Em exposição no Museu Nacional da República, fotógrafo ícone do fotojornalismo e da fotografia autoral retorna aos espaços íntimos em mostra dedicada à beleza das pequenas coisas

Um dos principais nomes do fotojornalismo brasileiro, professor que formou e inspirou várias gerações de fotógrafos e fotojornalistas de Brasília e do País, cofundador da Universidade de Brasília (UnB) e criador do Instituto de Artes da mesma instituição, Luis Humberto inaugura no dia 20 de novembro, terça-feira, às 19h30, a mostra “A reforma do olhar possível”.

De sua mais recente produção, as 45 obras que compõem a exposição fazem parte da série fotográfica homônima foram realizadas pelo artista a partir do olhar de uma pessoa com limitações físicas para se locomover e dificuldades para segurar objetos. A curadoria e a edição são do próprio fotógrafo, que contou a assistência curatorial de Rinaldo Morelli e Usha Velasco e a expografia de Ralph Gehre.

A mostra fica em exibição na Sala 2, Piso Térreo do Museu Nacional da República, em Brasília, até o dia 5 de janeiro de 2019, com visitação de terça a domingo, das 9h às 18h30. O Museu Nacional da República fica na Esplanada dos Ministérios, Brasília – DF. A entrada é franca e a classificação indicativa é livre para todos os públicos. A mostra “A reforma do olhar possível” é realizada com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal.

Aos 84 anos, o espírito investigativo segue intocável. O título da série que dá nome à exposição reflete a inquietação e o inconformismo. “A reforma do olhar possível” traz em si uma “dupla militância do possível”, tanto do olhar quanto da reforma. “É algo sempre penoso. O olhar também é submetido aos novos limites. Agora, meu olhar passa a navegar em outros mares”, afirma.

Crítico de sua obra, não se permite fazer concessões ao seu próprio trabalho. Luis Humberto é o curador e o editor das imagens que compõem a mostra. “A responsabilidade pela obra é do autor”, afirma. E ressalta que o fotógrafo está sempre procurando descobrir o desconhecido, resgatar uma importância não percebida e doar aos outros o resultado de suas investigações. Para além de fotografias meramente informativas, a obra de Luis Humberto traz para o público um olhar crítico e ao mesmo tempo lírico. A cor e a luz são amplamente usadas como elementos da linguagem fotográfica.

A mostra reúne as fotos que começou a realizar há pouco tempo, resultado de um processo de mudança de paradigma do fotógrafo, sua relação com a câmera e o espaço. As 45 imagens apresentadas na mostra surgem das limitações impostas ao fotógrafo devido à obrigação de usar cadeira de rodas. No entanto, não poder andar e ter que ficar boa parte do tempo sentado não lhe impedem de olhar o universo ao seu redor e observar e retratar a luz que entra pela janela ou os objetos que parecem banais.

Temas como a vida no espaço limitado entre quatro paredes – física ou metaforicamente –, o cotidiano familiar e a proximidade do objeto fotografado a uma distância relativamente curta são uma recorrência na produção de Luis Humberto: “Trabalho com a minha própria herança”, diz ao citar a série “Paisagens domésticas”, onde retratou os filhos pequenos, o dia a dia da casa, entre outras cenas domésticas. “Fiz essa série que durou uma década, de 1974 a 1984.

Há certas áreas vedadas que dizem não podem ser feitas, porque alguém já fez. Fiz por mim e fui descobrindo a casa”, afirma. O fotógrafo fez o mesmo com a série “Cerrado”. Ao longo de 13 anos produziu intensamente fotografias de flores, árvores, arbustos, porque diziam que o Cerrado era “feio, baixinho, retorcido que não era possível encontrar beleza nele”. Essas fotos faziam parte de sua pesquisa de doutorado em Arquitetura e Paisagismo interrompido em 1964 com a ditadura militar. Ainda assim, seguiu com o trabalho, mesmo que nunca o tenha apresentado.

As fotos que produziu ao longo de sua extensa carreira no fotojornalismo, desde meados da década de 1960, até sua produção autoral, mostram um indivíduo interessado em olhar para os detalhes que compõem e dão sustentação a uma grande cena pictórica. Nestes detalhes, que podem ser pontos de cor ou luz em uma foto de uma multidão que caminha na rua, crianças correndo na Praça dos Três Poderes ou cenas do poder, residem a sustentação e o entendimento da importância da obra do artista. Segundo o fotógrafo e professor Salomon Cytrynowicz, trata-se de um mergulho onírico na intimidade do cotidiano”, onde “a luz filtrada por janelas, persianas e cobogós é a principal atriz: transforma objetos banais em arte”.

Em “A reforma do olhar possível”, Luis Humberto retoma a ideia de que tudo ainda está por ser descoberto em especial nas coisas mínimas. Na mostra que abre no Museu Nacional da República, o fotógrafo aborda as várias possibilidades da fotografia. “A arte é uma só, o resto são derivações. Não muda a natureza. Ela existe pelo simples fato de que alguém criou alguma coisa. Nesse sentido, a fotografia compõe uma das vertentes das artes, que como linguagem, tem valor transformador e como tal não pode ser feita ou vista como algo gratuito”, completa.

Sobre Luis Humberto

Carioca radicado em Brasília desde 1961, Luis Humberto foi cofundador da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto de Artes da mesma instituição, onde fez parte do primeiro grupo de professores, ao lado de Athos Bulcão, Alfredo Ceschiatti, Zanine e Glênio Bianchetti. Formado em arquitetura no Rio de Janeiro, mudou-se para Brasília em 1961 para trabalhar na equipe que projetou o campus da UnB, sob o comando de Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro.

Junto com outros duzentos professores, demitiu-se da universidade em 1965, em protesto contra as intervenções do governo militar no campus. Em 1966, tornou-se fotógrafo profissional e revolucionou o fotojornalismo brasileiro com suas imagens incomuns, focadas no que ia “além do óbvio, o que escapava à rigidez do poder”. Passou por diversos veículos de comunicação, como as revistas Veja (1968/1978) e IstoÉ (1978/1982), foi diretor de arte e editor de fotografia do Jornal de Brasília (1973), revista Cláudia, entre outros.

No início dos anos 1980, criou e coordenou o Centro de Criatividade do hospital Sarah Kubitschek (atual Rede Sarah) e o Programa de Ação para a Comunidade e a Divisão de Foto-Imagem da mesma instituição. Em 1985 e 1986 foi diretor da Fundação Cultural do Distrito Federal e do Teatro Nacional de Brasília. Em 1986 voltou a dar aulas na UnB no Departamento de Comunicação, onde criou as disciplinas Análise da Imagem e Políticas Culturais. Segundo a historiadora Simonetta Persichetti, “é quase impossível falar de fotojornalismo sem citar o papel de Luis Humberto no desenvolvimento dessa linguagem”.

Publicou os livros fotográficos “Brasília, sonho do império, capital da república” (1981); “Luis Humberto” (2003) e “Do lado de fora da minha janela, do lado de dentro da minha porta” (2010). É também autor de dois livros de textos: “Fotografia, universos e arrabaldes” (1983) e “Fotografia, a poética do banal” (2000), que integra a bibliografia básica sobre fotografia em universidades por todo o país. Escreveu mais de uma centena de artigos sobre fotografia e políticas culturais, publicados em revistas e jornais, e participou de diversos livros de (e sobre) fotografia. Em 2008 sua biografia e sua obra foram temas do livro “Luis Humberto: a luz e a fúria”.

Serviço

A reforma do olhar possível
Fotografias
De Luis Humberto
Edição de imagens e curadoria: Luis Humberto
Assistentes de curadoria: Rinaldo Morelli e Usha Velasco
Expografia: Ralph Gehre
Local: Sala 2, Piso Térreo
Museu Nacional da República
Endereço: Esplanada dos Ministérios
Brasília – DF
Inauguração: 20 de novembro, terça-feira, 19h30
Visitação: De 21 de novembro de 2018 a 5 de janeiro de 2019
De terça a domingo, das 9h às 18h
Entrada: Franca
Classificação indicativa: Livre para todos os públicos

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