Cerrado Seco transforma caso real em thriller psicológico sobre memória, silêncio e impunidade, com Brasília como cenário simbólico da narrativa
Em um momento em que o cinema brasileiro reafirma sua força ao revisitar a memória nacional por meio de narrativas densas e investigativas (como demonstram recentes produções premiadas mundo afora) Cerrado Seco surge como parte desse movimento ao propor um olhar inquietante sobre trauma, silêncio e impunidade no Planalto Central dos anos 1973 e 2005. Comprometido com fatos e evidências, o longa utiliza a ficção para explorar aquilo que permanece: as marcas deixadas por histórias que nunca foram completamente encerradas.
Inspirado no caso real que chocou o Brasil, o da menina Ana Lídia em 1973, o filme mergulha em uma narrativa de suspense psicológico, reconstruindo o impacto do caso sobre a família e a sociedade ao longo do tempo. A partir dessa premissa, o longa propõe uma experiência imersiva em que memória, poder e desejo por vingança se entrelaçam. Um thriller que revela como o passado enterrado de uma elite pode transformar vítimas em suspeitos e a verdade em perigo.
Ambientado em uma capital marcada por suas contradições, o filme também transforma Brasília em elemento central da narrativa. Mais do que cenário, a cidade assume papel simbólico e dramático: uma cidade de beleza, cultura, poder, ganância e luxúria. A arquitetura modernista, a arte, os vazios urbanos e monumentos, o ar bucólico e a atmosfera institucional servem de fundo para uma linguagem cinematográfica que tenciona controle e instabilidade, enquanto apoia-se na tradição do cinema noir.
Com direção de Bruno Caldas, Cerrado Seco aposta na convergência entre thriller, drama e investigação para dialogar com diferentes públicos, sem abrir mão da densidade autoral. O diretor, cuja trajetória inclui trabalhos voltados para narrativas de forte carga social e estética sensorial, como seus curta-metragens “Colapso” e “De Repente” e os documentários Utopia Distopia (Canal Brasil) e A Terceira Margem, constrói agora um filme que se insere no fortalecimento do cinema de gênero no Brasil, aliando suspense à reflexão crítica.
A produção conta com equipe majoritariamente brasiliense, tanto no elenco e produção, quanto na direção e equipe técnica, com diretores de equipe que, mesmo com vasta trajetória, estreiam em seu primeiro longa-metragem, como o fotógrafo Elder Miranda Jr., a diretora de arte Carmem Santhiago e o próprio diretor do longa, Bruno Caldas. No elenco, o protagonista é representado pelos atores Rafael Vitti e João Vitti, pai e filho interpretam o mesmo personagem em duas épocas, juntos pela primeira vez em um filme para trazerem camadas emocionais e fidedignas.
Atualmente em fase final de gravações na capital federal, o filme foi rodado ao longo das últimas semanas em locações que dialogam diretamente com sua proposta estética e narrativa. A produção conta com fomento da Lei Paulo Gustavo (LPG) e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), evidenciando a importância do investimento público na consolidação de projetos que aliam relevância social e potencial de alcance.
No Brasil, casos de desaparecimento e violência contra crianças continuam a gerar comoção e, em muitos casos, permanecem sem resolução definitiva. Ao tocar nesse universo, Cerrado Seco não busca respostas diretas, mas propõe um espaço de reflexão sobre memória, justiça e responsabilidade coletiva. Ao deslocar o foco do crime para suas consequências, o filme se posiciona como catalisador de debate em torno das histórias que permanecem abertas.
Com planos de circulação em festivais nacionais e internacionais, o longa mira tanto o circuito de prestígio quanto o público amplo, dialogando com o interesse global por narrativas de true crime e investigações não resolvidas, ao mesmo tempo em que reafirma a potência do cinema brasileiro contemporâneo.

















