Marchande Regina Boni anuncia inauguração da Galeria São Paulo Flutuante e plataforma de compras

Em mais um capítulo de sua contribuição ao mercado das artes plásticas no Brasil, a marchande – em parceria com seu sócio, o artista multimídia Manu Maltez – inova e transforma um antigo galpão da Barra Funda em um espaço que se propõe a democratizar o acesso à produção artística e à arte do colecionismo.

Para quem afrontou militares e a extrema direita em plena ditadura nos anos 60, não seria uma pandemia em escala global que deteria seu imutável desejo de se renovar. Avant-garde, a marchande Regina Boni, aos 78 anos de idade, não parou um instante: durante a pandemia, mudou uma galeria de lugar e ainda encontrou disposição para acompanhar a montagem de uma exposição: “O Templo do Cachorro Azul”, com obras de Manu Maltez, que é seu sócio nesse novo projeto e, também, um dos artistas que integram o portfólio da Galeria São Paulo Flutuante, que abrirá suas portas ao público em fevereiro de 2021.

Mas, antes de se tornar ‘flutuante’, esse espaço dedicado às artes tem história. Em 2002, a aclamada Galeria São Paulo – endereço icônico que se localizava na Rua Estados Unidos, na capital paulista – fechou as portas depois de 21 anos de intensa atuação no mercado brasileiro de arte, em um ciclo em que as cinco mostras de Hélio Oiticica falam em nome de dezenas de outras dedicadas a artistas até ali inseridos com timidez no circuito comercial, então pouco aberto às linguagens transgressoras e experimentais.

“Mesmo sem ter imaginado me tornar marchande nos anos 80, havia em mim a crença na originalidade de uma proposição artística brasileira em diálogo com o mundo. Uma crença da qual não abro mão e, 16 anos depois, aqui estamos com a Galeria São Paulo Flutuante”, diz Regina. Sobre esse retorno ao mercado, ela afirma que se deve a uma inquietação equivalente à de 1981, o ano da abertura do primeiro espaço. “Porém, as razões agora são bem diferentes daquelas que vieram à tona nas décadas em que contribuímos com a modernização do mercado e dos elos entre galeristas e artistas. Hoje, sinto-me desafiada pelos rumos – ou desvios – desse mesmo mercado, em suas vertigens de valores abusivos e curadores estelares, distanciados dos caminhos mais soberanos da criação”, complementa.

De acordo com Regina, as galerias tornaram-se espaços frios e distantes. Assim, esse formato de pensamento afastou o ser humano do acesso à arte e exilou o artista de seu próprio meio e de sua produção. “Ainda bem que pude perceber em tempo, porque eu não concordava com esse tipo de postura e discurso que está se desmoronando. Constatei que poderia voltar ao métier, inovar e, o mais importante disso tudo, que a arte tinha resistido a esse formato elitista, que, para mim, não se enquadra”, afirma. “O mercado vive uma transformação e está cheio de expectativas. Em 80, esse mesmo mercado foi surpreendido pela minha ânsia de querer criar algo novo e, passados todos esses anos, está voltando para o meu colo novamente. Quero caminhar em outras realidades, transitar por outras propostas estéticas, acolher um novo púbico e praticar novos preços”, diz.

Em relação à breve abertura do novo espaço – um depósito de 300 metros quadrados no bairro da Barra Funda que passou por reformas e adaptações para acolher a galeria –, Regina antecipa: “Não estamos anunciamos um retorno eterno, mas efêmero e flutuante, sem as amarras de um endereço fixo: intervenções em lugares ora vazios da capital paulista, vazios também como metáfora de conceitos e conteúdos abandonados na era dos curadores e do marketing a todo custo. Pretendemos regressar às aventuras das linguagens não-domesticadas pelos conceitos da estação. Quero a arte no calor da rua, no seio dos desejos, no meio do redemoinho. É o nosso recomeço em mais uma etapa dessa viagem.”

Em concordância com a marchande sobre os propósitos estéticos e curatoriais do novo espaço, o artista multimídia Manu Maltez tornou-se sócio dela nesse novo desafio. “Nunca fui um artista de galeria. Achava antiquado, não me interessava. Até conhecer a Regina, que gostou dos meus trabalhos. Nossas ideias se convergem, pois ela coloca o coração na arte, o que é, para mim, uma postura das mais louváveis”, diz Manu, que faz questão de afirmar que não se considera galerista nem marchand. “Nunca serei. Para mim, o que importa é criar. Quanto ao fato de ser sócio, o mais interessante é poder sair da minha área e ir buscar outros nomes e convidá-los para vir para cá. Hoje, tenho um espaço e quero ocupá-lo com artistas que possam contribuir para esse local”, afirma.

Por sua vez, Regina destaca a parceria com Manu. “Ele iluminou a galeria, trazendo um conteúdo para a minha vida e para o novo espaço que, pela minha idade, não teria acesso. Está sendo um grande enriquecimento, pois ele está criando um fluxo entre artistas mais jovens e eu vou observando”, conta, dizendo-se extremamente feliz de voltar para o circuito e já estar trabalhado ativamente na comercialização on-line de obras de arte pela plataforma  www.saopauloflutuante.com recém-criada por Manu.

Flutuante on-line

“A plataforma digital que o Manu idealizou dá um alcance e uma visibilidade em nível nacional extremamente ampla, democratizando o acesso à arte e à produção artística, pois utiliza uma linguagem que promove o diálogo entre artistas e o público em um exemplo de renovação do conceito de venda on-line com uma proposta moderna de realização cultural”, afirma Regina. Em seu start, o novo canal de vendas de obras de arte da Galeria São Paulo Flutuante reúne em seu portfólio 16 artistas – como o próprio Manu, Ângela Leite, Gregório Gruber, Luiz Paulo Bavarelli, Evandro Carlos Jardim, Rafael Kenji e Danielle Noronha, entre outros. A intenção, porém, é ampliar esse número. Quanto aos valores de comercialização das obras, oscilam entre R$ 500 e R$ 20 mil.

O canal também traz como atrativo a seção Mercado Secundário, a qual foi concebida tendo em vista que há uma quantidade expressiva de obras de arte de qualidade indiscutível e de valor superior do ponto de vista mercadológico que está nas mãos de grandes colecionadores. “Estas coleções não são engessadas, mas sofrem mudanças de rumo que resultam no surgimento de obras à venda. O Mercado Secundário se propõe, justamente, a aproximar a oferta dos colecionadores ao interesse dos investidores e amantes da arte e de peças especiais, que agora podem ser conhecidas em nível nacional e negociadas neste site”, diz a marchande.

Quanto à plataforma, Regina conta, com orgulho, que foi desenvolvida por um de seus netos, o publicitário Manoel Brasil Orlandi, que é, igualmente, neto de seu ex-marido, José Bonifácio Oliveira Sobrinho, o Boni da Rede Globo. Em relação à apresentação estética do site, leva a assinatura de Thereza Almeida, irmã de Manu.

O cão azul

Todas as obras que compõem a mostra inaugural da Galeria São Paulo Flutuante são de Manu Maltez. São trabalhos, de acordo com ele, que se inspiram no conceito genuíno da palavra religião para falar de arte. “A proposta é estimular o re-ligare do homem com sua interioridade. Vejo a arte como uma ferramenta de busca de algo maior e, por esse prisma, a galeria é o templo do sagrado”, diz ele, que prefere o sossego dos lugares distantes ao burburinho das metrópoles.

Para a exposição, as paredes do antigo galpão estão se vestindo de afrescos desenhados manualmente com lápis pastel. No total, o local acolherá dois murais, quatro esculturas de pedra, seis quadros (acrílica sobre tela) e seis esculturas de arame com tecido, cada uma delas costurada pela própria Regina – nunca é demais lembrar que foi ela quem vestiu com sua moda contestadora a Tropicália lá nos anos 60. E o cachorro azul ao qual se refere o título da mostra? É Azulão, um dócil boiadeiro australiano de cinco anos que cumpre, ao lado de seu escudeiro (Manu), residência artística na Barra Funda.

Entretanto, nem só a arte alinhava os destinos de Regina e Manu. Nascidos sob signos regidos pela água – câncer e peixes, respectivamente –, ambos exercitam uma aguçada sensibilidade guiada pela emoção, que é uma das caraterísticas desse elemento. Com a água tão presente na vida dos dois, inaugurar a Galeria São Paulo Flutuante em 2 de fevereiro – dia consagrado à mãe d’água e rainha dos oceanos, Iemanjá – pode não ser uma mera coincidência.

SOBRE REGINA BONI

Inquietação, contestação, realização. Em comum, esses três substantivos femininos contribuem para compreender, muito resumidamente, os sentimentos que movem, desde sempre, Regina Boni. Mover, por sinal, é o verbo que mais ilustra a trajetória dessa mineira de nascimento que foi para o Rio de Janeiro ainda criança, mudou para São Paulo, exilou-se na Europa e, desde 2019, é cidadã paulistana por decreto. Por mais diferentes os caminhos percorridos, sua essência permanece intacta em sete décadas muito bem vividas. A mesma ‘anima’ que a impulsiona a quebrar convenções e seguir sempre, escrevendo, a cada dia, mais uma página de sua história – e também a de tantos outros artistas.

Filha de pai um latifundiário pernambucano e de uma médica, Regina se casou, aos 17 anos, com Boni, então um jovem promissor da comunicação. Com ele teve dois filhos, Boninho e Gigi. O casamento, porém, durou cinco anos. Separada e aos 21 anos, jovem e antenada, era totalmente ligada aos movimentos efervescentes da época. Em 1967, conheceu Gal Costa na casa de Chico Buarque e emprestou à cantora um vestido para ela usar em um show. Surgia assim, despretensiosamente, a estilista da Tropicália, que também criou figurinos para Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros artistas, e também o nome Regina Boni (até então Regina Helena Oliveira), que foi dado por Guilherme Araújo, empresário de Gal, Gil e Caetano. Com a repercussão alcançada, ela inaugurou a butique Ao Dromedário Elegante, na Rua Bela Cintra, que tinha um DNA pautado pela contracultura.

Ameaçada pelos militares por causa de suas criações nada convencionais para esse período obscuro, Regina partiu para o exílio na Europa, onde permaneceu por quase três anos. Foi em Paris, por sinal, que sua percepção nata para galerista começou a ser moldada. De volta ao Brasil, em 1980, quebrou paradigmas, mudou o conceito conservador das artes plásticas e fez história com a Galeria São Paulo. Fez, não. Continua fazendo.

SOBRE MANU MALTEZ

Um paulistano que vive em guerra com a capital e alterna períodos de permanência na metrópole e outros de isolamento em vilarejos distantes de qualquer burburinho. Avesso ao convencionalismo e à pasteurização da geração dos algoritmos, Manu é um artista multimídia. Formado em Música, foi aluno da desenhista, gravadora e pintora Ely Bueno e do gravador Evandro Carlos Jardim. Canaliza seu potencial criativo por meio de diferentes linguagens artísticas e seus inevitáveis entrecruzamentos. É autor de diversos livros, discos e filmes, entre eles “O Corvo – Edgar Allan Poe”, com o qual conquistou o prêmio Jabuti 2010 na categoria Ilustração. Seu mais recente trabalho, “O Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza”, reúne um disco-livro e um filme de animação, que foi indicado ao Grande Prêmio do Cinema Nacional 2020. Como artista plástico, realizou diversas exposições de gravuras, desenhos e esculturas, além de intervenções em locais públicos, shows e performances no Brasil e no exterior. Enquanto curador, organizou a exposição “Meu Nome Era Lourenço”, de Lourenço Mutarelli, em 2018/2019 no Sesc Pompeia.

GALERIA SÃO PAULO FLUTUANTE

Inauguração: 2 de fevereiro de 2021 (terça-feira)
Endereço: Rua Brigadeiro Galvão, 130, Barra Funda, São Paulo/SP
Tels: 11 91036-3054 e 94535-6422
Site: www.saopauloflutuante.com
Instagram: @sp_flutuante
Facebook: spflutuante

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