Malice apresenta Sob a Pele, álbum de 15 faixas que mistura stoner rock, blues, desejo, vulnerabilidade e recomeços em uma nova fase criativa da banda

Quinze faixas, uma nova formação e a vontade de descobrir até onde a própria criatividade poderia levar a banda. Em “Sob a Pele”, a brasiliense Malice transforma esse exercício em um disco que atravessa recomeços, vulnerabilidade e desejo enquanto amplia a sonoridade apresentada pelo grupo desde seus primeiros trabalhos.

Malice

Produzido, mixado e masterizado por Ricardo Ponte, o álbum mantém o peso do stoner rock que acompanha a Malice desde o início, mas incorpora de maneira mais evidente referências do blues rock, especialmente nos slides de guitarra, em timbres mais crus e em uma dinâmica que permite às canções transitarem entre a intensidade e momentos mais intimistas.

A mudança acompanha também uma nova etapa na história do grupo. Criada por Beatriz Nobre em 2018, a Malice lançou seu primeiro EP em 2019 e teve a trajetória interrompida pouco depois pela pandemia. Bia continuou compondo e, ao longo dos anos seguintes, passou a desenvolver novas músicas ao lado de Diego Castro, amigo desde a infância. A parceria cresceu até os dois assumirem juntos a direção criativa da banda.

“Foi uma coisa muito mais autêntica. Eu aprendi a tocar guitarra também para compor e conseguir traduzir no instrumento o que estava pensando. Compartilhar isso com uma pessoa que você conhece desde que nasceu muda completamente a forma como você se vulnerabiliza durante a criação”, conta Bia.

Hoje, Bia assume voz e guitarra, Diego toca guitarra e slide, Vinícius Arbués fica responsável pelo baixo e Marcelo Melo, pela bateria. Se a primeira fase da Malice tinha uma identificação mais direta com o stoner rock, a entrada de Diego aprofundou uma escuta compartilhada por ele e Bia: o blues. Slides, guitarras mais abertas e certa atmosfera retrô atravessam boa parte do álbum sem retirar do grupo sua característica mais direta. “O stoner e o blues acabam se mesclando de alguma forma. A gente incorporou muito slide de guitarra e isso ajudou a levar a sonoridade da Malice para outro lugar”, explica Diego.

Quinze músicas como exercício criativo

A quantidade de faixas de Sob a Pele também teve impacto direto sobre o resultado. Com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF), o projeto previa a criação de 15 músicas, uma escolha que inicialmente pareceu ambiciosa para a banda, mas acabou obrigando Bia e Diego a levarem a composição para territórios que talvez não explorassem em um trabalho mais curto.

“Ter que criar 15 músicas acabou sendo um exercício muito bom. Levou nosso processo para lugares em que talvez a gente não chegasse sem essa provocação. Eu gosto de pensar a criatividade dessa forma, tirando um pouco o peso do perfeccionismo”, afirma Bia.

Entre os temas que aparecem ao longo do disco, a presença e a trajetória das mulheres ganham destaque em “Me Faz Queimar”. A canção parte do reconhecimento de mulheres que abriram caminhos para que outras também pudessem ocupar espaços historicamente mais associados aos homens. Essa perspectiva também esteve presente em ações realizadas pela banda durante o processo do álbum, como um workshop de escrita criativa e uma roda de conversa com mulheres da cena musical.

A colaboração feminina também aparece ainda em “Let It Burn”, que recebe Cris Botareli, do Far From Alaska e Ego Kill Talent, na segunda voz e no lap steel. Cris e Bia já se conheciam há alguns anos quando surgiu o convite para participar da faixa. Na gravação, ela teve liberdade para experimentar sobre a música e enviou diferentes possibilidades de vocais e instrumentos para que a Malice construísse a versão final da faixa.

Confira o faixa-a-faixa, feito pelos próprios integrantes:

  1. Nova Pele é sobre recomeço, sobre a volta da banda nessa nova fase, com uma nova formação e um novo som. Com uma pegada mais stoner, a música é curta e direta ao ponto, como uma forma de reapresentação da banda.
  2. The Devil That You Know é a primeira a apresentar a influência do blues nesse novo álbum. Com um slide muito presente e uma pegada retrô, a música fala sobre como lidar com demônios que não conhecemos é mais difícil do que lidar com os nossos próprios.
  3. Instinto Natural é uma música que já tem pelo menos uns 5 anos e estava aguardando a nova fase da Malice para ser refinada. Com riffs simples e diretos, unidos a uma forte linha vocal, Instinto é a terceira música do álbum e introduz a presença marcante do novo baterista na banda.
  4. Me Faz Queimar é uma canção sobre mulheres e como, de alguma forma, todas foram responsáveis por abrir caminho para que novas mulheres ocupassem espaços mais comumente ocupados por homens. Com um refrão mais pop e uma pegada meio country, Me Faz Queimar foi o terceiro single lançado pela banda em 2026.
  5. Calibre também é uma música mais antiga que ganhou uma nova roupagem para o álbum, especialmente pela presença marcante dos slides do guitarrista Diego Castro. Escrita durante a pandemia, ela carrega a atmosfera daquele período de isolamento e o perigo que o ar carregava. No final, a música ganha ainda mais força com a parte B do solo de Bia Nobre, encerrando a faixa de maneira contundente.
  6. Let It Burn tem a participação de Cris Botarelli (Far From Alaska e Ego Kill Talent) nos backing vocals e no lap steel. A música fala sobre o recomeço após se “arrancar” uma parte estragada dentro de si. Com um riff simples e forte, a canção tem uma pegada mais crua e sensual.
  7. Seu Sangue É o Mar tinha o apelido de “Piratinhas” antes de ser gravada. Guiada por uma melodia principal criada pelo marido da Bia, a canção virou um canto de marinheiro, uma cantiga de tradição oral que conta a história de uma pessoa recomeçando a vida.
  8. Te Provar é uma faixa que começa mais “minimalista”: bem marcada apenas pelo baixo, a guitarra entra depois, mas o som vai crescendo aos poucos. Com uma pegada mais sensual, a letra faz um trocadilho com o termo “te provar”.
  9. Utopia II é uma releitura do single do EP Respiro, de 2019. A música original teve a participação de Diego Castro em sua composição, numa época em que Diego ainda nem fazia parte da banda. A ideia dessa versão foi, então, fazer uma releitura da música a partir do novo tipo de som que Diego trouxe para a banda.
  10. Pelo Olhar é uma música de resistência, simples e direta ao ponto. Ela fala com dois interlocutores opostos: o opressor e o cúmplice. A faixa termina com um solo cortante de Diego.
  11. Uma Canção é a faixa mais intimista do álbum, apenas com piano e voz feitos pela Bia. A música fala sobre alguém que não consegue encontrar sua própria voz e termina abruptamente para simbolizar essa falta de palavras.
  12. Rosetta é uma homenagem à mulher que inventou o rock e uma figura que a banda reverencia: Sister Rosetta Tharpe. Com uma resonator ao fundo, a canção busca honrar a memória dessa mulher tão importante pra história do rock.
  13. Meu Jardim fala sobre o amor virar pesar, sobre querer tanto algo a ponto de transformar aquilo em sofrimento. Fala também sobre o perfeccionismo que paralisa e sobre os demônios que nós mesmos criamos.
  14. Love Like This é uma balada feita em homenagem aos gatinhos da Bia, mas que pode ser lida pela perspectiva de qualquer pessoa que tenha algum filhote, humano ou não, que seja muito importante em sua vida.
  15. Sussurro é uma música que foi composta na primeira era da Malice. A base, feita por Gabriel Lira, traz peso em uma pegada stoner, ideal para o fechamento do álbum.

Ficha técnica

Produção musical, mixagem e masterização: Ricardo Ponte
Beatriz Nobre: voz e guitarras
Diego Castro: guitarras
Vinícius Arbués: baixo
Marcelo Melo: bateria

Participações: Cris Botareli, Maísa Lacerda, Rafael de Deus e Vini Pires
Produção executiva: Raquel Fernandes