Felicidade Invisível homenageia Alexandre Ribondi, pioneiro do teatro brasiliense e da luta LGBT, em espetáculo na Casa dos Quatro, em Brasília
Ele tinha 15 anos quando o pai, seu Firmino, disse que já era grandinho o suficiente para ganhar o mundo. E do Espírito Santo das matas, taruíras e onças, foi enviado para viver onde o irmão mais velho já habitava: Brasília. Que era uma criança, também. Não tinha 10 anos ainda. De lá até 2023, quando ainda jovem decidiu partir, Alexandre Ribondi dedicou mais de 50 anos da vida a construir o teatro e a linguagem teatral que a cidade teria, criou o grupo Beijo Livre – o primeiro de luta por direitos LGBTs do DF – e foi repórter do jornal Lampião, junto com Agnaldo Silva, e de diversos outros periódicos. Na próxima quarta-feira (10), se completarão três anos de sua morte. E para celebrar sua existência, a Cia Ruiva de Teatro, fundada por ele em 2016, apresenta FELICIDADE INVISÍVEL. No teatro fundado por ele em 2017, a Casa dos Quatro.
Sim, ele era pioneiro em praticamente tudo o que se envolvia. Lá estava ele quando decidiu botar um sapato de salto alto em Cássia Eller e fazê-la usar em suas primeiras incursões pelos palcos, no musical Gigolôs. Antes, lá estava ele quando da virada dos anos 70 para os 80 e, estimulado pelo cansaço que a Ditadura provocava, resolveu botar no palco “Crepe Suzette – o Beijo da Grapette”, o primeiro besteirol brasiliense. E antes de sentir o peso do cansaço, sofreu as dores da perseguição: foi preso, torturado e obrigado a se exilar.
Felicidade Invisível
“Ribondi vinha sentindo a melancolia de quem lutou demais por tudo: pela democracia, pelos direitos de populações minoritárias como a própria a que pertencia, pela criação de uma linguagem teatral única. E em seus últimos anos, vinha sentindo o cansaço da cobrança de adequação. É engraçado isso, até. Ele dizia que lutava pelo direito à esquisitice, mas quando se tornou ‘velho’, começou a ser perseguido pela juventude do ‘usa o Google, não sou obrigado a te ensinar nada’. Essas incompreensões foram torturantes pra ele”, revela o diretor Morillo Carvalho, amigo de sua intimidade e com quem fundou a Casa dos Quatro.
ELENCO
O elenco é, em sua maioria, composto por atores recém-chegados ao teatro profissional, e que tiveram sua base de estudos criada na Oficina do Ribondi – espaço de formação de atores criado por Alexandre em 2013 e mantido por seus discípulos Morillo e Irina Buss (diretora de movimento) após sua morte, em 2023.
“Conheci o Ribondi porque caí de pára-quedas em uma oficina dele, levada por uma amiga, pra montar uma coreografia para a peça que estavam encenando. Nunca mais saí. E com o Ribondi, compreendi que não importa quanto tempo leve, algumas almas simplesmente se encontram. Se reconhecem. Se tornam confidentes. Mas, muito mais que isso, confiantes. Confiantes de que uma sempre estará ali pela outra. Vê-lo pela primeira vez foi como reencontrar um velho amigo”, lembra Irina.
O elenco é composto por Ana Elisa Santana, Carol Esteca, Ed Brando, Irina Buss, Isabela França, Jupiter Rodrigues, Luiza Melo, Morillo Carvalho e Tai Neri. Todos foram convidados a participar da montagem após a conclusão da Oficina no fim de 2025, que se dedicou a construir este espetáculo.
“Conhecer mais profundamente a trajetória de Alexandre Ribondi foi como abrir uma janela para a história viva do teatro brasiliense. Perceber a marca deixada por seu trabalho despertou em mim um olhar mais sensível para aqueles que dedicam a vida à arte, muitas vezes de forma silenciosa, mas profundamente transformadora”, diz Júpiter Rodrigues, que se aproximou da Casa dos Quatro após participar de um projeto iniciado por Ribondi em 2016: Felicidade, que leva oficina de teatro a jovens LGBTs periféricos.
“Vim conhecer o Ribondi quando um dos meus amigos do ensino médio me chamou para uma oficina dele. No meu primeiro dia, eu estava muito nervoso, pois nunca tinha ido a um teatro na minha vida, mas o Ribondi me acolheu de todas as formas possíveis”, lembra Ed Brando, o único, fora Morillo e Irina, que foi aluno dele, no elenco. “Alguns dias antes de sua partida, ele me deu um beijo de despedida. Nunca me esqueci desse momento”, recorda Ed.
DRAMATURGIA
O espetáculo se baseia em textos não-dramatúrgicos de Ribondi, com alguns pouquíssimos trechos de espetáculos. Para montar uma história tão complexa, Morillo se envolveu numa pesquisa profunda: recortes do último livro que publicou e que dá nome a esta peça, escritos em blogs antigos, falas em entrevistas à imprensa, depoimentos como o que prestou à Comissão da Verdade da UnB. E, claro, o arremate foi criado com base nas memórias de uma amizade profunda, iniciada em 2016, quando começaram a trabalhar juntos. Para que não falte compreensão, sua vida é contada em ordem cronológica, ainda que não-linear.
Contar essa história também tem o peso de prestar homenagem e de fazer alguma Justiça. “O que os jovens não percebem é que essa cultura de cancelamento é altamente nociva e fatal. Que anular a existência de alguém que passou a vida se dedicando às causas coletivas porque um dia tiveram falas dúbias é cruel e pode ser definitivo”, completa Morillo.
“Ribondi partiu sem que conseguíssemos tirar uma foto só nossa e sem ele escrever um monólogo pra mim (porque, de acordo com ele, eu roubava todos os papeis das peças, sendo que era ele quem me dava…), mas seguirá comigo o seu maior ensinamento: ter uma vida interessante”, conclui Irina. Essa frase, a de que não buscava uma vida feliz e sim uma vida interessante, foi dita por ele em 19 de maio de 2016, no finado Teatro Goldoni, quando do lançamento do projeto Direitos Humanos em Dois Minutos.
OUTROS DETALHES
A cenografia é “all yellow”, pois amarelo era a cor favorita de Ribondi. Foi concebida por Morillo a partir da instalação “Desvio para o Vermelho (1967-1984)”, de Cildo Meireles, no Instituto Inhotim. “Ribondi procurava um teatro cru, de pouco cenário, baseado apenas em ator em cena. Se despojava de figurinos elaborados ou luz complexa. Então busquei deixar o palco o mais limpo possível, e a forma que encontrei para isso foi pintar tudo o que fosse indispensável de amarelo. E os elementos são muito baseados em móveis e objetos de casa, que eram a cara dos cenários e textos dele”, revela.
A trilha sonora é composta apenas por canções brasilienses ou interpretadas por brasilienses, exceto uma, que caiu como uma luva em uma das cenas mais interessantes e físicas do espetáculo.
Não perca! O espetáculo será apresentado de 11 a 14 de junho, no teatro que agora leva o nome de Ribondi, na Casa dos Quatro, exceto no dia 13 (pois é jogo do Brasil na Copa).
FICHA TÉCNICA
Dramaturgia adaptada e direção geral: Morillo Carvalho
Direção de movimento e coreografias: Irina Buss
Assistência de direção: Helen Cris
Produção: Luli Neri
Produção e Imprensa: Drops Culturais Cultura e Comunicação
Elenco: Ana Elisa Santana, Carol Esteca, Edward Brando, Isabela França, Irina Buss, Jupiter Rodrigues, Luiza Melo, Morillo Carvalho e Tai Neri
Operação de luz: Rui Miranda
Cenografia, direção de arte e arte gráfica: Morillo Carvalho
Fotos de divulgação: Isabela França
Realização: Cia Ruiva de Teatro Ribondiano – Casa dos Quatro
SERVIÇO
FELICIDADE INVISÍVEL
Local: Casa dos Quatro (SCLRN 708 Bloco F Loja 02 – Asa Norte – Brasília – DF)
Data e hora: 11 e 12 de junho às 20 horas e 14 de junho às 19 horas (não haverá sessão dia 13/06).
Classificação indicativa: 14 anos
















