Em maio, Brasília finalmente terá uma exposição antológica da arte singular de Fernando Madeira

A partir do dia 18 de maio, o público de Brasília poderá conferir a exposição que foi concebida como uma coletânea que comemora os 80 anos de Fernando Madeira, 40 deles dedicados à arte. O Museu Nacional da República vai abrigar até 1º de julho uma arte que tem como ideia fixa salvar tudo o que está se acabando, estabilizar ruínas, evidenciar – ainda que uma última vez – a beleza das coisas idas. Para Fernando Madeira “aquilo que é descartado pela razão utilitária é reaproveitado pela arte”.

Nem retrospectiva nem cronológica, essa mostra faz um recorte que enfatiza o caminho, o método para a busca de uma dicção singular. Na diversidade da produção do artista, foram selecionados trabalhos representativos de uma trajetória em que as opções estéticas, as experiências com as técnicas e materiais evidenciam a coerência de um percurso de subjetivação que acontece paralelamente ao manuseio da matéria e ao aperfeiçoamento do exercício do olhar.

Exibindo lado a lado trabalhos de diferentes décadas, alguns inéditos em Brasília, essa exposição antológica pretende ser uma possibilidade de aproximação com uma obra particular cuja força de sustentação está em si mesma. Os trabalhos foram distribuídos e organizados em quatro módulos: Arquiteturas, Gravuras não gravuras, Paisagem e Figuras. São eixos que permitem perceber rupturas, mudanças de rumo, assim como a maestria do artista na arte do desenho, da pintura e da colagem.

O primeiro módulo – Arquiteturas – traz um conjunto diverso e aparentemente incoerente, mas que, olhado com atenção revela-se um composto de obras seminais, oferecendo eixos de leitura que esclarecem e potencializam os outros módulos. O flerte com as diversas tendências da pós e da transvanguarda, o colagismo, a arte povera, o neo-expressionismo, enfim todos os territórios poéticos que emergem a partir dos anos 1980, fica evidente nas experiências das primeiras décadas em que começou a expor seu trabalho. Ali, pode ser visto ainda, um filme realizado 16mm, em Nova York, no outono de 1978.

O segundo módulo – Gravuras não-gravuras – contém o cerne de uma reflexão estética que desmancha o vínculo entre arte e técnica e pergunta-se até onde vai a capacidade que tem a arte de iludir. Ao utilizar restos de jornais que limparam a tinta da prensa que havia servido para a imprimir as gravuras e por obter deles efeitos inesperados, essas obras põem em questão certas verdades acerca da hierarquia e do potencial poético dos materiais. Com a colagem, o artista faz gravuras.

Em Paisagem, o terceiro módulo, a ênfase recai sobre as paisagens, todas elas realizadas em colagem, a técnica de predileção e dominante em toda a obra do artista. Trabalhos mais recentes coexistem com outros produzidos nos anos 1990, evidenciando a continuidade de uma prática que vem de longe e que passou a interessar cada vez mais ao artista. Desde as paredes muito densas, feitas de papéis emplastrados de cola e de cal, até as paisagens líricas das Serras Gerais, mais recentes, a colagem é técnica e é método.

Figuras constitui o quarto módulo. São obras realizadas em diferentes momentos da trajetória do artista. São desenhos a lápis, colagens, aguadas, guaches, aquarelas, bastões de óleo, giz de cera, bicos de pena que evidenciam o interesse pela Figura. Dos Retratos e Máscaras às Máquinas de Guerra (1988/89), a figura é tema central e recebe tratamentos variados, tornando-se a parede branca onde se inscrevem traços como recônditos afetos, traduzindo experiências e biografias. Aí estão também os Bichos, mitológicos ou totêmicos que produzem um efeito dramático intenso. Ou, em contraste, a série de aquarelas intitulada Príncipe em quadrinhos, que exploram múltiplas poses e fisionomias do Príncipe, cachorro de estimação do artista, vira-latas com ares de perdigueiro, que desvela uma gama de afetos raros.

A mostra Conservar o tempo – A arte de Fernando Madeira tem a curadoria da professora e crítica de arte Angélica Madeira. Poderá ser vista a partir do dia 18 de maio na Galeria do Acervo do Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, de terça-feira a domingo, das 09h às 18h30.

Fernando Madeira – O artista nasceu em Angra dos Reis (RJ), mas reside em Brasília, que chama de seu lar, desde 1980. Tornou-se arquiteto, especialista em restauro de monumentos e conjuntos urbanos antigos. Fernando recebeu diversos prêmios, como o Prêmio Lúcio Costa na III Bienal de Arquitetura de Brasília e o Selo Comemorativo dos 25 da Companhia Siderúrgica Nacional, entre outros.

Serviço

Conservar o tempo – A arte de Fernando Madeira
Curadoria: Angélica Madeira e Gladstone Menezes
Galeria do Acervo
Museu Nacional do Conjunto Cultural da República
Abertura: 17 de maio de 2018 às 19h
Visitação pública: de 18 de maio a 1º de julho de 2018
Horário: de terça-feira a domingo, das 09h às 18h30

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