Há muito tempo acompanho e pesquiso a história da televisão. Alguns escritos vão se perdendo com o passar do tempo e agora, na Coluna Produção Cultural do site Aqui Tem Diversão, terei a oportunidade de revisitar e compartilhar alguns desses escritos com os leitores.

Aqui você que também gosta de televisão poderá acompanhar uma série de textos retirados de minha monografia, intitulada “O ensino de teatro da Faculdade Dulcina e o diálogo com o mercado da telenovela”, produzida há 09 anos. Obviamente, para essa série de textos, algumas modificações na estrutura original serão feitas pra leitura ficar mais interessante e dinâmica. Vamos lá?

No Brasil, obras de José de Alencar e Joaquim Manoel de Macedo foram publicadas em série de folhetins – era o início de um acompanhamento de novelas literárias. A partir dos anos 1940, através da formação e avanço de uma sociedade urbano-industrial (pós Segunda Guerra Mundial), vários setores da sociedade foram modernizados, marcando o início de uma “sociedade de massa” no Brasil. Este avanço se deu, por exemplo, através da publicação de folhetins e pela propagação popular do rádio, importante veículo de comunicação da década.

O rádio foi introduzido no Brasil em 1922. O acesso não era popular e sua programação mantinha característica erudita. Durante a década, experimentações sobre a utilização deste gênero foram realizadas e somente 19 emissoras foram abertas por todo o país. Sua popularização, como instrumento de comunicação e entretenimento, tomou forma na década de 1930. A contratação da Companhia de Rádio Teatro Manuel Durães, feita pela Rádio São Paulo, foi um grande acerto na época. Compunham o elenco da companhia atores de teatro como Otília Amorim, Edith de Moraes e Conchita de Moraes. Tendo como exemplo o pioneirismo da Rádio Record, que lançou em sua programação radioteatro em meados dos anos 1930, a emissora paulista Rádio São Paulo conquistou a liderança de audiência com a produção do radioteatro e, posteriormente, da radionovela. As Rádios Tupi começaram a executar programação semelhante nos anos 1940, fazendo desse gênero um novo marco na programação radiofônica do país. Já no começo da década, a legislação brasileira passou a permitir o uso de publicidade no rádio, fixando-a no início em 10% da programação diária.

Foram realizados a partir de 1938 programas de auditório e de músicas variadas, bem como a adaptação de peças teatrais em programas como Teatro em seu receptor, da Rádio Cultura, Teatro para você, da Rádio bandeirantes, sob direção de Octávio Gabus Mendes, que a introduziu trilhas sonoras e efeitos de sonoplastia aos radioteatros existentes, Rádio Teatro Cruzeiro do Sul, da Rádio Cruzeiro do Sul, Rádio Teatro Cosmos, da Rádio Cosmos, Teatro Gracioso, da Educadora Paulista, Teatro de brinquedos, série de radioteatro infantil, da Bandeirantes, Rádio Teatro Relâmpago, da Tupi e Grande Teatro Difusora, da Rádio Difusora.

Surge nessa época um nome que se tornou conhecido entre as produções de telenovela do país: Ivani Ribeiro, que adaptou para o rádio obras de Dostoiévski, Shakespeare e Tolstói, sendo depois uma das mais importantes dramaturgas do país ao escrever clássicos como Mulheres de areia, (Tupi, 1973/1974 e Globo, 1993), inspirada na radionovela A mulher que morreu no mar, da mesma autora e A viagem (Tupi, 1975 e Globo, 1994), assim como os autores de radioteatros e radionovelas Cassiano Gabus Mendes, Walter George Durst e Janete Clair, responsáveis, respectivamente, pelos sucessos da televisão como Que rei sou eu? (Globo, 1989), Gabriela (Globo, 1975) e Irmãos Coragem (Globo, 1970).

Nos anos 40 e 50 surgiram as radionovelas com grande popularidade em São Paulo. As histórias eram brasileiras, mesmo que entre uma e outra houvesse uma adaptação de obras cubanas, mexicanas e venezuelanas, colocadas ao ar pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Nesta época, surgiram os primeiros indícios de propagandas no rádio. As empresas patrocinadoras começaram a ser associadas com os produtos aos quais apoiava. Vinhetas e jingles auxiliaram na assimilação da radionovela a uma marca. Renato Ortiz pontua no livro A moderna tradição brasileira – Cultura Brasileira e Indústria Cultural que:

“As radionovelas, concedidas originalmente como veículo de propaganda das ‘fábricas de sabão’, visavam aumentar o volume de vendas de produtos de limpeza e toalete, comprados principalmente pelas mulheres. Com a expansão das empresas americanas na América Latina (Colgate-Palmolive e Gessy Lever) buscou-se aclimantar a american-soap ao interesse folhetinesco das mulheres latino-americanas. Nascem assim as radionovelas, que, primeiramente, florescem em Cuba, sob o patrocínio dos produtos de sabão de detergente, e são, em seguida, exportadas para o resto do continente como técnica de venda e comercialização de produtos.”.

As empresas Colgate-Palmolive e Gessy Lever, aumentaram cerca de sete vezes o faturamento das emissoras de rádio e mantiveram os títulos de patrocinadoras oficiais de muitas radionovelas e telenovelas da TV Tupi, Excelsior e TV Globo entre os anos 1950 e 1970. As agências publicitárias eram responsáveis por cuidar de toda a parte técnica da produção de uma radionovela. Eram responsáveis, também, pela contratação de quem escrevia, de quem produzia, dirigia e do próprio elenco. As emissoras, devido à ausência de uma conscientização mercantil, funcionavam como detentoras da rede (frequência), somente.

Cada emissora pretendia ter maior popularidade junto ao público ouvinte. Isso seria o diferencial para que o anunciante a escolhesse para investir na próxima adaptação radiofônica – como ocorre até hoje. Um programa de radioteatro patrocinado pela Gessy Lever com título curioso foi Teatro de romance do Extrato de tomate marca Peixe. Mas houve também inusitados títulos de programas como Teatro Good-Year, Recital Johnson, Rádio Melodia Ponds, Telenovela Mappin e Telenovela Nescafé, conforme lembra o pesquisador de cinema e tevê Flávio Porto e Silva (apud) no livro de David José Lessa Mattos – O espetáculo da cultura paulista – Teatro e TV em São Paulo: 1940 – 1950.

Dentre as radionovelas de sucesso realizadas durante a década de 1940, vale a pena destacar Fatalidade, de Oduvaldo Vianna, produzida pela Rádio São Paulo e Em busca da felicidade, do latino-americano Leandro Blanco. Estas duas foram radionovelas de sucesso por apresentarem modernas formas de execução, com tratamento especial em trilha sonora, escrita, geralmente em três capítulos semanais.

As revistas de fotonovelas, como Grande Hotel (1951) e Capricho (1952) – esta última veiculada até hoje, com temática voltada ao público adolescente – passaram a ser produzidas devido ao sucesso das obras adaptadas para o rádio. Enquanto o rádio seguia com sua programação, Assis Chateaubriand, empresário representante dos Diários Associados do estado de São Paulo, em seu desejo de instaurar a modernidade nos meios de comunicação, manteve constante diálogo com equipes norte-americanas representantes da RCA Victor Television, empresa que forneceu os equipamentos necessários para a inauguração da emissora, depois de negociações com empresários e apoio do governo brasileiro e fundou a TV Tupi, a primeira emissora de TV da América do Sul, fazendo do Brasil o quinto país do mundo a ter canal comercial.

TUPI

Inaugurada oficialmente em 18 de setembro de 1950, a TV Tupi São Paulo representou o avanço dos meios de comunicação brasileiros, com uma linguagem técnica específica de programação voltada para o futuro. A companhia cinematográfica Vera Cruz e o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), inaugurados na década de 1940, viam na televisão o exemplo de uma categoria inferior de arte.

(Reprodução. Trecho de Assim é se lhe parece, de Luigi Pirandello, com Fernanda Montenegro, Labanca e Zilka Salaberry. TV Tupi/ RJ, 1961)

Os grupos teatrais que migraram para a televisão não mudaram muito as estruturas dramáticas típicas de sua arte, embora a tevê exigisse uma nova forma de interpretação, voltada para a câmera. Espetáculos eram preparados na íntegra e encenados para transmissão. Os produtores de teleteatro passaram a preocupar-se com uma estética específica para o teleteatro, adaptando o teatro às tecnologias televisivas. Neste momento, alguns atores de teatro passaram a ver a tevê como uma rival do gênero dramático teatral, que exigia modificação cênica (da técnica) para um novo padrão de interpretação. A preocupação com a adaptação aos novos meios técnicos propostos pela tevê era vista como uma submissão a essa nova ferramenta pública.

A programação da Tupi não fora definida ao certo, visto que não havia um padrão a se seguir no Brasil. Pouco a pouco, a emissora foi ganhando característica própria. A faixa de programação O Grande Teatro Tupi, conhecido também como Teatro Sergio Britto, foi a primeira escola de teledramaturgia de televisão brasileira e teve grande influência da radionovela, já popular no país. Destacam-se entre o grupo pioneiro neste período dos anos 1950 e anos 1960 nomes como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Nathália Timberg e o próprio Sergio Britto, atores participantes da Companhia de Teleteatro do Rio de Janeiro. As adaptações de clássicos do teatro e literatura mundiais como Terras do Sem Fim, de Jorge Amado, Assim é se lhe parece, de Luigi Pirandello, A dama de cachorrinho, de Thekov, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde e O inimigo do povo, de Henrik Ibsen, foram apresentadas na televisão em transmissões com cerca de quatro horas de duração e ficavam a cargo de um jovem escritor, que levava à tevê a linguagem teatral, hoje conhecido escritor de telenovelas brasileiras, Manoel Carlos. Era o teatro feito para a televisão. No início, as obras eram levadas à tevê em transmissões “ao vivo”, visto que o videotape só chegaria ao Brasil em 1962.

A televisão, precisamente a TV Tupi, tinha cerca de duas horas diárias de programação em seu primeiro ano (1950), com início às 17h e fim entre 19h e 20h. Na sua grade de programas, que não seguiam propriamente uma lógica semanal, havia musicais com grandes nomes do rádio, filmes enlatados, desenhos animados como Picapau, noticiários, teleteatros, números de dança, humorísticos e documentários.

O primeiro teledrama nacional foi adaptado a partir de um filme americano – A Vida por um fio – e teve autoria de Cassiano Gabus Mendes, futuro dramaturgo da televisão brasileira, em 1951. A Tupi transferiu suas programações, centradas primeiramente em São Paulo para o Rio de Janeiro (em 1951). Belo Horizonte (em 1955) e Porto Alegre (em 1959).

(Reprodução: Cartazes de lançamento das novelas “A Deusa vencida” e “Em busca da felicidade”)

O advento do teatro, do rádio e da televisão em São Paulo na década de 1940 foi significante para a constituição de uma indústria cultural brasileira. A cultura de massa e a cultura de elite contribuíram para que o estado se tornasse um importante eixo de arte e comunicação do país. Os primeiros empresários da televisão trabalhavam nela tendo por base o empirismo. Só com o passar dos anos é que o processo de metodização do trabalho começou a ser valorizado. O anunciante, na maior parte das vezes, era quem ditava as regras de programação. Por falta de informação, os representantes de emissora não sabiam ao certo quanto cobrar pelos anúncios que sequer tinham um padrão pré-estabelecido de criação e execução. Os intelectuais passaram a atuar dentro da dependência da lógica comercial e, por fazerem parte do sistema empresarial, tinham dificuldade em construir uma visão crítica em relação ao tipo de cultura que produziam.

A telenovela, como um avanço da radionovela, surgiu no Brasil em 1951 e manteve por três anos características de obras cubanas e de outros países da América Latina. Em 1954, adaptações de autores populares, como Victor Hugo, Alexandre Dumas e Charles Diekens foram introduzidas nas produções da televisão e refletiam uma tentativa de imprimir ao gênero uma posição intelectual superior de produção. O preconceito de outros grupos culturais e artísticos sobre esta categoria, tida por eles como detentora de uma forma dramática menor, não impediu a produção ousada de tramas que, mesmo com qualidade duvidosa, executavam seu processo de experimentações.

(Reprodução: Gravação de “Sua vida me pertence” – Walter Foster e Vida Alves/ Luiz Gustavo como Beto Rockfeller/ Sergio Cardoso maquiado como negro em “A cabana do pai Tomás”)

O teleteatro e o teatro na televisão foram instintos e substituídos pela telenovela diária. Em 1964 o Grande Teatro Tupi saiu da grade de programação e em 1967 o programa TV Vanguarda, também da Tupi, chegou ao fim, encerrando um ciclo de teleteatro da televisão e abrindo espaço para a novidade da telenovela. Autores e atores tinham que se desdobrar para a demanda de trabalho na tevê. Ivani Ribeiro chegou a ter duas novelas no ar ao mesmo tempo. A escala de elenco também sobrecarregava os atores. Alguns chegavam a gravar papéis diferentes para mais de uma novela exibida num mesmo período. Não é a toa que no início dos anos 1970 era comum ter Glória Menezes, Tarcísio Meira, Francisco Cuoco, Regina Duarte, Cláudio Marzo e Yoná Magalhães intercalando seus papéis ou emendando um trabalho no outro.

As produções audiovisuais da televisão tinham como predominância as referências latino-americanas, mas, a partir da década de 1960, textos de dramaturgos nacionais como Plínio Marcos, Oduvaldo Viana Filho, Vinicius de Moraes e Jorge Amado foram introduzidos nas produções em prol de uma identidade nacional na televisão.

A televisão no Brasil tem quase 70 anos e é necessário entender que o avanço de seu conteúdo não se deu apenas em termos técnicos, pois o público mudou, cresceu e se transformou. A televisão mudou e os meios de comunicação também mudaram, tomaram forma e se propagaram a cada dia. O avanço na aquisição de canais pagos demonstra o desejo de mudança da sociedade. As mídias digitais, com início de sua popularidade em meados dos anos 1990, no Brasil, passaram a ser novas fontes de entretenimento e transmissoras de informação, diminuindo gradativamente a hegemonia da televisão, tida por muito tempo (e talvez até hoje) como mais forte veículo de comunicação no país. Porém, é sempre bom pensar que no avanço da indústria cultural brasileira, o público é quem deve estar sempre na frente.

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