Da calçada para o museu


Da calçada para o museu: o espaço para pedestres no Eixo Monumental inspira a exposição de Regina Pessoa. A artista prova que a arte está em tudo, inclusive nas “Calçadas”

Largos espaços destinados à movimentação dos carros e estreitos espaços destinados ao caminhar do pedestre. As calçadas de Brasília, ora movimentadas ora esquecidas, deixa claro a quem pertence a rua – e não é a quem opta (ou não) por traçar os caminhos pelas próprias pernas. Vez ou outra ocupam as calçadas o jornaleiro entregando a série de papeis no sinal, os artistas de trânsito ou os ciclistas que enfeitam as ruas eventualmente e mostram que ainda há vida nas falhas criadas pelo tempo no chão. Essas falhas inspiraram a artista Regina Pessoa, que agora expõe seu trabalho em “Calçadas”.

Assim como o nome sugere, a exposição, com curadoria compartilhada de Ralph Gehre e Renato Lins, retrata os trabalhos resultantes da apropriação de uma faixa cimentada de passeio público localizada nas proximidades do Museu Nacional da República. Como isso foi possível? São trabalhos com dimensões variadas estampando papeis, em sua maioria leves e transparentes produzidas diretamente no espaço urbano – e aberto. O trabalho foi feito em quinze lajotas de concreto no chão. “Essa mancha pictórica, resultado provável da ação do tempo e do acaso, fica ao lado de um semáforo. Foi assim, de dentro de um carro, que pude observa-la”, comenta a artista.

“É estranho como na naturalidade e cotidiano da vida, por completo acaso, tropeçamos em coisas dispersas no mundo que nos prendem a atenção de modo singular, a ponto de mudar nossas vidas. Esses encontros despertam uma espécie de noção de pertencimento, como se no mundo estivessem dispersos códigos ou pistas para que, na condição particular de cada um, nós pudéssemos juntá-las, descobrindo um pouco mais sobre nós mesmos e sobre o próprio mundo”, afirmam os curadores Ralph Gehre e Renato Lins.

O material vêm sendo produzido desde o fim de 2014, quando Regina finalmente teve o insight de captar as imagens contidas na extremidade desta calçada. De lá pra cá, mais de 40 obras foram produzidas, todas elaboradas a céu aberto e acompanhadas de registro fotográfico. A artista se vale da técnica de frotagge – do francês, “frotter”, em português, “friccionar” –, utilizando materiais tais como grafite, carvão e terra, na busca da apreensão/descrição das texturas existentes. “Optei pela frotagge com o desejo de capturar, de forma intima e direta, as tramas e texturas dessa calçada plana e pouco movimentada. Fora do atelier e sujeita às intempéries, terra e chuva somaram-se aos papeis e materiais de arte que fui experimentando ao longo do processo, e a outros não tão usuais, como vassouras, rodos e panos de chão. A construção das obras foi movida por questões formais, interesse que se manteve durante toda a série, além de uma gradativa sensação de pertencimento”, explica.

“Para Regina Pessoa a cidade constitui interesse como lugar de ocor¬rência da vida. Regina entende o chão como Terra, superfície para se tocar com as mãos, lugar de origem do pensamento e do vínculo. Ao lidar com a solidez do cimento curado, Regina nos induz a pensar no oposto, em tudo o que não é matéria, pondo-nos a imaginar outra substancia, como a dos sonhos. Podemos indagar se isso é possível, se independe de acidentes, de acontecimentos reais que a conduzam, ou se pode ser ocasião de uma ocorrência original”, completam os curadores.

A experiência – que beira um estudo comportamental – ficará exposta entre os dias2 a 28 de agosto próximo às ruas que a inspiraram, no Museu da República Nacional em Brasília. No dia 16 de agosto será lançado ainda o catálogo com mais de 80 páginas que convidam o expectador a observar as calçadas com os olhos da artista. Os materiais foram diferenciados e exóticos. A artista se muniu de borrachas, estilete, rodo, meias, retalhos de tecido, papéis diversos além de grafite em pó e em bastão, pastel seco e oleoso, carvão vegetal, pigmentos coloridos, nanquim, cola e terra in natura.

A exposição trata-se de um projeto com patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura do DF(FAC) epropõe ainda que o expectador experimente a sensação que a artista teve ao observar as imagens formadas nas calçadas e pretendeatingir diferentes estratos sociais dentre os frequentadores do museu. A seleção das obras e o projeto expográfico, leva a assinatura dos curadores efoi elaborado de forma quealguns desenhos estarão suspensos diretamente contra a parede enquanto outros serão emoldurados em grandes caixas sobre o piso, fazendo visível a passagem do trabalho desde a origem de registro até alcançar a categoria de obra.

Serviço

“Calçadas”, de Regina Pessoa com curadoria compartilhada de Ralph Gehre e Renato Lins e patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC)www.reginapessoa.com

Visitação: de 3 a 28 de agosto de 2016 – de terça à domingo
Horários: das 9h às 18h30
Local: Galeria Térrea do Museu da República
Lançamento de catálogo: 16 de agosto, às 19h

Entrada Franca

VISITAS GUIADAS
CURADORIA: o projeto CALÇADAS oferece duas visitas guiadas pelos curadores acompanhados da artista. Esta ação visa enriquecer as possibilidades de “leitura” das obras por parte do público, bem como criar estímulos para novas visitações e formação de público. A ação está prevista para os dias 6 e 16 de agosto.

ACESSIBILIDADE: na tarde do dia 20 de agosto, haverá uma visita guiada especialmente para surdos, com a presença da artista, da monitora e de um interprete de LIBRAS.

MONITORIA: durante os dias da exposição no período da tarde, haverá a presença de uma monitora, de forma a promover a mediação entre a exposição e o público.

AÇÃO EDUCATIVA
O projeto prevê um encontro da artista com uma turma de estudantes da Escola Parque da 308 Sul. Contará com a explanação da artista acerca de seu processo criativo, uma visita guiada à calçada, próxima à galeria, e, por último, como culminância do processo, a visita guiada à exposição.

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