Nascido no Maranhão e criado em Brasília, Deo Garcez foi um dos primeiros estudantes da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes a ingressar na TV, atuando em clássicos como “Xica da Silva” e “O Cravo e a rosa”.

Existem bate-papos que rendem boas histórias. Em maio de 2010, pude entender e conhecer melhor esse artista que foi tão generoso comigo na elaboração de minha monografia. E é essa entrevista que compartilho agora com os leitores do Aqui Tem Diversão!

Deo Garcez

Deolindo Rodrigues Garcez (Deo Garcez) é ator e professor. Tem formação em Bacharelado e Licenciatura em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (1984 a 1987 e 1987 a 1989). Atuou como professor da FBT (Fundação Brasileira de Teatro) após conclusão do curso.

Ex-aluno de Dulcina de Moraes, Deo fez parte da terceira turma formada da FADM e revelou que na sua trajetória acadêmica pode realizar importantes trabalhos teatrais, como Barrela, de Plínio Marcos e As Criadas, de Jean Genet, aprendendo, na prática, como um ator deve se comportar num palco e na vida. Em nossa entrevista, nunca antes publicada, lembrou que teve ótimos professores e destacou Carlos Tamanini, com quem aprendeu a interpretar na prática, através de minucioso sobre o ensino de teatro.

A dificuldade para concluir o curso na Faculdade Dulcina existiu e a conclusão do mesmo se deu através de bolsa de estudos adquirida na época. Um importante dado foi levantado por Deo sobre sua relação com os colegas de turma, em sua dupla habilitação: “Desde essa época podia-se perceber que muitos colegas do bacharelado não seguiram em frente. Curiosamente os da licenciatura se sobressaiam no mercado. Fiz bacharelado, depois licenciatura.”.

Em Brasília, Deo participou de pequenos comerciais de televisão, mas nada muito abrangente. A vontade de fazer TV já existia neste ator formado especificamente em teatro e, com o intuito de aprender sobre esta linguagem, fez cursos de interpretação para televisão no Rio de Janeiro com diretores como Tizuka Yamazaki e Wolf Maia, que lhe deram a base para o processo de interpretação para vídeo. Em 1992, quando, mudou-se para o Rio de Janeiro passou a participar de testes paralelos ao curso e atuou na série Você Decide (Globo, 1992/ 2000). Sobre a dificuldade de um ator de teatro em contato com o processo de interpretação da TV, comenta que houve sim uma dificuldade natural da profissão no início, pois quando se está de fora do eixo Rio X São Paulo tudo fica mais complicado:

“Me joguei de cabeça. Não foi uma outra opção, mas a minha primeira. Me preparei no Dulcina e encarei o mercado da televisão. Quando cheguei ao RJ de Janeiro para fazer cursos de interpretação para TV pensei: ‘Onde estou?’ Queria entender. Tinha a consciência de que estava aprendendo. Foi um estranhamento. Vi o quanto precisava aprender a linguagem da televisão. Não podia ser só um ator do Dulcina formado em teatro.”.

Deo lembra que ser um ator negro em Brasília foi difícil. O preconceito existia, mas não foi suficiente para que ficasse desanimado. E ele não desanimou! A vontade de pesquisar e de experimentar o possibilitou participar da telenovela Xica da Silva (Manchete, 1996). Sobre a mudança na qualidade de interpretação entre sua primeira experiência, Você Decide, e a telenovela Xica da Silva, diz:

“Houve maturidade e vontade de experimentar. No Você Decide foi uma participação pequena. Em ‘Xica’ comecei a praticar mesmo. Hoje não gosto de brincadeirinhas na hora da gravação. Estou ali para trabalhar. O ator deve estar sempre vivo. Em novela, o trabalho é de todos. O sucesso não é de uma cena, mas da novela inteira. A continuidade, a técnica, todos são responsáveis pelo sucesso de uma trama. Quando a produção de arte não capricha, por exemplo, isso aparece no vídeo. A integração dos profissionais é essencial. Fico muito feliz pelo sucesso de ‘Xica’. Texto e direção eram ótimos. Não havia estrutura financeira como a Globo, mas superava-se pela criatividade. Era um retrato excêntrico do Brasil, da moralidade da época.”.

Deo Garcez

(Deo Garcez e Taís Araújo nos bastidores de “Xica da Silva”)

“Fiz testes para Xica da Silva. Avancini praticamente regeu minha interpretação. Dizia: ‘Isso não é teatro! Menos, mais natural. Abaixa o rosto, levante os olhos…’ Dizia também: ‘Olha! Concentra! Fica ligado que se não for legal coloco o quadro com outro ator’. Na dúvida, fazíamos todos com muita verdade cênica. Passei então a entender como era a televisão, sob as mãos de um ótimo diretor. ‘Xica’ era uma novela com explosões de temas excêntricos.

Ainda sobre Xica da Silva, Deo comenta que Avancini (o diretor da trama) dizia que para os atores atuarem um tom acima do sussurro e aos poucos isso se transformou em característica da novela. A ideia era a de que o público, quando trocasse de canal, ficasse curioso quanto ao que estava sendo exibido pela Manchete. Segundo ele, hoje em dia os atores gritam muito no vídeo e a emoção e a audiência não se conquistam pelo grito.

“Não sabíamos quem era o autor da novela. Os capítulos chegavam e gravávamos. Só na comemoração do último capítulo descobri que quem assinava o pseudônimo ‘Ádamo Angel’ era, na verdade, o Walcyr Carrasco. Fiquei contente com a reprise pelo SBT e até acompanhei alguns capítulos. Foi um sucesso.”, comenta.

Deo Garcez

Após Xica da Silva, Déo participou de telenovelas como Mandacaru (Manchete, 1997), O cravo e rosa (Globo, 2000/2001), Canavial de paixões (SBT, 2003), A Escrava Isaura (Record, 2004), a trilogia dos “Mutantes” (Record, 2007, 2008 e 2009), Carrossel (SBT, 2012) e O outro lado do paraíso (Globo, 2018). Para ele, o ator deve ser seu próprio produtor. Deve saber como e onde mostrar seu trabalho, tendo sempre muita dedicação e estudo, mesmo em telenovela, onde o tempo para pesquisa pessoal é limitado. Sobre sua participação em O cravo e rosa, novela atualmente em exibição no Canal Viva, pontua:

“Começo falando dessa novela com um conselho: Não espere nunca ser chamado por alguém. Deixe material seu em agências, faça testes, se mostre para o mercado! Lembro que liguei para o Walcyr, autor da novela, e pedi o papel. E ele escreveu o Ezequiel pra mim. Nesse momento pintou um estranhamento de minha parte. Era uma personagem escrita pra mim e isso faz um grande diferencial. Quando entrei nos estúdios e vi a estrutura da Globo, fiquei abalado. É sempre bom ter trabalhos para fazer. E sempre levo tudo o que aprendi sobre Stanislavski para interpretação na TV. Gosto de ler antes, compor a personagem. Em televisão é tudo muito rápido. Os capítulos chegam e você grava logo depois. Por isso a preparação é muito pessoal, por isso deve estar apto a fazer. Novela de época é difícil de fazer. O corpo é outro, o tom de voz também. A gente aprecia mais. Gosto muito.”

Deo Garcez

Outro importante trabalho para a televisão mereceu atenção do ator – A Escrava Isaura, readaptação do texto de Bernardo Guimarães, realizada pelo autor Thiago Santiago e dirigida por Herval Rossano em 2004, pela Rede Record:

“Achei o máximo ter feito A Escrava Isaura. Participar de um sucesso é sempre ótimo. A novela já prometia muito por ser outra versão da obra de Bernardo Guimarães para a televisão. Ao ler o roteiro, senti que a personagem André podia modificar minha carreira. Havia temática sobre libertação, luta contra o preconceito. Tenho no sangue e na alma a sensação dessa personagem. Sou negro. Através da personagem eu quis dizer coisas, mensagens. Sentia-me como um porta-voz da liberdade e igualdade. A novela foi um sucesso! Tive contrato renovado com a Record em função da minha dedicação. Foi tão bem aceito pelo público que em menos de um ano a novela passou de novo e depois foi novamente reexibida. Gosto de reprises. Rola uma certa avaliação, mesmo inconsciente. Gosto de rever. Mesmo vendo coisas que poderiam ser melhores, tenho a certeza de que dei o meu maior. Me dei inteiro.”.

Deo Garcez

A entrevista com Déo Garcez foi realizada em Botafogo, no Rio de Janeiro. Tempos depois, defendi a monografia na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e fui aprovado (que bom!)! Após alguns meses, fiz questão de encontrá-lo para mais um café, que acabou virando cerveja e que se estendeu pra uma linda celebração madrugada adentro, afinal, segundo ele mesmo, não dava pra comemorar um “SS” na porta de um bar. Fiz ali um amigo. Sempre acompanho suas publicações no Instagram e toda vez que vejo, um sentimento de carinho, gratidão e nostalgia tomam conta de mim.

Obrigado, Deo!

Deo Garcez

Anterior Hawk: steak bar & lounge
Próximo Primeira série brasileira bilíngue em libras e português