A Fábrica dos Programas Diários


PROJAC – A FÁBRICA DOS PROGRAMAS DIÁRIOS

Que a Central Globo de Produções é um império do entretenimento nacional todo mundo sabe, mas e os bastidores da produção cultural do Projac. Você conhece?

No último final de semana, tive uma missão: levar estudantes do Centro de Ensino Fundamental 01 da Candangolândia para uma manhã diferente, em meio a uma verdadeira central de produção televisiva. Eles foram selecionados para um projeto intitulado VIAGEM CULTURAL, desenvolvido numa escola pública do DF. O planejamento curricular da disciplina Artes, passeia pela linguagem televisiva e de vídeos de internet, dialogando com as novas mídias, tão acessadas pela geração nascida no começo dos anos 2000.

Na ocasião da viagem, agendamos uma gravação do Programa Encontro com Fátima Bernardes, cujo tema era a multiprofissões e a estreia da nova novela das nove da Globo: “Segundo Sol” (João Emanuel Carneiro, 2018). Mas antes de começar a contar como funciona um dia de gravação de programa diário, quero voltar um pouco na história do Projac. Vamos lá…

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PROJAC significa PROJETO JACAREPAGUÁ, criado para transferir os estúdios globo para uma região mais afastada, longe do tumulto de bairro como Jardim Botânico, onde geralmente novelas e programas de auditório eram gravados entre a década de 1980 e 1990. Obviamente, gravar uma novela ou um programa de auditório na Zona Sul do Rio de Janeiro devia ser uma aventura. Aventura pelo trânsito congestionado, pelos repórteres querendo exclusivas na porta da emissora e pelas filas gigantescas de figurantes e caravanas que acompanhavam programas como “Cassino do Chacrinha”, “Globo de Ouro”, “Xou da Xuxa” e “Domingão do Faustão”. Qual era a melhor alternativa para não prejudicar a rotina da cidade? Criar um polo televisivo onde as gravações externas fossem minoria, otimizando todos os espaços de um novo complexo para construção de cidades cenográficas que reproduziam fielmente pontos da cidade.

Assim, começou a ser construído o Projac. Essa transição da Zona Sul para a Zona Oeste foi bem gradativa. Antigamente, as novelas tinham suas cidades cenográficas montadas em Guaratiba, aproveitando a vegetação local e o afastamento do centro urbano. Asa Branca, de “Roque Santeiro”, Santana do Agreste, de “Tieta”, Coroado, de “Irmãos Coragem” foram construídas na Zona Oeste do Rio. Até que em 1989 foi gravada a primeira novela no bairro da Curicica, em Jacarepaguá – “Que rei sou eu?” (Cassiano Gabus Mendes, 1989), que utilizou para as suas locações o que um dia seria conhecido como a sede da Central Globo de Produções. A inauguração oficial do Projac só ocorreu em 1995, com a estreia da novela “Explode Coração” (Glória Perez, 1995). Ela sim foi inteiramente rodada no novo complexo, com exceção de algumas cenas gravadas na praia da Barra e Recreio.

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Talvez tenha sido a melhor solução, até porque o Projac realmente é bem longe. Ao chegar lá é inevitável não se surpreender com a linha de produção. Frequento o complexo há muitos anos, desde a minha época de figurante de telenovelas e programas da linha de entretenimento. Já fui em muita gravação do extinto “TV Xuxa”, onde passávamos cerca de 6 horas num estúdio congelante para fechar uma gravação de uma hora e 30 minutos. Desde que estreou, participei também de muitas edições do Programa Encontro com Fátima Bernardes, sempre levando participantes de meus cursos, oficinas, parceiros de trabalho e, agora, estudantes da rede pública de ensino. Para quem quer conhecer como funciona o ritmo de gravação de um produto diário, o “Encontro” é uma verdadeira aula de TV.

FUNCIONA MAIS OU MENOS ASSIM…

De segunda a sexta, cerca de 100 pessoas participam da plateia, que, de acordo com o tema, é dividida entre entrevistados específicos, figuração, fã-clubes e convidados de produção. A equipe de Produção de Elenco vai percebendo, também de acordo com o tema, se será necessário chamar uma caravana, um grupo de fãs específicos para um artista X ou Y, pessoas que se inscreveram pra plateia através do site do programa ou apelar para a figuração, que recebe um valor específico para compor a plateia, afinal, garantir 100 pessoas por dia às 8h30 da manhã é trabalhoso.
O Projac tem 4 portarias. A Portaria 1 é de veículos e carga, a Portaria 2 de Funcionários, a Portaria 3 de Funcionários e Elenco e a Portaria 4 de Figurantes de agências de casting. É na Portaria 4 que os aspirantes a funcionários da Globo fazem seu cadastro na emissora, mas isso comentarei em outro texto. Para as pessoas que participarão como plateia geral, há uma portaria extra, que é a Entrada de Plateia.

Lá a pessoa chega duas horas antes da gravação, assina os Termos de Cessão de Direito de Imagem, ganha um lanche e espera a hora de entrar. Já para os convidados de produção, o esquema é bem diferente: A pessoa entra pela Portaria 3, recebe um crachá para circulação interna, é recepcionada por um dos motoristas de carrinho elétrico e conduzida até o estúdio do programa. Lá, um vasto café-da-manhã os espera. Nessa condição, os convidados usam os mesmos camarins dos artistas e apresentadores. O que pouca gente sabe é que os corredores, salas de estar e camarins do programa Encontro são usados para a realização do programa Vídeo Show no turno da tarde. Antigamente, montavam o cenário do Vídeo Show dentro do cenário do programa de Fátima Bernardes. Hoje, foi feito um puxadinho super estiloso em glass studio para os apresentadores. Os estudantes da Candangolândia conheceram ele também, conforme vídeo abaixo.

Entrando no estúdio, alojam-se os convidados de produção, em seguida entra a plateia e por fim os entrevistados e apresentadores. É tudo muito rápido e objetivo. O improviso é bem-vindo, mas o roteiro é respeitado quase à risca, afinal, gravar um programa ao vivo requer uma noção de tempo apurada, tanto dos entrevistados quanto dos apresentadores. É tudo tão marcadinho que, às vezes, nós, sentados na plateia, nos esquecemos se estamos no meio do programa ou se já é intervalo comercial. Muito bem feito.

Na ocasião dessa última visita que fiz aos Estúdios Globo, a apresentadora Fátima Bernardes estava recebendo uma premiação em Miami e em seu lugar veio a apresentadora Ana Furtado, que já conhecia de outras gravações do programa. Ao final, a plateia é subdividida em blocos para tirar fotos com os participantes e apresentadores. Isso leva mais ou menos meia hora e, acredite… tiram realmente fotos com todos – Ponto para a emissora!

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Os estudantes da Candangolândia ainda tiveram a oportunidade de conhecere um pouco mais do complexo. Há muita coisa pra se ver… Os banners gigantes das novelas, as cidades cenográficas, a fábrica de figurinos e cenários. Tudo muito grandioso. Noveleiros mais atentos conseguem perceber uma semelhança entre cidades cenográficas de novelas antigas. A mesma de “O Cravo e a Rosa” (Walcyr Carrasco, 2000) serviu de cenário para “Gabriela” (Walcyr Carrasco, 2012), “Saramandaia” (Ricardo Linhares, 2013), “Em família” (Manoel Carlos, 2014), “A lua me disse” (Miguel Falabella, 2005)… e por aí vai. É, de fato, um lugar impressionante. Como vou sempre, já me acostumei, mas como também sempre acompanho alguém que nunca foi, percebo o quanto aquilo impressiona.

O vídeo com a visita dos estudantes Leonardo Cardoso, Vinícius Soares do CEF 01 da Candangolândia foi exibido para toda a escola e fez parte de um projeto interdisciplinar da disciplina Artes.

É isso, caro leitor. A coluna PRODUÇÃO CULTURAL vem de encontro à uma série de necessidades e dúvidas de quem trabalha ativamente com arte e cultura no Distrito Federal. Esse é um espaço para que a informação e o entretenimento caminhem juntos. Toda semana, um texto diferente pra você se antenar, dialogar e mandar bem no seu trabalho!

Josuel Junior é ator, professor, produtor cultural e assessor de imprensa formado pela Fundação Brasileira de Teatro – Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Tem trabalho ativo em teatro, cinema, televisão e fotografia.

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