos, até a incansável trajetória de um jornalista no universo alucinógeno de Raul Seixas.

Cesar Augusto de Carvalho é expert em criar fatos banais, que com o decorrer do texto, tornam-se trágicos ou absurdos, porém, prendem o leitor em cada página desse universo mágico da literatura. Assim como suas influências – que vão de Dostoievski, Michael Ende, Ernest Hemingway a Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Jorge Luís Borges – as histórias provocam inúmeras sensações, principalmente tensão e euforia.

Com um estilo que une imaginação e domínio claro das narrativas, o professor universitário aposentado passou boa parte da carreira dedicado a publicar ensaios e textos acadêmicos. Ser contista era algo distante e que ficava limitado a leituras de amigos. Apesar de as histórias serem independentes entre si, elas têm similaridades e uma narrativa se abre para outra de maneira singular. Exemplo disso, são os contos que trazem Raul Seixas como tema: “Muitos em um” e “Um escritor, Raul Seixas, Gilgamesh e a imortalidade”.

A inclusão de Raul na obra não é algo ao acaso. Entre 2010 a 2014, Cesar escreveu contos sobre o astro do rock para uma coluna radiofônica chamada Estação Raul. Quando o programa encerrou, lançou a radionovela Toca Raul e atualmente prepara a edição Raul e Eu, uma novela que narra as aventuras de um personagem que se considera o próprio músico.

Seu maior desejo é que suas histórias levem aos leitores um profundo diálogo, que podem, sim, influenciar comportamentos, mas também favorecer a compreensão de si mesmas.

Ficha Técnica

Livro: Histórias de Quem
Autor: Cesar Augusto de Carvalho
ISBN: 978-65-87908-05-2
Formato: 21×14
Páginas: 124
Preço: R$ 40
Link de vendawww.quemlêvê.com

Sobre o autor:

Cesar Augusto de Carvalho é professor de sociologia aposentado da UEL – Universidade Estadual de Londrina, no Paraná. Escreveu os livros Lavras ao Vento, Pá (Benfazeja, 2017) e Curto-circuito (Patuá, 2019), livros de poesia, e Histórias de Quem (Desconcertos, 2020), livro de contos. Com o poeta Hamilton Faria e criou o Canal do Poetariado, programa mensal sobre literatura e poesia exibido ao vivo pelo Youtube e Facebook.

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