“As costas desse céu que caiu no primeiro tempo tornaram-se a floresta em que vivemos, o chão no qual pisamos. Por esse motivo chamamos a floresta wãro patarima mosi, o velho céu, e os xamãs também a chamam de hutukara, que é mais um nome desse antigo nível celeste”

Davi Kopenawa no livro A Queda do Céu

Com absoluto respeito e cuidado, DOSSEL (Roberto Barrucho), nos propõe o lançamento de seu novo single, que é mais uma bela dança porvindoura em tempos de luta e desespero. Um respiro no caos, um suave mergulho profundo na ancestralidade e contundente reconexão com as raízes. A nova música, “Filho da Aldeia”, é um celebrado fragmento do trabalho que o músico vem desenvolvendo, e nos prepara para o seu novo álbum, Pouco Sol, ainda em construção. “A música é inspirada num provérbio africano que nos ensina que é preciso uma aldeia inteira para se educar, para cuidar de uma criança. Fala desse filho que virá, no caso, o futuro, e que precisamos preservar essas possibilidades de vida. Nos abrir por inteiros, dançar com as nossas sombras, é um chamado sincero para a plenitude do ser”, explica Barrucho.

A faixa também é um mergulho por nuances escolhidas com delicadeza, e nos convida a olhar por uma fresta de luz e adentrar numa floresta musical pulsante. Não uma floresta desconhecida de nossas consciências, mas uma floresta nativa de um Brasil pré-colonizado que não vimos, mas herdamos sua resistência. Pelos versos que seguem, a canção invoca a criação de uma realidade onde mora um povo que olha para o passado, apontando para o futuro. “Precisamos imaginar essa dança que é capaz de acolher nossas próprias sombras. Fincada na nossa própria história, a força motriz está na busca pelas raízes outrora esquecidas. É um convite para transmutar a um mundo novo, que fará seus próprios caminhos: essa criança que nos devora”, ressalta Dossel, citando a letra da música construída através de encontro de timbres vocais e sedimentada a partir de elementos percussivos, que vão nos fazendo firmar a pisada na melodia, nos conduzindo a um exercício leve e etéreo de espiritualidade.

O músico fala sobre a parceria com Jam da Silva, e nos conta detalhes sobre essa construção musical inédita que aconteceu de maneira fluida entre os dois. “Já tinha feito a harmonia de Filho da Aldeia. Pensava algo com piano e percussão. Logo depois conheci o Jam no baixo Botafogo, em 2019. Neste mesmo dia, já rolou uma super troca, nos identificamos nesta minúcia de lidar com os detalhes. Ele tem uma sensibilidade refinada, uma preocupação bonita com timbres, é exigente com nuances, e curte bastante minhas mixagens. Assim aconteceu, fui cantando intuitivamente, sampleando a base que ele fez. A música foi crescendo, o Jam chegou com a melodia, além de tocar também, compôs a melodia da música. Certeza que é só o início de uma parceria profícua que ainda virá”, ressalta Barrucho, que também contou com a participação do músico Pai Guga, vocalista da banda Amplexos e com baixo, synths e efeitos de Pipo Pegoraro.

LETRA ‘Filho da Aldeia’

Texto de abertura

‘Peço licença aos povos da floresta, à lenda da sereia Iara, Cabocla Jurema, todos os caboclos das aldeias nativas desse Brasil, povos originários que estavam aqui antes de todos, da chegada da doença, do pecado, do homem branco’

No escuro eu dancei
com sombras
e do barro eu vi surgir
a vida que me ronda

olha por essa fresta
repara a luz que vaza
entra em nossa floresta
esse rio não é raso

No escuro eu dancei
com sombras
e do barro eu vi surgir
a vida que me ronda

vai nascer
e Nanã dar forma
logo vai crescer
nessa redoma

eu quero ver você brilhar
por inteiro
e dos teus olhos
eu vi e sei que vai

eu quero ver você brilhar
por inteiro
vai nascer
os dias novos

vai luzir o bairro
e a aldeia toda
dessa criança
que nos devora

Ficha técnica

Letra Roberto Barrucho
Música Roberto Barrucho, Jam da Silva e Pai Guga
Percussões Jam da Silva
Vibrafone Thiago Kobe
Teclados e synth Martché
Baixo efeitos Pipo Pegoraro
Produção musical Roberto Barrucho e Jam da Silva
Pós produção e mixagem Pipo Pegoraro
Master Marco Pellegrino / AnalogCut Mastering

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