Encontro de Mestres do Brasil reúne artistas e comunidades para celebrar saberes ancestrais, música, tradições e a diversidade cultural brasileira em uma grande celebração nacional
Manter viva a cultura popular brasileira pressupõe reconhecer quem assegura sua continuidade. Mestres e mestras tornam-se referências em suas comunidades porque transformam a experiência acumulada ao longo da vida em conhecimento compartilhado. Ao promover sua presença e colocá-los no centro da programação, o Encontro de Mestres do Brasil contribui para que esses saberes permaneçam em circulação e alcancem novas gerações.
De 27 a 29 de agosto, a Arena Conic, no Setor de Diversões Sul, recebe três dias de apresentações gratuitas, sempre a partir das 17h. O projeto tem patrocínio da Vale, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e do FAC – Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal. A realização é do Ibranova – Instituto Brasileiro de Inovação Cultural e da Formiga Produções.
Entre as principais atrações está Lia de Itamaracá. Reconhecida como Rainha da Ciranda, a artista transformou a tradição da Ilha de Itamaracá em uma referência da cultura brasileira dentro e fora do país. Também de Pernambuco, a banda Mestre Ambrósio reencontra o público com a sonoridade que marcou a renovação musical dos anos 1990. Rabeca e percussões aproximam o universo do cavalo-marinho de referências contemporâneas, em um trabalho associado à efervescência cultural do movimento manguebeat.
A programação recebe ainda Tião Carvalho, cantor, compositor, dançarino, ator e pesquisador maranhense. Há mais de quatro décadas, ele se dedica à difusão das culturas populares e mantém, em São Paulo, a Festa do Boi do Morro do Querosene, além de desenvolver um trabalho contínuo de formação.
Nesse encontro entre diferentes territórios, Mestra Martinha do Coco representa a força cultural do Distrito Federal. Nascida em Olinda e radicada no Paranoá, a artista desenvolveu o chamado samba de coco do Cerrado, no qual as raízes pernambucanas dialogam com sua experiência em Brasília.
Bois, mitologias e invenções do Cerrado
A presença do bumba meu boi ganha destaque com o Boi de Seu Teodoro, fundado em Sobradinho, em 1963, pelo mestre maranhense Teodoro Freire. O grupo mantém o sotaque da Baixada e encena a história de Pai Francisco e Mãe Catirina ao som de toadas e pandeirões.
Em outra vertente, Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro mostra como a tradição também pode nascer da invenção. Há mais de duas décadas, o grupo desenvolve uma mitologia inspirada nos mistérios do Cerrado e embalada pelo Samba Pisado, ritmo criado em Brasília e convertido em marca da identidade candanga.
Desse mesmo universo surge a Orquestra Alada Trovão da Mata. A formação conduz pelas ruas as figuras do Mito do Calango Voador em uma experiência que aproxima música, dança, teatro e circo. Já o Calango Careta encontra nos animais do Cerrado a inspiração para suas alegorias. Com uma orquestra de sopros e percussão acompanhada por artistas circenses, o grupo transformou-se em uma das expressões do carnaval de rua brasiliense.
A relação entre território, ancestralidade e protagonismo feminino também orienta Tawá-Tingá e o Coco das Onças. Realizado pela Casa Moringa, o cortejo reúne mulheres brincantes em torno da Onça, guardiã do Cerrado, e constrói uma narrativa atravessada por referências indígenas e afro-brasileiras.
Completando essa vertente, o Grupo Cultural Pé de Cerrado celebra 25 anos de trajetória dedicada à pesquisa das brincadeiras brasileiras. Em cena, a diversidade rítmica torna-se um convite à participação do público e ao reencontro com a dimensão coletiva do brincar.
Batuques de diferentes territórios
As matrizes afro-brasileiras atravessam parte significativa da programação. Fundado no Distrito Federal e ligado à Nação de Maracatu Leão da Campina, de Pernambuco, o Grupo Zenga Baque Angola promove a prática do maracatu-nação por meio da oralidade, da convivência e do aprendizado comunitário.
Do Rio Grande do Sul chega o Maçambique de Osório, Reinado Negro de matriz Banto mantido pela comunidade quilombola de Morro Alto. A manifestação preserva a devoção a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito e reafirma o pertencimento de seus integrantes à herança africana e quilombola.
A Guarda de Moçambique de Santa Efigênia, por sua vez, mantém no Distrito Federal a tradição do congado trazida de Carmo do Cajuru, em Minas Gerais. Sob a responsabilidade do capitão Wagner Alves, o grupo reúne diferentes gerações em torno da fé e da memória comunitária.
A programação se desloca ainda para o Norte do país com o Carimbó Beija-Flor de Marudá. A formação paraense traduz em música e dança a identidade da comunidade costeira de Marudá, em uma manifestação estreitamente ligada à vida social de seu território.
Bonecos, circo e teatro popular
O Teatro de Bonecos Popular do Nordeste ocupa seu próprio espaço no Encontro. Um dos representantes dessa tradição será o Mamulengo Fuzuê, grupo nascido em Taguatinga e hoje formado por artistas de diferentes regiões do Distrito Federal. Na dramaturgia de suas peças, recupera personagens tradicionais do mamulengo e adapta a brincadeira a diferentes espaços e públicos.
A linguagem também estará representada pelo Mamulengo Sem Fronteiras, companhia criada em 1996 e coordenada por Walter Cedro. Em suas obras, o grupo combina literatura de cordel e música. O circo completa essa linha artística com Herdeiras do Mestre, As Donas do Circo. Rosineide Amorim, Rita Amorim e Isabel Amorim revisitam a história da Cia. Circo Boneco e Riso em montagem protagonizada exclusivamente por mulheres, responsáveis por preservar e renovar o legado da família Zezito.
Patrimônios vivos, saberes em continuidade
A presença de manifestações reconhecidas como patrimônio cultural reforça o princípio que orienta o Encontro. A programação reúne Lia de Itamaracá, Patrimônio Vivo de Pernambuco; o Boi de Seu Teodoro e Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, Patrimônios Culturais Imateriais do Distrito Federal; o Maçambique de Osório, declarado Bem Cultural Imaterial no Rio Grande do Sul; e o mamulengo, expressão do Teatro de Bonecos Popular do Nordeste reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil.
Mais do que títulos institucionais, esses reconhecimentos valorizam as pessoas e comunidades responsáveis pela continuidade de cada manifestação. “Mais do que preservar manifestações culturais, mestres e mestras mantêm vivos modos de existir”, afirma Anderson Formiga, que assina a curadoria do projeto ao lado de Lucas Formiga e Danielle Freitas.
Nesse sentido, o patrimônio não deve ser compreendido como algo imóvel ou restrito ao passado. “Esses saberes permanecem vivos justamente porque são recriados a cada encontro, dialogam com os territórios e acolhem as transformações do presente”, observa Lucas Formiga.
A proposta curatorial também destaca que preservar não significa impedir mudanças, mas garantir condições para que os conhecimentos continuem sendo compartilhados. “Na cultura popular, tradição e inovação caminham juntas: há criação na continuidade e futuro naquilo que é ancestral”, conclui Danielle Freitas.
É com esse propósito que o Encontro de Mestres do Brasil reúne, em Brasília, artistas, grupos e comunidades de diferentes regiões do país. Em vez de tratar as tradições como registros de um tempo encerrado, a proposta destaca sua capacidade de dialogar com o presente, renovar linguagens e fortalecer os territórios nos quais foram construídas.
Concebida como um percurso de convivência, formação e celebração, a programação combina nomes de projeção nacional, grupos comunitários e manifestações criadas no Distrito Federal. Dessa maneira, Brasília torna-se ponto de convergência entre diferentes experiências e modos de compreender a cultura popular brasileira.
Memória como caminho para o futuro
Para Anderson Formiga, o Encontro reconhece essas lideranças como protagonistas da cultura brasileira e seus conhecimentos como parte fundamental da formação do país. “Mais do que valorizar o patrimônio cultural, o projeto reafirma a centralidade desses saberes na construção de um Brasil mais diverso, criativo e conectado às suas raízes. Ao reunir mestres, mestras, grupos e comunidades de diferentes regiões, transformamos Brasília em um território de convergência, troca e cooperação”, afirma o curador.
Lucas Formiga ressalta que o projeto aproxima diferentes maneiras de produzir e compartilhar conhecimento. “Não se trata de estabelecer hierarquias entre o saber acadêmico e o tradicional, mas de reconhecer que ambos se fortalecem quando caminham juntos. Os desafios do presente exigem múltiplos olhares, e a construção de futuros mais sustentáveis e humanos depende da nossa capacidade de integrar diferentes formas de conhecer o mundo”, observa.
Já Danielle Freitas destaca a dimensão contemporânea das culturas populares e sua capacidade de reconstruir vínculos. “A memória, neste projeto, não é algo parado: ela orienta escolhas, inspira encontros, desperta novas criações e conecta gerações. Quando uma mestra compartilha seu conhecimento ou uma pessoa jovem entra na roda, a tradição ganha novos caminhos, fortalece suas raízes e amplia sua presença no mundo”, conclui.
Assim, o Encontro de Mestres do Brasil transforma Brasília em uma grande roda nacional de saberes. Ao reunir nomes consagrados e manifestações enraizadas em suas comunidades, o projeto celebra a diversidade do país e cria condições para que memória, pertencimento e criação continuem abrindo caminhos para o futuro da cultura popular brasileira.
Sobre a Vale
A Vale acredita que a cultura transforma vidas. Pelo quinto ano consecutivo é a maior apoiadora privada da Cultura no Brasil, patrocinando e fomentando projetos em parcerias que promovem conexões entre pessoas, iniciativas e territórios. Seu compromisso é contribuir com uma cultura cada vez mais acessível e plural, ao mesmo tempo em que atua para o fortalecimento da economia criativa.
Serviço:
Encontro de Mestres do Brasil
Onde: Arena Conic – Setor de Diversões Sul
Quando: 27, 28 e 29 de agosto de 2026, a partir das 17h
Entrada: gratuita, mediante retirada antecipada de ingresso
Ingressos: https://shotgun.live/pt-br/festivals/encontro-mestres-do-brasil-2026
Classificação indicativa: livre
Patrocínio: Vale, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e FAC – Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal
Realização: Ibranova – Instituto Brasileiro de Inovação Cultural e Formiga Produções
Programação:
27 de agosto, quinta-feira
• 18h30 — Aula-espetáculo de Maracatu Rural (DF)
• 19h — Grupo Zenga (DF)
• 20h — Boi de Seu Teodoro (DF)
• 21h — Orquestra Alada Trovão da Mata (DF)
• 22h — Lia de Itamaracá (PE)
28 de agosto, sexta-feira
• 19h — Roda de samba / escola de samba (DF)
• 20h — Martinha do Coco e Jongo do Cerrado (DF)
• 21h — Adiel Luna, João Arruda e Alexandre Resende (DF)
• 22h — Pé de Cerrado e Mestre Wale Funió (DF)
• 23h — Mestre Ambrósio (PE)
29 de agosto, sábado
• 18h — Cortejo Tawá-Tingá (DF)
• 20h — Moçambique de Santa Efigênia (DF)
• 21h — Moçambique de Nossa Senhora do Rosário de Osório (RS)
• 22h — Adiel Luna, João Arruda e Alexandre Resende (PE)
• 23h — Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro (DF)
• 23h59 — Carimbó Beija-Flor de Marudá (PA)
Além dos palcos, o encontro transforma Brasília em espaço de transmissão de saberes com rodas de conversa, oficinas, vivências territoriais, formação em cenografia e feira ampliam a programação gratuita dedicada às culturas populares. Mais informações: https://www.instagram.com/mestres.do.brasil/; e inscrições: https://forms.gle/QiWLA2Yq39kNMECf6

















