“Dos Santos” é manifesto poético antirracista e apresenta Fabiana Cozza como compositora

O oitavo álbum de carreira da paulistana Fabiana Cozza carrega seu último nome de batismo no título e pode ser considerado seu trabalho de estreia como compositora. Cozza assina “Manhã de Obá” com a cantora e compositora mineira Ceumar. O lançamento oficial nas plataformas digitais ocorreu em 4 de setembro.

O repertório inédito, criado especialmente para o trabalho da intérprete na forma de pedidos da própria à compositoras e compositores, é dedicado ao universo cultural das religiões de matriz afroindígena brasileiras. Para vestir as canções, Cozza tem ao seu lado o diretor musical, arranjador e baixista Fi Maróstica.

“Esse trabalho existe graças a um coletivo de artistas que aceitou o meu convite e nasceu a partir de conversas e percepções junto ao Fi Maróstica, um criador excepcional, parceiro imprescindível. Decidimos por um disco com pouca instrumentação, partimos do que seria elementar às canções. Trouxemos para o nosso tempo preservando e respeitando tradições ancestrais. O essencial seria: tambor, voz e baixo. Depois vieram participações dos cellos do Duo Imaginário (Vana Bock e Adriana Holtz), as guitarras afro baianas de Jurandir Santana, o bandolim de Henrique Araújo, o bênsumi e as vozes de Mu Mbana, Cristiano Cunha e nega Duda”, conta Fabiana Cozza.

Para ela, o trabalho tornou-se ainda mais importante diante da fragilidade da democracia brasileira.

“… o trabalho é uma defesa – musical, politica, cidadã – do que destaco como cultura matricial, lugar de berço, do muito produzido e estruturado no Brasil e que tem sido vilipendiado e atacado pelo atual governo”, afirma.

E completa:

“Como afirma Luiz Antonio Simas, autor de três composições (parcerias com Moyseis Marques e Alfredo del Penho) do álbum, este é um trabalho inspirado na ótica dos “cruzos” culturais que forjaram o Brasil, a tal “cultura de frestas” não legitimada oficialmente porque é representação do povo negro, do povo indígena, das gentes que povoam as ruas do Brasil.

Isso é o oposto à lógica do pensamento eurocentrista, da branquitude. Somos constituídos a partir dessas encruzilhadas encantadas (ou não) – matrizes com berço nos terreiros de candomblé, umbanda, jurema, catimbó espalhados Brasil adentro e que de forma ímpar e crucial explicam o que entendo por Brasil real, de carne e osso. O disco canta e defende esta vida, estas forças, estas rezas, estas mães, pais e filhos de santo dos terreiros que têm sofrido com o terrorismo religioso. É a minha posição antirracista em vista do mundo que nos sufoca e tenta calar”, afirma Cozza.

Disco https://open.spotify.com/album/6HhJcF7yFhjgc0uSuPPMVa

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