História da Cultura Negra


Grupo de Capoeira conta a História da Cultura Negra em escolas do DF

Em novembro, mês que se comemora a consciência negra e lembra a data de morte de Zumbi dos Palmares, o Grito de Liberdade leva seu espetáculo sobre os heróis afrodescendentes às comunidades do DF.

O Grupo Cultural e Social Grito de Liberdade celebra o 20 de novembro com a caravana Quilombos da Liberdade. A data é um marco da luta contra o racismo enraizado em nossa sociedade. Desde 1980, o grupo de Mestre Cobra carrega a bandeira da luta racial em prol das comunidades negras. Esse ano abraçou a causa da LEI No 10.639, de 2003 que prevê a inclusão da história afro-brasileira no conteúdo escolar, que apesar de aprovada, ainda é pouco contemplada no conteúdo programático do DF. Intentando mudar isso, há pouco mais de 6 meses, o grupo de capoeira começou uma caravana pelas escolas do DF, levando os nome dos heróis da cultura afro-brasileira para crianças e adolescentes. Com apenas 128 anos do fim institucional da escravidão, o racismo ainda persiste, pois é cultural e está no inconsciente coletivo da sociedade brasileira. E por isso, é preciso falar sobre, problematizar e contar a história das pessoas que sentiram e sentem na pele o que é não ser considerado humano.

O espetáculo Quilombos de Liberdade é uma reverência a mitologias africanas explorando as técnicas de manipulação corporal, com uma linguagem artística de figurinos que resgatam a ancestralidade e coreografias que desafiam o limite do corpo humano, um encontro de corpo e alma. As coreografias são embaladas ao som de berimbaus, agogôs, atabaques, pandeiros e reco-reco e trazem histórias reais e fictícias transmitidas pela cultural oral de raiz africana numa surpreendente cena.

A peça já percorreu o Gama, a Ceilândia, o Recanto das Emas e o Núcleo Bandeirante. Foram 12 escolas contempladas e mais de 12.000 alunos espectadores do espetáculo que carrega Zumbi dos Palmares, Mestre Pastinha e Mestre Bimba entre outros heróis negros como personagens da história do Brasil.

O espetáculo leva aos alunos mitos e ritos dos afrodescendentes numa mescla de capoeira regional e angola e de danças de puxada rede, dança do bastão e maculelê, em que os negros são protagonistas na formação da identidade brasileira. Uma fusão em que a beleza dos movimentos com a plástica do figurino prendem a atenção de todos os alunos que aprendem sobre a história negra do país como processo formador de nossa identidade.

O projeto tem como idealizador o Mestre Cobra: “Desde o início lutamos contra o racismo e hoje decidimos levar essas lutas às crianças e adolescentes mostrando nossos heróis negros. Que tenhamos um estado tolerante onde prevaleça a igualdade racial, sem preconceitos.” O espetáculo conta com duas exibições por dias às 10h e às 14h.

Confira a programação

> 14/11/2016 – Centro de Ensino Fundamental 411 da Samambaia Sul, 10h e às 14h
> 16/11/2016 – Escola Classe 303 de Samambaia Sul, 10h e às 14h
> 17/11/2016 – Centro de Ensino Fundamental 02 do Riacho Fundo II, 10h e às 14h
> 18/11/2016 – Centro de Ensino Fundamental 02 do Riacho Fundo I, 10h e às 14h
> 21/11/2016 – Centro de Ensino Médio 414 de Samambaia Norte, 10h e às 14h
> 22/11/2015 – Centro de Ensino Fundamental Telebrasília do Riacho Fundo I., 10h e às 14h

Sobre o Grito de Liberdade

“Grito de Liberdade tem magia e tem axé,
contagia o povão,
Venha ver como é que é!”

Desde 1980, na Candangolândia, o grupo de Mestre Cobra, trabalha a capoeira perpetuando a história das culturas de matriz africana. Nessa época, a capoeira era marginalizada, sendo praticada às escondidas, no mato. De 80 a 90, Cobra treina com Mestre Rizomar. Em 90, vai para Asa Norte estudar com Grupo Taboza de Mestre Fred. Cinco anos depois, vai para o Sol Nascente com Mestre Romeu. Em 1994, começa a desenvolver o seu trabalho no Riacho Fundo. Forma-se então, o grupo de capoeira Grito de Liberdade. Cobra torna-se mestre graças ao mestre Tiego Nicácio.

O Grupo Cultural e Social Grito de Liberdade está espalhado pelo DF e pelo Brasil, formando capoeiristas também em Goiás, Minas Gerais, Piauí e Rio Grande do Norte. São muitos alunos, entre meninos e meninas, homens e mulheres, velhos e velhas, vindos de todo canto da sociedade. Mestre Cobra perpetua a capoeira não somente como uma luta ou dança, mas como qualidade de vida, como uma arma de conhecimento de si, do outro e do mundo, para fortalecermos nossa identidade e ancestralidade, conectando-nos com o futuro. Sempre diz também que a capoeira foi inventada para os fracos. Desta forma, ela é a resposta à máquina mercante e capitalista que tanto oprimiu e matou negros e índios no Brasil. A capoeira é um Grito de Liberdade, que simbolicamente ecoou primeiro de Zumbi, no quilombo dos Palmares.

Além dos constantes treinos, o grupo produz diversos encontros, entre batizados, trocas de cordel, rodas festivas, festivais de dança e campeonatos. Em todos os eventos são arrecadados alimentos que são distribuídos às famílias que precisam de ajuda nas comunidades que o Grito participa. Há também um trabalho de formiguinha, feito diariamente por mestre Cobra e seus discípulos, de resgate de jovens em situação de risco. Aos poucos, esses jovens vão encontrando e percebendo na roda de capoeira seu valor e sua individualidade, conectando-se à arma e brincadeira deixada por seus ancestrais. É na vivência que o fundamento e disciplina propiciam, no sincretismo que é o cotidiano da periferia do DF, nas singulares quedas de rim, na apreciação e apreensão do toque do berimbau, é no ritmo do jogo, que a liberdade vai se fazendo grito, com axé e com dendê.

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