A vida é cangaço. A Terra (coletiva) tem atiçado e se atiçado com dinâmicas de descontinuidade da lógica de pacificação, neutralização e homogeneização existencial. Essa é uma das diretrizes da Terra, que é um bando impermanente permanentemente aberto para acoplagens de corpas que pretendam inserções críticas em contextos de acesso restrito – que a partir de 13 de fevereiro, ocupa a galeria de Bolso da CAL, com a exposição A Morte do Plano Piloto, selecionada pela Convocatória CAL 2017.

Composta pelo dispositivo Monumento ao Homem Branco e uma videoinstalação homônima ao nome da exposição (3’ 14/ loop), inédita, a mostra é uma anunciação da derrocada dos sonhos injustos da branquitude, de acordo com as artistas.

Um dos acionadores da instalação é o que aconteceu com o jovem negro Rafael Braga, catador de materiais recicláveis que, em 20 de junho de 2013, foi detido como incendiário por policiais no Rio de Janeiro quando saía do local onde morava com duas garrafas de plástico, uma de pinho sol e outra de água sanitária.

Foi o único condenado pelas manifestações de 2013, mesmo com o laudo apontando que as garrafas que levava não tinham a menor possibilidade de provocar incêndio. A exposição também rememora os 60 anos da chacina de trabalhadores no alojamento da Pacheco Fernandes Dantas, que aconteceu em fevereiro de 1959, na Vila Planalto, durante a construção de Brasília.

Em 2016, o Monumento ao Homem Branco permaneceu um mês em estado de composição/decomposição no Museu de Arte Contemporânea Dragão do Mar, no Ceará, quando foi articulado com ações de diversas outras coletividades implicadas em ações antirracistas.

As integrantes do Terra contam que foi uma experiência bastante complexa, pois, por se tratar de uma situação que gera tensão e provocação, isso suscitou diferentes tipos de implicação nas pessoas que resolveram seguir a orientação dada na exposição. “Também foi um momento de construção de uma atmosfera fronteiriça, que extrapolava o espaço do museu, mas principalmente, fez transbordar os possíveis da ativação nos espaços denominados como “da arte””, revelam.

A mostra também se constitui de um programa público de ciclos de encontros para munição de vocabulário estratégico; dissolução dos complexos psíquico-penitenciários; ampliação do espaço existencial dos sonhos dissidentes; amplificação de profecias de vida sobre povos perseguidos; orientação por bússolas afinadas por ancestrais do futuro>presente<passado; convocação da sabedoria de pulsação da Terra para os corações aflitos; e interpelação para implicação das elites brancas e mestiças na problemática das tensões raciais: processo contínuo de conhecer, desmistificar e posicionar-se.

A Terra é formada por artistas/escritoras/curadoras que buscam, a partir da formação do bando, articular as possibilidades de dissolução da autoria e experimentar as possibilidades da realização coletiva. Estão envolvidas com a construção do Museu do Sexo das Putas, em Belo Horizonte, com as lutas pela terra de Povos Originários, no Ceará, e com as potências da vivência negra, travesti e nordestina em projetos diversos.

Serviço

Exposição A Morte do Plano Piloto
Abertura: dia 13 de fevereiro de 2019 (quarta-feira), às 19h
Onde: Galeria de Bolso da Casa da Cultura da América Latina da UnB (CAL)
SCS Quadra 4, Edifício Anápolis. Telefone 3107.7971,
Visitação: 14 de fevereiro a 2 de abril de 2019, todos os dias, das 9h às 19h
Entrada franca
Classificação: livre

A Morte do Plano Piloto
A Morte do Plano Piloto | Foto: Divulgação
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