O teatro em busca de olhares sensíveis


Uma fila de espera de casais e amigos, um público jovem que não costumo ver frequentemente em espetáculos da cidade. Talvez até eu precise observar mais o perfil dos novos públicos de Brasília – essa mudança é sempre válida. Na galeria, o público é recebido por atores e logo percebemos que haverá muita interação entre plateia e intérpretes. Como eu conhecia um pouco do processo de trabalho da Coletiva Teatro (por meio de conversas com alguns integrantes), me preparei para ver algo meio pós-moderno, performático, talvez. Porém, a recepção dos atores nos fizeram relaxar e apenas pensar em desfrutar e fruir a obra sem muitas considerações mentais, deixando de lado aquelas vozes inquisitórias da mente do artista-espectador. E o que vi? Vi teatro! Teatro simples, sem muita metáfora, sem muito rodeio… vi o exercício cênico limpo e sem a preocupação de transgredir demais, de ir de contracultura ao formato de apresentação teatral “habitual”. Vi teatro de qualidade e digno (como aquelas rubricas que Nelson Rodrigues escrevia para propor reações sinceras de suas personagens).

“O amor que habito” fala de amor em sua forma literal. Fala de amor porque os integrantes certamente tiveram a querência de colocar o tema para jogo em meio ao processo de investigação que desenvolveram com a diretora NitzaTenenblat, que possui vasta experiência em direção teatral, teatro infantil, processo composicional para a cena, teatro e performance.. A peça nos deixa embarcar nas propostas colocadas em cena pelos atores. Explicarei melhor…

Grupo em Chicago

A Coletiva Teatro foi formada em 2015 e é integrante do Grupo de Pesquisa Criação em Coletivo para a Cena da UnB (CRICOCEN-CNPq). Em 2016, o grupo foi o único representante do Brasil no simpósio cultural “Performance Labor andAthe” da Association for Theatre in HigherEducation (ATHE), na cidade de Chicago (EUA), que contou com a participação de diferentes investigadores das artes cênicas, numa troca de experiências que propunha olhares mais sensíveis ao teatro contemporâneo e ao trabalho de preparação do artista de teatro. A partir dessas pesquisas, o núcleo de trabalho foi se aperfeiçoando e pouco a pouco deu forma ao espetáculo “O Amor que habito”, que estreou em abril deste ano no CCBB.

A história conta a decepção de uma moça apaixonada, que poderia se chamar Maria Luisa, Ana, Antonio, Margarida ou Jorge… e o público é logo convidado a se colocar no lugar da personagem através de provocações delicadas dos atores, que, a todo instante, rompem a quarta parede e dão ao público depoimentos pessoais que complementam e potencializam a história. E que depoimentos! Eles vão dos mais simples e casuais, como o sacrifício de depilar-se para agradar alguém ou de aceitar a traição do companheiro como fator condicional de um relacionamento maduro nãoformativo. Os depoimentos nos fazem rir de surpresa pela ingenuidade natural do amor e também rir de nervoso pela identificação com tantas situações delicadas vividas por casais.

Os atores interpretam todas as personagens num exercício cênico de coringamento, mantendo características das personagens-tipo propostas: a moça apaixonada, o porteiro desajeitado, o coveiro ranzinza e a velha experiente. São propositalmente figuras caricaturais que se justificam pelo contexto da encenação e que nos fazem não avaliar a performance de um ator como melhor ou pior do que a do outro. Muito pelo contrário… vamos vendo apenas quais estratégias têm para seguir contanto a mesma história num sentido crível e aprazível. Os quatro homens que dão vida às personagens masculinas e femininas nos encantam pelos apostos colocados em cena para comentários pessoais ou perguntas lançadas ao público, para que todos se identifiquem com a demência da paixão e o purgatório da desilusão. Aliás… falando em demência da paixão, quem nunca sentiu vergonha daqueles carros detelemensagensno começo dos anos 2000? Acredito que quase todos… Porém, era inevitável não ter uma ponta de esperança de que um dia também recebêssemos a visita barulhenta ao som de Toni Braxton. A paixão permite esses excessos melodramáticos. Essa história que cito acima foi colocada em cena e nos rendeu outros risos nervosos de identificação imediata. Mas, aos poucos, o riso deu lugar a um aperto na garganta quando vimos para que outros caminhos a relação a dois nos encaminha, como a apatia, a traição, a violação da individualidade e o abuso de poder.

Acredito que o grande mérito da peça seja a honestidade com que tudo é colocado em cena. Cenários, figurinos e adereços são complementares à narrativa e nos ajudam a entender o que a encenação propõe. Quando comentei agora a pouco que vi teatro em sua forma mais simples, me refiro a esse ponto também. Um dos princípios básicos que se aprende nas escolas e faculdades de teatro é a transformação de objetos em artigos cênicos… Na peça, o uso desses artigos é quase um exercício teatral demonstrado, mas com o profissionalismo acima da técnica. O trabalho de videomapping desenvolvido pelo fotógrafo e professor Thiago Sabino alia o uso da tecnologia ao exercício cênico proposto, transformando o que vemos em algo poeticamente espetacular. Diria até que a iluminação do espetáculo (feita por Higor Felipe) e a projeção de imagens em vídeomapping (feita por Sabino) são dramaturgias a parte que deixam o espetáculo cartesiano, reto, direto, simples e conciso. É bom quando se percebe que as áreas da construção do espetáculo dialogam sem que precisem de momentos literais de protagonismo e destaque.

Quanto à interpretação, é nítido o uso da técnica dos viewpoints* na topografia de toda a peça… passando pelo trajeto dos atores no espaço, pelas repetições de partituras corporais, qualidades do movimento para as cenas e as transições e trocas de personagens. Os exercícios dos viewpoints se revelam enquanto estratégia técnica numa cena em que a peça é vista em câmera rápida, como numa passagem de tempo ou numa repetição de padrão. É nesse momento que iluminação e o mapping mostram sua complexidade e totalidade dramatúrgica. Ponto para isso!

Grupo em Chicago

Eu nunca havia visto o ator Jorge Marinho em cena. Sei que já realizou trabalhos na Companhia da Ilusão/DF. Éperceptível sua consciência corporal. Uma característica que os espectadores mais atentos podem perceber é o tempo de sua flutuação**, que torna-se bem característicana performance dele. Por um minuto me perguntei se ele tinha alguma experiência voltada à dança.O ator Pedro Lopesi eu conhecia pelas redes sociais. Em “O amor que habito”, o deboche e humor com que trabalha ganham força no decorrer da peça. Na cena em que revela ser um romântico assumido com a música “Emotion” (Destiny’s) a risada é garantida. E por falar em riso, Xandre Martinelli é um comediante nato, embora eu creia que ele não acredite muito nisso. Suas ações físicas lembram pantomimas de humor físico. É um tique, um microtempo de ação física que chama muito a atenção do espectador. Por fim, temos Nei Cirqueira, experiente ator brasiliense com quem tive a oportunidade de contracenar em “O Diário do Maldito” (Teatro do Concreto, em 2009) e “Dia de visita” (Fábrica de Teatro/ Dulcina Parcerias Teatrais, entre 2009 e 2010). Nei foi um dos primeiros atores dos quais me tornei fã em Brasília. Vê-lo em cena me faz perceber o quanto a maturidade nos palcos vem em forma de serenidade. Serenidade física, serenidade vocal. Digo isso como uma maneira de tentar explicar o quanto a instrumentalização teatral é algo que ganha força com o tempo mesmo. E a junção desses quatro atores e suas histórias pessoais em cena, viram uma espécie de microcosmo das novas relações afetivas e suas aventuras e desventuras: São quatro homens interpretando homens e mulheres sem disfarces e, principalmente, sem correções vocais heteronormativas- aquelas que diziam que as afetações vocais do ator deviam ser suprimidas para normatizar o e assegurar um “padrão” masculinizado em cena. Se o espetáculo quer nos afetar, toda e qualquer afetação será bem vinda! Isso é ser contemporâneo.

O amor que habito

“O amor que habito” já tem estreia internacional agendada na cidade de San Marcus, Texas (EUA) em 2018.Para quem tiver interesse em acompanhar o último final de semana dessa temporada em Brasília, há uma fila de espera que é formada na Galeria 04 do CCBB, pois os ingressos foram vendidos em sua maioria. No dia em que fui, todos da fila de espera conseguiram assistir, ou seja… vale a pena tentar. A peça começa às 20h30 e a classificação é de 14 anos.

Página do espetáculo no Facebook: https://www.facebook.com/pg/oamorquehabito/photos/?ref=page_internal

*Viewpoints – Os Viewpoints (pontos de vista) foram originalmente desenvolvidos nos anos 70 pela coreógrafa Mary Overlie. São instrumentalizações e técnicas de improvisação que possibilitam um vocabulário para pensar e agir sobre movimentos e gestos. São nove os Viewpoints Físicos, subdividos em duas categorias: Tempo (Tempo, Duração, Resposta Cinestésica e Repetição) e Espaço (Forma, Gesto, Arquitetura, Relação Espacial e Topografia).

**Flutuação – Ação básica de esforço, codificada pelo Método Laban (dançarino, coreógrafo, teatrólogo, musicólogo). Pode ser flutuação leve, contínua, indireta… Há outros métodos atribuídos a Laban, como empurrar, deslizar e pontuar, porém as nomenclaturas e terminologias variam de escola para escola.

É isso, caro leitor. A coluna PRODUÇÃO CULTURAL vem de encontro à uma série de necessidades e dúvidas de quem trabalha ativamente com arte e cultura no Distrito Federal. Esse é um espaço para que a informação e o entretenimento caminhem juntos. Toda semana, um texto diferente pra você se antenar, dialogar e mandar bem no seu trabalho!

Sobre Josuel Juinor

Josuel Junior é ator, professor, produtor cultural e assessor de imprensa formado pela Fundação Brasileira de Teatro – Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Tem trabalho ativo em teatro, cinema, televisão e fotografia.

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